Evento promovido pelo ID_BR reuniu cultura, empregabilidade e diversidade em uma cerimônia marcada por simbolismo e celebração da identidade negra e indígena.
O Prêmio Sim à Igualdade Racial 2026 aconteceu ontem à noite no Rio de Janeiro e será transmitido pela TV Globo no domingo, dia 24 de maio. O evento já mostrou a que veio logo no início, com uma cenografia que foi um capítulo à parte. Referências à natureza apareciam por todos os lados, inclusive com ervas como arruda, cujo aroma inconfundível exalava pela entrada principal.
Elementos simples para quem olha rapidamente, mas profundamente carregados de significado para quem reconhece ancestralidade, proteção, espiritualidade e pertencimento. Eles estavam nos detalhes, nos aromas, nas referências visuais e até na atmosfera do lugar.
Os elementos visuais presentes eram mais do que estética. Eram símbolos carregados de significado, capazes de conectar as pessoas presentes ali: artistas, personalidades, autoridades e empresários. Até porque esse evento vai além de uma premiação. É uma celebração de representatividade, pertencimento e, acima de tudo, identidade, ancestralidade e espiritualidade.
As formas, as cores, os tecidos e os adornos dos looks pareciam conversar entre si, como se cada escolha estética dissesse silenciosamente: “nós sabemos de onde viemos”. Nenhuma escolha de tecido, cor, padronagem, acessório ou penteado parecea ter sido feita de forma aleatória.
Os cabelos black power, os turbantes, os penteados elaborados, as joias douradas, os colares e os tecidos remetiam à realeza africana não apenas na estética, mas também na postura. Existia empoderamento no ato de poder ser quem se é. Isso aparecia nos gestos, nas falas e nos olhares. Estava no modo de caminhar, de posar para as fotos, de sorrir, de conversar e de se reconhecer no outro.
Havia beleza, alegria, potência, elegância e consciência de si. Pessoas de todas as idades circulavam entre os ambientes carregando algo difícil de descrever: a sensação de pertencimento. Talvez essa tenha sido uma das coisas mais bonitas da noite: perceber o quanto a representatividade muda a forma como as pessoas ocupam os espaços.
Crianças, adolescentes, adultos e idosos transitavam entre os ambientes carregando algo muito perceptível: a essência e, acima de tudo, o orgulho de ser quem se é. Havia beleza, potência, elegância e consciência de si.
A cerimônia trouxe o conceito de “Surrealismo Afro-Indígena Brasiliano”, que convida a sociedade a expandir imaginários e enxergar o Brasil a partir de suas raízes afro-indígenas. Inspirado pela mensagem “Sonhamos o que parece impossível para realizar o que é indispensável”, o tema posiciona o sonho como ferramenta de transformação social. A proposta valoriza futuros construídos a partir da ancestralidade, da criatividade e da justiça racial.
“Celebrar os 10 anos do ID_BR é reconhecer uma trajetória construída a partir do impacto real na vida das pessoas. Ao longo dessa caminhada, vimos histórias serem transformadas, oportunidades serem ampliadas e novas narrativas ganharem espaço. O prêmio reforça nosso compromisso em ampliar o reconhecimento de iniciativas que promovem equidade racial e ajudam a construir um futuro mais justo”, afirma Tom Mendes, diretor institucional do ID_BR e diretor-geral do Prêmio Sim à Igualdade Racial.
Justiça Social
Logo no início, Luana Génot, CEO e fundadora do ID_BR, falou sobre a necessidade de construir um mercado de trabalho mais justo. Também destacou a importância de abrir caminhos para que pessoas negras e indígenas possam sonhar sem que o sonho pareça exceção. Outro ponto reforçado foi a ampliação concreta de acessos e oportunidades.
Luana lembrou ainda que a educação continua sendo uma das ferramentas mais poderosas de transformação social. Também destacou a importância da educação antirracista. Ficou evidente que igualdade racial não pode ser tratada apenas como uma pauta pontual de diversidade corporativa. Ela precisa atravessar escolas, empresas, políticas públicas, meios de comunicação e relações sociais.
Luana também dedicou o prêmio à Preta Gil que, segundo ela, “atraía holofotes e distribuía luz como poucos”. A fala fez referência à maneira como a artista utilizava sua imagem para apoiar causas sociais e à sua relação de apoio constante ao ID_BR e à premiação. Foi um momento que emocionou muita gente presente ali.
Celebração da Diversidade Cultural
Num país com tamanha diversidade como o Brasil, marcado pela miscigenação dos povos e culturas que nos formaram enquanto nação, é fundamental que as artes e os saberes negros e indígenas sejam conhecidos pelo público. Principalmente porque grande parte dessas produções ainda permanece fora do mainstream.
O Prêmio Sim trouxe essa mistura de referências também nas apresentações musicais. As performances reforçaram a potência cultural afro-indígena e mostraram a importância de ampliar visibilidade para artistas e narrativas historicamente marginalizadas. Max Viana, diretor musical destacou o como isso é importante:
Importância da Igualdade Racial
Falar sobre igualdade racial também é falar sobre quem teve acesso a oportunidades historicamente — e quem precisou lutar muito mais para chegar aos mesmos lugares. Quando alguém passa a vida inteira sendo colocado à margem, ocupar determinados espaços nunca é apenas “estar presente”. Existe um atravessamento histórico. Existe memória. Existe conquista. Existe reparação simbólica.
A atuação do ID_BR reforça justamente isso: igualdade racial não é um tema isolado. É uma lente através da qual enxergamos educação, cultura, empregabilidade, representatividade e desenvolvimento social.
“Quando criamos o ID_BR, o nosso desejo era gerar transformação real e abrir caminhos para que pessoas negras e indígenas fossem vistas, reconhecidas e ocupassem espaços de protagonismo. Uma década depois, ver tantas histórias, iniciativas e trajetórias reunidas no prêmio mostra a força desse movimento coletivo. O tema deste ano também reforça isso: precisamos imaginar novos futuros para conseguir construir mudanças que antes pareciam impossíveis”, destaca Luana Génot.
A sensação era de que a cerimônia propunha uma tentativa coletiva de imaginar futuros possíveis. Não um futuro ingênuo, mas um futuro construído conscientemente, apesar das desigualdades históricas ainda tão presentes. Talvez por isso a noite também carregasse algo de surrealista.
Havia uma mistura entre sonho e realidade. Como se, por algumas horas, fosse possível visualizar o mundo não apenas como ele é, mas como ele poderia ser se mais pessoas tivessem oportunidade de existir plenamente.
Também houve um sentimento muito forte de celebração da essência. Não a essência romantizada dos discursos prontos, mas a essência de quem precisou sobreviver sem deixar de ser quem é. De quem aprendeu, apesar de tudo, a não permitir que a dor definisse completamente a própria identidade.
E, cá entre nós, a maioria das dores só conhece quem passa por elas. E, sem dúvida, o racismo é uma delas.
No fim da noite, entre luzes, encontros e reflexões, uma frase permaneceu ecoando dentro de mim:
“Sou o que nasci para ser, não o que aconteceu comigo”, cantada em uma das apresentações da noite, junto à mensagem: “Sonhamos o que parece impossível para realizar o que é indispensável”.
Talvez seja exatamente sobre isso.
Sobre não permitir que o racismo, a exclusão ou as violências históricas tenham a palavra final sobre quem alguém pode se tornar.
Lista dos Premiados
Nesta edição, os premiados contemplam categorias distribuídas entre os pilares Cultura, Educação e Empregabilidade, reconhecendo trajetórias, iniciativas, organizações e lideranças que impulsionam a equidade racial no Brasil. Entre as categorias estão Arte em Movimento, Raça em Pauta, Destaque Publicitário, Influência e Representatividade Digital, Educação e Oportunidade, Intelectualidade, Inspiração, Liderança, Comprometimento Racial e Trajetória Empreendedora, além da inédita “Escolas SIM: Secretarias de Educação Referência”.
Confira abaixo os ganhadores:
Pilar Cultura
Arte em Movimento: Dalton Paula | Sertão Negro
Raça em Pauta: Rádio Nacional dos Povos
Destaque Publicitário: Alma Preta Jornalismo
Influência e Representatividade Digital: Cunhaporanga
Pilar Educação
Educação e Oportunidade: COIAB
Intelectualidade: Bárbara Carine
Inspiração: Daniel Munduruku
Escolas SIM: Secretarias de Educação Referência: Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro
Pilar Empregabilidade
Liderança: Luana Ozemela
Trajetória Empreendedora: Dendezeiro
Comprometimento Racial: Grupo L’Oréal Brasil e Natura
