As diferenças na exposição do homem e da mulher
No Carnaval, o corpo vira discurso. Fala sem pedir licença, dança antes da frase terminar e ocupa a rua como quem reivindica existência. Mas nem todos os corpos dizem a mesma coisa — e, sobretudo, não são ouvidos da mesma maneira.
O corpo masculino desfila em liberdade. Peito nu, suor escorrendo, fantasia improvisada, exagero permitido. O homem que se expõe no Carnaval é visto como brincalhão, ousado, livre. Seu corpo é força, desejo, potência. Se exagera, é folia.
Se bebe demais, é excesso típico, afinal a virilidade masculina se potencializa e isso pode ser um estímulo até mesmo a atos de violência, e está tudo bem. Só que não! Não está tudo bem! Se tocar alguém sem consentimento, é “empolgação”. O corpo masculino, mesmo quando atravessa limites, raramente carrega culpa. Ele pertence à rua como se a rua fosse uma extensão natural de si.
Mulher não pode beber demais por ser feio e inadequado e claro havendo alguma violência a bebida é a justificativa perfeita para isso. Afinal o álcool aumenta a vulnerabilidade feminina ou será que somado a suposta virilidade masculina e à desigualdade de gênero que os favorece muito mais, eles se sentem “no direito” de fazer o que e como quiserem? e isso independe do consumo de álcool por elas…
Já o corpo feminino entra na festa com uma negociação silenciosa. Ele dança, mas é observado. Ele mostra, mas é julgado. Ele provoca, mas é responsabilizado. A mulher no Carnaval carrega uma contradição costurada na pele: ao mesmo tempo em que é incentivada a se expor, é vigiada por essa exposição. Seu corpo é convite e sentença.Não há problema na nudez feminina, ao contrário ela é incentivada e desejada. Quanto menos roupa, mais pele e corpo à mostra melhor.
No caso dos homens é diferente, há sim exposição de corpo e pele mas comparativamente à feminina são menos homens que desfilam cobrindo apenas a genitália, como ocorre com as mulheres. Por quê? Será que o público não tem interesse em ver corpos masculinos tal qual os femininos?
Sabendo que no contexto do carnaval a sexualidade é vivida de forma livre e liberta como em poucos momentos ao longo do ano, por que os corpos masculinos também não são incentivados a serem expostos, quase que em entranhas como o feminino?
Não faltam coberturas jornalísticas em tv que já mostraram partes íntimas femininas de forma absolutamente deplorável. Isso acontece com os homens? Na verdade, não deveria acontecer com ninguém por uma questão ética, mas isso é outro papo.
Importante: Favor não confundir: liberdade com violação e violência, todo e qualquer contato sexual por menor que seja deve ser consentido do início ao fim, independente de orientação sexual e identidade de gênero.
O mesmo short curto que no homem vira irreverência, na mulher vira “excesso”. O mesmo beijo descompromissado que nele é liberdade, nela vira rótulo. O mesmo corpo suado que nele é virilidade, nela é desculpa para o assédio — como se o suor fosse um pedido, e não consequência da dança.
Há uma pedagogia cruel no Carnaval. Ensina-se cedo às mulheres que o corpo é público, mas a culpa é privada. Que podem dançar, mas precisam prever o olhar do outro. Que podem desejar, desde que aceitem ser desejadas sem consentimento. Que a fantasia cobre pouco, mas o cuidado deve ser enorme.
O homem não precisa pensar no caminho de volta para casa com o mesmo medo. Não precisa calcular o quanto bebeu em relação à segurança nem andar em grupos com pelo menos 1 homem. Lembre-se: várias mulheres juntas é o mesmo que mulheres sozinhas… Não precisa combinar mensagens de “cheguei bem”. Seu corpo não é um território constantemente ameaçado. Ele atravessa a multidão sem imaginar que o toque pode virar violência.
No Carnaval, a sexualidade masculina é celebrada como expressão. A feminina, tolerada como espetáculo — desde que não reclame autoria. A mulher pode ser musa, mas não sujeito. Pode ser imagem, mas não voz. Pode ser desejo, mas não desejar sem explicações. E claro a mulher precisa ter o corpo escultural já o homem não. Pra quem não lembra houve uma discussão acalorada sobre a possível realização de procedimento estético na área íntima da atraiz Paola Oliverira, isso graças a um maiô cavado usado em um ensaio da Grande Rio.
Juliana Paes brilhou na volta à Avenida depois de quase 20 anos aos 47 e declarou a importância de mulheres maduras poderem usar a fantasia que quiserem, basta estarem feliz consigo mesma. Ser sujeito do próprio corpo e escolhas é não se sujeitar a opiniões de ninguém, e isso é muito maior que o carnaval.
Quantos reis de bateria e musos de escola você vê? Está perdoado e legitimado ao homem ter um corpo normal, mas não à mulher. Independente da fase da vida precisa estar sempre impecável, precisa? As preparações das mulheres acontecem muitas vezes 6 meses antes, afinal além de estar sempre bela é preciso ser A mais bela das rainhas.
E, no entanto, elas vão. Vão em blocos, em bandos, em risadas altas que desafiam o medo. Vão de glitter, de coragem, de pactos silenciosos. Vão porque também querem o direito ao excesso, ao erro, ao prazer sem legenda. Vão porque o Carnaval também é delas, mesmo quando o mundo insiste em lembrar que o preço é mais alto.
Há algo profundamente político no corpo feminino que dança apesar de tudo. Que ocupa a rua sabendo que será lido, distorcido, avaliado — e ainda assim escolhe existir com intensidade. É resistência em forma de samba. É enfrentamento em forma de salto. É recusa a caber no olhar estreito de quem confunde liberdade com autorização.
Talvez o Carnaval seja esse espelho incômodo. Ele não cria desigualdades; apenas as revela sob o sol, o som e o suor. Mostra que ainda vivemos em uma sociedade que celebra a liberdade masculina e administra a feminina. Que aplaude o corpo do homem que goza e questiona o corpo da mulher que sente e também goza. O homem que colecionou parcerias sexuais é O cara, já a mulher é A #####.
Quando os confetes caem e a quarta-feira chega, sobra a pergunta que não se dissolve com a chuva: até quando a sexualidade feminina será vista como provocação e não como direito? Até quando o corpo da mulher precisará justificar sua presença, enquanto o do homem simplesmente está?
O Carnaval passa. A diferença fica. E talvez escrever sobre isso seja também um jeito de não deixar que a música abafe o que precisa, urgentemente, ser ouvido. Todos precisam ter voz e vez de forma justa sem cobranças nem punições, afinal são apenas 4 dias para tudo se acabar na quarta-feira com as cinzas da quaresma e de todas essas desigualdades de gênero que presenciamos ano após ano todos os dias.
