O desafio de continuar sendo mulher além do papel de mãe
Este é o quinto e penúltimo texto da série “Mulheres que Sustentam: liderança, maternidade e o que ninguém vê”, que percorre as camadas mais profundas da experiência feminina — especialmente aquelas que transformam não apenas a rotina, mas a forma como a mulher se percebe. Já falamos da essência da liderança feminina, bastidores da liderança feminina, síndrome da impostora, romantização da maternidade, e hoje vamos discutir como a maternidade muda quem somos.
A maternidade muda tudo.
Muda o tempo, muda as prioridades, muda o corpo, muda o olhar sobre o mundo.
Mas existe uma transformação mais silenciosa — e, muitas vezes, mais difícil de nomear: a mudança na identidade. A primeira delas é que agora seu nome “é”: Mãe do(a) Fulano(a), Mãe, Mãezinha. Se você tem ou teve criança/ adolescente em idade escolar sabe do que estou dizendo.
Ah e levar uma única bolsa para você e a cria também, principalmente quando ainda é de colo. Eu num insight dessa “separação” levava a bolsa dela e a minha separada. Mais volume sim, mas mais identidade também. Até que elas começaram a ter as suas próprias bolsinhas.
Em algum momento, muitas mulheres percebem que já não são exatamente quem eram antes. A vida passa a girar em torno do cuidado, das demandas, das responsabilidades. E, aos poucos, aquilo que era individual — desejos, planos, interesses — começa a perder espaço.
Não necessariamente por escolha, mas por necessidade.
Cuidar exige presença. E presença exige tempo, energia, atenção.
O problema não está nesse movimento inicial. Ele é parte do processo.
O problema surge quando esse deslocamento deixa de ser temporário e se torna permanente.
Quando a mulher já não consegue mais se reconhecer fora do papel de mãe.
Quando suas vontades passam a ser adiadas indefinidamente.
Quando o “depois eu vejo isso” nunca chega.
A mãe só existe por que a mulher veio antes!
Ser mãe não significa desaparecer como mulher, especialmente depois do puerpério (a depender das circunstancia do parto e estrutura familiar esquecemos de tudo e só vemos a cria), mas ainda mais depois da amamentação quando finalmente temos o nosso corpo “de volta”.
Até ali ainda era usado pela cria, agora é só nosso de novo. (Lembrando que dar o seio ou mamadeira não faz nenhuma mãe melhor ou pior, o que importa é o amor, o vínculo)
E, ainda assim, esse desaparecimento de quem somos acontece de forma sutil, progressiva, silenciosa. Não há um momento exato em que isso começa. Mas há um momento em que isso é percebido:
- Às vezes, é no incômodo de não se reconhecer mais.
- Às vezes, é na falta de desejo por aquilo que antes fazia sentido.
- Às vezes, é na pergunta que surge quase sem aviso:
- “onde foi que eu fiquei nesse processo?”
- É sentir falta de estar com outros adultos e falar de temas além dos filhos e afin
- Querer trabalhar/ sair
- Ter tempo para si mesma
- Comer o seu doce/comida preferida sem precisar dar ( sim eu já escondi chocolate, confesso)
Esse momento de consciência é delicado. Porque ele vem acompanhado de um conflito: o amor pelos filhos e a saudade de si mesma. São totalmente distintos, mas ao mesmo tempo conectados. Só podemos estar bem como mães quando estamos bem conosco. Se dar conta disso é desafiador, por outro lado abre um novo caminho:
O de reconstrução, de voltar para si mesma.
Não uma volta ao que era antes — porque isso já não existe mais. A maternidade é uma mudança profunda não à toa há quem diga que não conhece lembrar de como era a vida outrora sem os filhos ou se imaginar sem eles.
Obviamente, não podemos generalizar, há mães e mães, maternagens e maternagens, mas o fato é que há muitas mudanças físicas e emocionais ao nos tornamos mãe, a Ciência mostra isso todos os dias.
Voltar para si em verdade é a reorganização de quem se é agora
Esse processo pode começar pequeno.
Na retomada de algo que fazia sentido.
Na criação de um espaço próprio, ainda que breve: Fazer a unha, tomar um banho com calma, ler um livro, trabalhar sem interrupção.
Na autorização para desejar algo que não esteja diretamente ligado ao papel de mãe, sabe aquela liquidação que você só comprou ou quis comprar itens para si?
É sobre isso!
E, principalmente, na compreensão de que continuar sendo mulher não compete com ser mãe.
Amplia.
Porque uma mulher que se reconhece, se escuta e se sustenta também constrói relações mais saudáveis, mais equilibradas, mais conscientes e isso se reflete com o maternar.
A identidade não desaparece.
Ela se reorganiza.
Mas essa reorganização exige intenção.
Exige escolha.
Exige presença — não só para o outro, mas para si.
E talvez esse seja um dos maiores desafios da maternidade contemporânea:
não perder de vista quem se é, enquanto se cuida de alguém.
Se, ao longo dessa série, percorremos os papéis, as sobrecargas e as transformações que atravessam a vida de muitas mulheres, há um ponto que sustenta todos os outros — ainda que, muitas vezes, seja o mais negligenciado:
a conexão com a própria essência.
No próximo e último texto, a reflexão se volta para aquilo que permanece — mesmo em meio a tantas mudanças:
quem é essa mulher, para além de tudo o que ela faz.
Porque, no fim, sustentar tudo começa — ou recomeça — por sustentar a si mesma.
