Existem atores que interpretam personagens e existem atores que emprestam a própria alma para que o invisível se torne presença. Preto Viana pertence, definitivamente, ao segundo grupo. Com uma presença de cena magnética e uma capacidade rara de transitar entre a vulnerabilidade e a força bruta, ele tem se consolidado como uma das vozes mais autênticas do cenário artístico atual. Nesta entrevista exclusiva, mergulhamos nos processos criativos, nos desafios da carreira e nas convicções que moldam o homem por trás dos papéis. Preto nos recebe com a generosidade de quem sabe que a arte, antes de ser espetáculo, é um espelho da vida.

1- Roberto Valleck: Preto, muitos veem o artista de sucesso, mas poucos conhecem o carioca que batalhou na periferia para chegar aqui. Olhando para o Preto Viana de hoje, com toda essa bagagem, qual é a lembrança mais forte que você tem daquela motivação inicial? O que te fez escolher a arte como voz?

Preto Viana: Sucesso é uma coisa muito subjetiva. Acho que consigo dividir minha construção enquanto artista em duas fases.

Desde os 18 anos venho trabalhando artisticamente. Minha primeira formação foi no balé clássico. Logo depois vieram os musicais — foi nesse período que trabalhei com Miguel Falabella em La Cage aux Folles (A Gaiola das Loucas, 2010). Em seguida, encontrei a CAL no meu processo e comecei a conhecer, de fato, o mercado e as relações de não ser escolhido ou de sobrarem apenas personagens que não conversavam com meus estudos, dedicação e tempo investido.

Decidi largar a carreira por acreditar que era um artista ruim. Mudei de rota, como um bom arquétipo de Oxóssi que me atravessa.

Retornei após a pandemia e estreei em “Os Outros” com meu primeiro personagem no audiovisual, o Beto. E aqui estou.

Hoje, minha maior motivação é contar a história real de um povo. Não permitir que outros sonhos, como o meu, sejam destruídos por um sistema.

E acho que a gente não escolhe a arte. É a arte que escolhe a gente.

Roberto Valleck: Eu já ouvi essa frase de um amigo há mais de 20 anos: ‘Não é a gente que escolhe a profissão. É a profissão que nos escolhe’.

E acho que a gente não escolhe a arte. É a arte que escolhe a gente.

Preto Viana ao lado de IZA

2- Roberto Valleck: Você é um artista polivalente, ator, cantor, bailarino, acrobata circense, bacharel em teatro e agora o mestrando na Universidade Federal do Rio de Janeiro – UniRio. Como a sua pesquisa acadêmica sobre a história afro-brasileira alimenta o seu processo de atuação para garantir que essa ‘desmarginalização do corpo’ não seja apenas um conceito, mas uma presença física em cena?

Preto Viana: Quem tem ferramentas, não vira refém.”Encontrei no saber um caminho de poder absurdo. Existe também algo muito perigoso: o perigo de uma única história — conceito que conheci através da autora Chimamanda Ngozi Adichie. Obrigado à minha parceira de caminhada e professora Gizelly de Paula por me apresentar essa reflexão.

Até hoje nos contaram uma versão mentirosa sobre a construção do nosso país. E eu quero, futuramente, contribuir para trazer um outro recorte: questionador, crítico e com perspectiva afro-brasileira. Assim, conseguimos romper com as imagens de controle e construir o nosso próprio protagonismo.

Não somos marginais. Somos potência. Somos o poder artístico desse país. Olha quem constrói o funk, o rap, o carnaval, a comida e a arte brasileira. É o nosso povo. Nosso povo é a base criativa do Brasil.

Roberto Valleck: Infelizmente, por décadas, os livros de história apresentaram uma versão não autorizada, contada por nossos colonizadores e não pelo conquistado. É importante que hoje tenhamos em nossa sociedade intelectuais que estão trazendo à luz muitas verdades.

3- Roberto Valleck: Alias, como bailarino , no Rock in Rio 2022, você brilhou ao lado da IZA em uma apresentação icônica. Olhando para trás, como você descreveria a importância desse momento para a sua trajetória artística?

Preto Viana: Sobre o momento com a Isa, fui convidado pelo Jaime Bernardes, bailarino e assistente da Cia Deborah Colker, para integrar a parte contemporânea do espetáculo. Vivi todo o processo de criação, mas, naquele período, acabei sendo chamado para outro projeto e não consegui estrear com ela.

Acho que, no fim, o que sempre permanece são os afetos, o processo e as lembranças. Isso acaba sendo o verdadeiro marco em qualquer momento da minha vida artística: como tudo foi construído e vivido.

Foto: @ddiogcria

4- Roberto Valleck: Em Papagaio, você mergulha no universo dos Bate-bolas, uma das performances urbanas mais potentes do nosso patrimônio. Como foi o desafio de equilibrar seus olhares de ator e pesquisador para transpor essa estética periférica para o cinema, garantindo que a complexidade dessa cultura fosse preservada no centro da tela?

Preto Viana: Então, boa pergunta. Em Papagaio eu não faço um bate-bola diretamente. Faço a participação de um cinegrafista de uma equipe de reportagem, o personagem Viana.

Na época das gravações, eu estava trabalhando com a Netflix em São Paulo enquanto o filme era rodado no Rio de Janeiro, então não consegui assumir uma participação muito longa. Inclusive, houve cenas externas que não consegui gravar porque, justamente no período em que vim para o Rio, estava chovendo.

O filme se passa em Curicica, subúrbio do Rio de Janeiro. E a arte bate-bola, que considero um patrimônio cultural de natureza imensurável, também nasce no subúrbio carioca. Minha presença com símbolos bate bola na estreia do  filme veio muito como símbolo de representação desse povo, dessas pessoas que constroem a arte e a identidade cultural da cidade, mas que, muitas vezes, acabam sendo apagadas.

Os personagens principais vivem nesse subúrbio, e essa foi uma forma que encontrei de enaltecer esse protagonismo e trazer visibilidade para essas narrativas.

5- Roberto Valleck: Trazer o patrimônio afetivo da Zona Oeste para o festival é um ato de nostalgia ou de reivindicação?

Preto Viana: Quando eu coloco um símbolo que faz parte do nosso patrimônio carioca, de uma natureza imensurável, como o Bate-Bola — feito pela mão negra, pela mão da comunidade, pela mão do subúrbio — eu estou falando, através de símbolos, sobre um povo.

É o mesmo povo que trabalha o carnaval, que constrói o samba, que levanta o funk e o rap. Então, eu não falo só de mim. Eu não represento apenas a mim mesmo. Eu trago um povo, um movimento, um manifesto.

Por isso, é um ato político

6- Roberto Valleck: Como foi a troca em cena com Gero Camilo para construir essa atmosfera?

Preto Viana: Na verdade, nessa obra eu não contraceno diretamente com o personagem do Gero. Mas tivemos muitas trocas nos bastidores, no camarim, nos momentos de espera entre as gravações.

E essa troca aconteceu em um lugar de muito afeto. Observando como ele se comportava diante do personagem e também a relação dele com o outro protagonista, o Ruan Aguiar , era nítido o quanto existia amor, cuidado e carinho na construção conjunta daquela atmosfera.

Isso atravessava todo mundo no set.

7- Roberto Valleck: Dando alguns passos para traz, na serie OS outros (2023) você deu vida ao personagem Bento, um misterioso matador de aluguel contratado por Dona Lucia (Drica Moraes), como foi compor este personagem?

Preto Viana: Beto foi uma grande surpresa pra mim. Fui convidado para fazer esse personagem e o meu primeiro dia de set foi ao lado da Drica Moraes, que coincidentemente encontrei novamente em um evento esses dias.

Eu até fui conversar com ela, porque ela me ensinou muito naquele período de gravação. Lembro que, nesse primeiro dia de set, eu acabei pulando uma frase do texto. Na mesma hora, ela percebeu pelo olhar, e eu também percebi que ela tinha entendido. Mas ela não parou a cena. Continuou naturalmente.

E isso me ensinou muito. No silêncio dela, na força de seguir sem me apontar o erro ou gerar um constrangimento, existia uma conduta muito potente. É um aprendizado que eu levo até hoje para o meu dia a dia

8- Recuando um pouco na sua trajetória, em Os Outros (2023), você interpretou o Bento, um personagem que operava nas sombras como o matador contratado por Dona Lúcia (Drica Morais). Como foi o desafio de compor esse matador de aluguel e equilibrar o perigo que ele representava com a contenção que o papel exigia?

Preto Viana: Primeiro, eu entendi logo de cara um arquétipo que o meu corpo e a própria sociedade leem. O Beto é um matador, um vilão sagaz, alguém que arquiteta e projeta ações a partir de uma contratação. Existe nele uma inteligência estratégica muito forte.

Eu tive pouco tempo de construção desse personagem, então, muitas vezes, ele acabou sendo atravessado mais pela urgência do outro personagem do que pela própria urgência da sua persona. Apesar de eu compreender para onde ele caminhava e qual era a função dele dentro da narrativa, fui entendendo esse homem também a partir da energia que o outro ator e personagem traziam até mim.

Era no encontro, na troca em cena e na escuta dentro do set que eu ia equalizando essa construção.

9- Roberto Valleck: Você esteve presente no Rio Fashion Week, um evento que reafirmou a força da diversidade na moda. Sob o seu olhar, quais foram as principais inovações ou conceitos apresentados que mais ressoaram com o momento atual da Preto Viana?

Preto Viana: Depois de muito tempo, esse evento volta ao Rio de Janeiro e, logo de cara, já veio cercado de polêmicas, né? Muita gente questionando a ausência de um elenco mais carioca ou de marcas do próprio Rio presentes no circuito. Mas, quando a gente fala sobre moda e movimento, não necessariamente isso precisa estar limitado à região onde o evento acontece.

E, pela primeira vez, eu olhei para aquele espaço e vi muitos corpos como o meu. Eu fui ao evento não em um lugar de crítica, mas de celebração, porque eu amo moda. Fui para prestigiar esse retorno do Rio ao circuito e acabei me deparando com corpos, movimentos, músicas e comportamentos muito próximos dos meus.

Eu me ainda mais  bonito ali. Me vi pertencendo àquele espaço e muito bem representado. Fui todos os dias, prestigiar grandes marcas lindíssimas, com destaque para a Dendezeiro, por exemplo, uma marca da Bahia que vem ocupando espaços importantes e criando movimento dentro da moda brasileira. Inclusive, os criadores foram reconhecidos recentemente no prêmio Sim à Igualdade, do ID_BR.

Foi um evento muito bonito, potente e simbólico.

10- Roberto Valleck: Preto Viana, foi uma honra e um privilégio mergulhar em sua história. Desejamos que sua carreira continue em ascensão e que seu reconhecimento seja proporcional ao seu talento. Que sua trajetória — trilhada com os pés no chão e muita esperança — sirva de farol para novos artistas, afinal, como você demonstra, é impossível viver sem arte. O espaço agora é seu para as considerações finais.

Preto Viana: Quero agradecer, cada vez mais, o espaço de visibilidade. A função da imprensa e de todos esses meios de comunicação é muito importante para a construção e ampliação de qualquer efeito que eu possa causar enquanto artista.

Quando me proponho a ocupar determinados lugares, faço isso também por símbolos. Porque, muitas vezes, protagonistas do povo, do movimento, da comunidade e da cultura acabam sendo tratados apenas como coadjuvantes ou reduzidos a um lugar de mão de obra, sendo que, na verdade, são os grandes fazedores da arte e da potência desse país.

Eu me coloco como um deles. Hoje, inclusive, venho buscando academicamente compreender mais profundamente a verdadeira história do nosso país, para que um dia eu possa usar esse conhecimento como ferramenta de troca e fazer com que outras pessoas também tenham acesso a essas verdades.

É muito perigoso quando conhecemos apenas uma história única — e, muitas vezes, não verdadeira — sobre um país. Ter ferramentas é também não voltar a ser refém.

Obrigado pelo espaço e até a próxima

Compartilhar.
Deixe Uma Resposta

Português do Brasil
Exit mobile version