Por que tantas mulheres duvidam de si mesmo quando já são capazes
Este é o terceiro texto da série “Mulheres que Sustentam: liderança, maternidade e o que ninguém vê”, que propõe uma leitura crítica sobre os desafios invisíveis enfrentados por mulheres em crescimento — especialmente aqueles que não aparecem, mas influenciam diretamente suas decisões.
Existe uma narrativa comum quando se fala sobre insegurança feminina: a chamada “síndrome da impostora”.
O termo ganhou força ao longo dos anos e passou a ser usado para explicar a sensação de não pertencimento, de insuficiência ou de dúvida constante, mesmo diante de conquistas reais.
Mas talvez seja hora de questionar essa ideia. Será que estamos, de fato, diante de uma síndrome?
Ou estamos apenas nomeando de forma individual um problema que é coletivo?
Já reparou que na maioria das vezes são as mulheres que tem a síndrome da impostora? Embora estudos acadêmicos apontem que atualmente os índices de gênero estão mais equiparados, também destaca que as mulheres passaram mais pela sensação de não ser boa o suficiente, mesmo sendo qualificadas.
Muitas mulheres crescem aprendendo que precisam estar mais preparadas, mais completas, mais seguras do que realmente é exigido para ocupar determinados espaços.
Precisam estudar mais.
Se provar mais.
Esperar mais.
E, mesmo quando chegam lá, continuam duvidando.
Não porque não são capazes mas porque foram treinadas a questionar a própria capacidade. Afinal sabemos que por mais que tenhamos toda a possibilidade de ocupar espaços nem sempre temos essa oportunidade.
A desigualdade salarial está ai para mostrar isso, bem como as demissões nas volta da licença-maternidade, a dificuldade de subir de cargo por ser mulher, a entrada no mercado de trabalho após a maternidade.
O relacionamento com clientes, que nem sempre é amigável. Enfim uma serie de situações que nos leva a duvidar de nós mesmas. Que mulher nunca passou por isso? Assim como eu, aposto que você já passou ou conhece alguma mulher que tenha passado.
Entre empreendedoras, empresárias e profissionais liberais, isso se manifesta de forma muito concreta. Mulheres que já têm clientes, resultados, experiência, mas ainda hesitam em se posicionar com clareza. A ideia recorrente é ” e se… eu perco…?” Perde o que? A oportunidade de ser vista como alguem que decide?
A perda é infinitamente menor do que o ganho em se posicionar e dizer claramente o que quer ou não, mas ainda:
Adiamos decisões.
Minimizamos conquistas.
Sentem que ainda “falta alguma coisa”.
Precisamos estar prontas! Ai caimos na armadilha do conhecimento: fazer mil cursos até se sentir pronta para começar quando em verdade basta agir!
Mas o que falta, muitas vezes, não é competência.
É se permitir!
Ocupar o espaço que já é seu
Para reconhecer o que já construiu
E se apresentar com segurança — sem precisar de validação constante.
O problema é que ao nomear isso apenas como “síndrome”, corre-se o risco de individualizar algo que foi socialmente construído.
A dúvida e consequentemente a “sindrome da impostora” não nasce do nada.
Ela é alimentada por referências, comparações e expectativas que atravessam a trajetória feminina desde muito cedo.
Somos ensinadas a competir umas com as outras lembra? Sempre tem uma prima, a amiga da vizinha, a colega de alguem que claro é bem melhor que você!
Quando entendemos a importância da união entre mulheres, uma como rede de apoio da outra, e principalmente da conexão com a própria essência, pode chamar de sagrado feminino, mulher selvagem, essência, o nome é o que menos importa, ai o jogo muda!
De:
“Será que eu sou capaz?”
Para:
“Por que eu ainda acho que não sou?”
Essa inversão desloca o problema. E, ao fazer isso, abre espaço para algo fundamental: consciência.
Porque, quando a mulher percebe que sua dúvida não é uma incapacidade — mas uma construção — ela começa a se reposicionar.
E esse reposicionamento não é imediato.
Mas é transformador.
Ele começa no reconhecimento.
Avança na prática.
E se fortalece na repetição.
Até que, aos poucos, o espaço que antes parecia grande demais passa a ser apenas o próximo passo natural
Se a dúvida sobre si mesma é um dos pesos invisíveis que muitas mulheres carregam, há outro que atravessa ainda mais profundamente suas trajetórias — muitas vezes sem espaço para ser nomeado:
a maternidade.
No próximo texto, a reflexão se volta para um tema frequentemente idealizado, mas pouco explorado em sua complexidade real:
a maternidade além da romantização.
O que ninguém conta — e por que isso ainda precisa ser dito.
