A sobrecarga, o cansaço e as estruturas silenciosas por trás de mulheres que fazem acontecer

Este é o segundo texto da série “Mulheres que Sustentam: liderança, maternidade e o que ninguém vê”, que investiga as camadas invisíveis da experiência feminina contemporânea — especialmente aquelas que sustentam, silenciosamente, tudo o que se vê. No texto anterior falamos sobre a liderança feminina.

Toda liderança visível é sustentada por uma estrutura invisível. Cá entre nós quantas mulheres não ficam nos bastidores da casa e família, filhos inclusive, enquanto os parceiros saem para trabalhar e seguir seus planos tranquilamente, muitas vezes ignorando totalmente a carga mental que recai sobre elas?

Quando falamos de mulheres que trabalham, seja empreendedora, profissional liberal ou CLT, essa carga a sustentar é ainda maior pois é somada às do trabalho e a falta de tempo de olhar para si.

No caso de muitas mulheres, essa estrutura invisível a quem não tem olhos de ver, não é feita apenas de processos, estratégias ou planejamento. Ela é construída com tempo fragmentado, energia dividida e uma capacidade constante de adaptação, pois imprevistos não faltam.

Especialmente entre empreendedoras, empresárias e profissionais liberais, liderar não é apenas tomar decisões. É administrar demandas simultâneas, lidar com incertezas, sustentar responsabilidades pessoais, familiares, profissionais; e, muitas vezes, fazer isso sem uma rede de apoio sólida.

Enquanto o resultado aparece, o processo permanece oculto. “Quem vê close não vê corre”, já ouviu por ai? É sobre isso! Há uma narrativa recorrente que celebra mulheres que “dão conta de tudo”.

Mas pouco se questiona o custo dessa conta. Pouco se fala sobre o que é deixado de lado, sobre o cansaço acumulado, sobre as decisões tomadas em silêncio. Como se “dar conta de tudo” fosse uma obrigação e ai te digo: Não é!

Não “temos que” dar conta de tudo. Tudo é muita coisa! Temos que dar conta sim do que elencarmos como prioridade. Afinal a SOBRE- Carga só vem quando pegamos a Carga ALÈM do que podemos. Ouvi isso em uma consulta e não esqueci mais.

Porque há dias em que liderar não é sobre crescer, especialmente nos mais cansados e/ou cansativos — é sobre sustentar: seja a casa, o negócio, a vida mas principalmente a si mesma. Afinal ser uma líder é exercitar primeiramente a Auto liderança sem ela não se lidera a nada nem a ninguém e com isso nada se sustenta.

Lidera bem quem consegue:

Sustentar o negócio, mesmo quando o retorno oscila.
Sustentar a casa, mesmo quando o tempo falta.
Sustentar as relações, mesmo quando a energia diminui.

E fazer tudo isso sem interromper o movimento.

Esse tipo de liderança não aparece em gráficos. Não se traduz em métricas imediatas. Mas é ela que mantém estruturas inteiras funcionando.

O problema é que, ao permanecer invisível, esse esforço também se torna naturalizado.

Como se fosse esperado. Como se fosse simples. Como se não exigisse suporte.

Mas exige.

Exige estrutura, exige rede, exige reconhecimento.

E talvez o ponto mais sensível esteja justamente aí: muitas mulheres sustentam tudo — sem serem sustentadas, apoiadas, com divisão e não ajuda.

Veja a diferença: Quando EU TE AJUDO em alguma tarefa a RESPONSABILIDADE É SUA e eu sou coadjuvante, alguém legal que AJUDOU POR FAVOR . Já quando EU DIVIDO com você a RESPONSABILIDADE É NOSSA eu FAÇO POR COMPROMETIMENTO, sou consciente do meu papel . Ambos somos protagonistas, parceiros. Percebe a diferença?

É a mesma que você percebeu por estar em maiúsculas, que sei funciona visualmente como um grito escrito, mas deixei assim para chamar a atenção propositalmente e trazer impacto. E é absurdo o efeito do impacto da carga mental feminina, em todos os âmbitos na qualidade de vida da mulher e produtividade, quando as circunstâncias ocorrem:

Sem apoio proporcional.
Sem divisão real de responsabilidades.
Sem espaço legítimo para parar.

Trazer à tona esses bastidores não é enfraquecer a liderança feminina. É dar nome ao que sustenta essa liderança.

É reconhecer que existe força — mas também existe desgaste.
Que existe autonomia — mas também existe sobrecarga.

E que nenhuma estrutura se mantém de forma saudável quando depende exclusivamente de uma única base.

Talvez, antes de admirar o resultado, seja preciso perguntar:

o que está por trás dele?

E mais do que isso:

quem está sustentando essa mulher enquanto ela sustenta tudo? Muitas vezes ela mesma, ou algumas redes de empreendedorismo, mas na maioria das vezes é apenas ela, que não consegue sustentar o olhar para si e por vezes negligencia a própria saude e qualidade de vida por não cuidar de quem mais importa: Ela mesma.

Da próxima vez que tiver contato com uma mulher visivelmente cansada (somos boas em disfarçar ,se estiver visível a situação está bem tensa, vai por mim) pergunte e se interesse verdadeiramente por ela. Escute-a, apoie, acolha, é sobre isso! muitas vezes uma pergunta do tipo “Como vc está?” com interesse real abre um espaço enorme para oferecer uma ajuda com empatia.

No próximo artigo, a reflexão se aprofunda em um ponto ainda mais silencioso — e, muitas vezes, confundido com fragilidade: a dúvida constante que atravessa mulheres que já são capazes.

Será mesmo síndrome da impostora?
Ou estamos falando de um excesso de cobrança que nunca foi questionado?

Essa é a conversa do próximo texto.

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Joana D’arc Souza é jornalista, escritora, ghostwriter e revisora. Une técnica e sensibilidade para transformar ideias em textos que tocam, inspiram e despertam reflexão. Apaixonada por cultura, especialmente livros e pela força das palavras, acredita que a leitura e escrita são formas de autoconhecimento e de conexão com o outro. Seu objetivo é que cada texto seja um convite a sentir, pensar e se expressar com verdade. Instagram: @ajoanadarcsouza

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