Houve um tempo em que o Carnaval era bagunça com sentido. Chamava-se entrudo. Era água jogada, farinha no rosto, risada fácil e licença simbólica para inverter a ordem do mundo por alguns dias. O corpo participava, sim, mas não era o centro absoluto. O riso vinha antes da carne. A provocação era coletiva, quase infantil, e o exagero tinha algo de ingênuo, mesmo quando grosseiro.

O entrudo era rude, é verdade. Molhava, sujava, invadia. Mas havia ali uma essência: o Carnaval como suspensão provisória das regras, não como negação total delas. Um intervalo para aliviar tensões, rir das hierarquias, bagunçar o cotidiano — e depois voltar. A festa tinha começo, meio e fim. E, sobretudo, tinha limite.

Em algum ponto da história, esse limite se perdeu. Foi quando o entrudo passou a incomodar as classes mais abastadas, afinal era festa dos populares. Os mais abastados faziam festas em clubes, aí começou a fantasia, a imitação dos costumes europeus. Por outro lado, o carnaval de rua se mantém firme e forte sendo mantido e crescido com a participação do povo e diversas faixas etárias.

O Carnaval passou por diversas transformações e hoje se tornou um grande espetáculo midiático sendo que muitas vezes quem está de fora não sabe: o carnaval gera emprego e renda o ano todo na preparação dele. Se você acha que a beleza dos desfiles no Sambódromo no Rio de Janeiro é construida em poucos meses está terrivelmente enganado.

Aliás a grande beleza é ver os enredos de ideia se transformarem em lindos desfiles em alas e carros como se cada ala fosse um parágrafo e os carros o início e o encerramento de um capítulo da história a ser contada ali. 

A competição saudável entre as Escolas de Samba faz parte, aliás muitas deles formam cidadãos com seus projetos ao longo do ano. É lindo de se ver como cada uma delas se supera para mostrar a sua arte num grande teatro a céu aberto para o público sedento de alegria ciente de que vai ser por pouco tempo então que seja intensa.

Por outro lado, se antes havia brincadeiras com limites, hoje não se brinca mais com o outro; consome-se o outro. Afinal é a festa da carne: onde tudo pode, sempre, em qualquer tom.

Hoje atingimos um nível de liberdade de expressão bem mais expressivo do que no início do século, com isso a exposição dos corpos ganha uma relevância maior. Por outro lado, o que era para ser feito e tido como algo saudável dentro da escolha individual se torna um meio, uma justificativa social para algo com preço muito alto.

Antes o entrudo sujava todos igualmente. hoje, a liberdade atual seleciona.Passamos da liberdade de festejar o carnaval como quiser vestir, sentir, dançar e se expressar com verdade para os riscos dela ser mal interpretada como libertinagem.

Carnaval 2026 – Marquês de Sapucaí – Grupo Especial – Imperatriz Leopoldinense – Foto: Bianca Santos | Riotur.
Ney Matogrosso homenageado do enredo, um artista símbolo da Liberdade de ser quem se é.

Sob a bandeira da liberdade, normaliza-se o abuso, relativiza-se o consentimento, romantiza-se o excesso como se fosse coragem moral. Quem questiona é chamado de moralista. Quem se incomoda, de atrasado. Como se pensar fosse o oposto de festejar.  

No entrudo, jogava-se água em estranhos, mas ninguém confundia isso com direito sobre o corpo alheio. Hoje, muitos confundem fantasia com autorização. 

 A festa virou vitrine: de corpos, de marcas, de excessos performáticos. Tudo precisa ser visto, filmado, curtido. Até a transgressão virou produto. Até a rebeldia tem patrocínio.E, paradoxalmente, quanto mais o Carnaval se vende como espaço de liberdade absoluta, mais estreita se torna a experiência humana ali dentro. Repete-se o mesmo roteiro: beber até cair, beijar sem olhar, tocar sem perguntar, ultrapassar sem refletir. A subversão virou hábito automático. O escândalo virou rotina. O choque perdeu impacto.

Talvez o maior empobrecimento tenha sido simbólico. O entrudo tinha sujeira, mas também tinha riso. Tinha excesso, mas tinha jogo. Tinha invasão, mas havia consciência de que aquilo era exceção. Hoje, a exceção se tornou estilo de vida carnavalesco — e, em muitos casos, desculpa para a brutalidade travestida de festa.

O problema não é o corpo, nem o prazer, nem o desejo. O problema é quando tudo isso se desprende de qualquer ética do encontro. Quando o Carnaval deixa de ser encontro e vira arena. Quando o outro não é mais parceiro de brincadeira, mas obstáculo ou prêmio.

Talvez seja hora de lembrar que o Carnaval não nasceu para anular o humano, mas para arejá-lo. Que o riso veio antes da nudez. Que a irreverência não precisava ser agressiva para ser libertadora. Que a festa só faz sentido quando, ao final, ainda nos reconhecemos uns aos outros como pessoas — e não apenas como corpos que passaram.

O entrudo acabou, mas sua essência não precisava ter morrido. Ela se perdeu no barulho, no excesso sem pausa, na confusão entre liberdade e libertinagem como se a alegria e celebração dessem espaço para abusos tidos como consequências da liberdade conquistada. Fato é que temos ainda muito que aprender principalmente: os corpos não são coletivos, ainda que na coletividade; por isso é que ainda há gente que contrarie Cecília Meireles: Liberdade essa palavra, que o sonho humano alimenta, não há ninguém que explique, e não há ninguém que não entenda. E nesse caso não há como explicar, nem desenhar, para quem ainda não quer entender e extrapola os limites de curtir o carnaval com alegria.

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Joana D’arc Souza é jornalista, escritora, ghostwriter e revisora. Une técnica e sensibilidade para transformar ideias em textos que tocam, inspiram e despertam reflexão. Apaixonada por cultura, especialmente livros e pela força das palavras, acredita que a leitura e escrita são formas de autoconhecimento e de conexão com o outro. Seu objetivo é que cada texto seja um convite a sentir, pensar e se expressar com verdade. Instagram: @ajoanadarcsouza

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