Há entrevistas que se fazem por agenda. Outras, por necessidade.
Esta conversa com Rezzito nasce do segundo lugar.
Não há, aqui, a intenção de extrair respostas ensaiadas ou construir uma narrativa confortável. O que interessa é o espaço entre o que ele diz e tudo o que precisou viver para poder dizer. Porque, no caso dele, não existe dissociação possível entre discurso e trajetória. A fala não vem de um lugar teórico — vem de dentro. E isso altera tudo.
“Chegar até aqui não foi sorte. Foi decisão.”
Rezzito
Ao longo dos últimos anos, Rezzito construiu uma presença digital que desafia o padrão previsível. Não suaviza a realidade para torná-la consumível. Não negocia a própria identidade para caber em espaços que, historicamente, nunca foram desenhados para acolhê-lo. Há, na forma como se posiciona, uma espécie de ruptura contínua — como quem abre uma janela em dia de vento forte: não para causar impacto gratuito, mas porque certas verdades só existem quando deslocam.
Hoje, há um dado que atravessa a realidade de Renato Dutra, o Rezzito: é dia 29 de abril, e ele completa 40 anos e não é só mais uma data comemorativa, pode ser considerado um ponto de chegada, de virada e, sobretudo, de afirmação.
O que poderia ser apenas um aniversário ganha outra dimensão quando, no mesmo dia, ele coloca no mundo um novo trabalho. O lançamento de “Afroplayboy” acontece hoje, como quem não separa vida de obra, trajetória de discurso, existência de criação.
Essa escolha cobra um preço.
Ser um homem negro, suburbano, independente, que recusa performar aceitação, exige mais do que talento. Exige sustentação emocional, psicológica e, sobretudo, identidade. E é exatamente nesse ponto que sua trajetória ganha densidade.
Às vésperas dos 40 anos, ele atravessou um momento que mistura celebração e ajuste interno. O lançamento de uma nova música no dia do próprio aniversário não é apenas um movimento artístico — é o cumprimento de uma promessa feita a si mesmo, ainda na infância, quando não havia estrutura, visibilidade ou garantias.
O primeiro passo concreto na música aconteceu no dia 1º de abril, quando colocou no mundo sua primeira canção autoral. Não como estreia, mas como marco de um processo longo: mais de cem músicas escritas, todas as etapas feitas de forma independente, do processo criativo à distribuição. Um percurso construído na insistência, na ausência de atalhos e na recusa em esperar validação externa.
A música, nesse contexto, não é um ponto de chegada. É continuidade. Soma-se a outras conquistas igualmente erguidas na marra — como o programa e o livro. Há, na forma como ele narra a própria história, uma consciência rara de valor: não aquela medida em cifras, mas a que se sustenta na realização de sonhos antigos, desses que atravessam o tempo e sobrevivem à escassez.
Havia só vontade.
E alguma coisa que insistia em não desistir.
Nesta entrevista, o compromisso não é com respostas perfeitas, mas com respostas honestas — porque, no fim, é disso que a trajetória de Rezzito sempre tratou.
Revista Pàhnorama: Você construiu sua presença na internet dizendo verdades que nem sempre são confortáveis. Em algum momento isso te custou mais do que você imaginava?
Rezzito: Nada longe do esperado! As marcas querem pessoas negras com opiniões mais podadas, pessoas mais previsíveis e confiáveis. Confiável virou sinônimo de pessoas que vão aceitar tudo pra manter o relacionamento. Eu sou um profissional incrível e competente, espero que quem trabalhe comigo também seja.
Revista Pàhnorama: Existe uma diferença entre ser ouvido e ser compreendido. Em qual desses lugares você sente que está hoje?
Rezzito: Cresci me sentindo incompreendido e ainda sou. Até quem concorda comigo, sinto que não pegou o que quero dizer, mas me contento com as afinidades. Estou mais pra ser ouvido, mas cada um ainda compreende como quer.
Revista Pàhnorama: Aos 40 anos, lançar uma música que você prometeu a si mesmo na infância tem mais sabor de conquista ou de reparação?
Rezzito: Posso dizer que conquista, mas é como uma salvação. Sinto que voltei no tempo, tô no canto do terraço da minha avó me vendo cantar, me aproximo e digo “você vai cantar quando crescer”. É isso que sinto toda vez que ouço minhas músicas.
Revista Pàhnorama: Fazer arte no Brasil já é difícil. Fazer arte sendo um homem negro e independente torna esse processo ainda mais complexo. Em que momento você pensou em desistir, e o que te fez continuar?
Rezzito: Todo dia eu desisto, se fosse um esporte olímpico, eu seria medalhista. É exaustivo! Eu tenho mil ideias e tô preso nesse corpo que não sabe fazer mágica, me sinto constante com claustrofobia porque meu corpo parece ser pequeno demais e nessa briga, sempre largo de mão e só deixo a vida me levar.
Revista Pàhnorama: A internet muitas vezes cobra posicionamento, coerência e constância. Como você lida com a pressão de ser referência para outras pessoas?
Rezzito: Não é uma pressão, é justo. Entrei na vida delas assim e é óbvio que elas querem mais e mais opiniões, mas nem sempre tem. Sei que elas ficam tristes quando não falo de algo tipo BBB, mas posso lidar com isso.
Revista Pàhnorama: Você sente que, ao longo da sua trajetória, precisou ser mais forte do que gostaria para conseguir espaço?
Rezzito: Acho que me ensinaram a ser forte quando eu deveria ter vivido a fragilidade. Esse foi um dos meus maiores traumas, me fingir de forte. Eu não sou! Eu fico firme, nunca cai, mas todas as vezes que quase desabei foram os dias que me fingi de forte.
Revista Pàhnorama: Existe alguma versão sua do passado que você gostaria de ter protegido mais — ou preparado melhor para o que viria?
Rezzito: Todas até os 30 anos. Hoje tenho a sinceridade de dizer que tive momentos bons, mas nunca fui feliz. Ser eu sempre foi uma confusão e eu cheguei até aqui sem me preparar pra nada, acabo ficando pra trás, muitas vezes.
Revista Pàhnorama: Se você pudesse resumir o que significa chegar aos 40 sendo quem você é hoje, sem romantizar o caminho, o que você diria?
Rezzito: Dos 30 pra cá comecei a construir memórias que eu vou olhar pra trás e ter saudade. Antes eu não tenho isso! Hoje sou tão dono de mim e tão safo, sem perder a marra… hoje em dia eu só solto e confio, vivo a vida com a irresponsabilidade da instabilidade.
Revista Pàhnorama: O seu primeiro lançamento musical chegou depois de um percurso longo e cheio de aprendizados. O que aquela música carrega de você que talvez o público ainda não tenha percebido completamente?
Rezzito: Aquela música é sobre fidelidade e lealdade. É uma expressão, baseada em fatos reais, talvez o público não saiba como sou implacável com traições. Essa música é sobre isso, não adianta sair por aí me seguindo se eu disse pra acabar.
Revista Pàhnorama: Lançar uma nova música exatamente no dia do seu aniversário tem um peso simbólico evidente. O que esse segundo lançamento representa hoje, artisticamente e, principalmente, pessoalmente?
Rezzito: Afroplayboy é uma brincadeira que nós negros usamos, assim como Afro pati. É como se a gente conseguisse ressignificar algo tão pejorativo. Essa música fala sobre ser um negro que tem estilo e autoestima. No mesmo dia sai um EP com uma música de pagode, uma vibe Black Music e um axé. Tive essa ideia porque são ritmos que me formaram, tinha que estar.
No fim, Rezzito não oferece respostas fáceis — e talvez seja exatamente por isso que sua voz permanece.
Há quem fale para ser aceito.
E há quem fale porque já entendeu que o preço do silêncio é maior.
Ele escolheu o segundo caminho.
