Filme transforma o esporte em uma narrativa sobre política, liberdade e força feminina
Tatame estreia em 02 de abril nos cinemas e deveria ter como título “Coragem”!
Coragem aqui entendida no seu sentido mais belo, que vem da sua origem etimológica: a ação do coração, ou a “bravura que vem de um coração forte”. A etimologia sugere que o coração é a sede das emoções, pensamentos e força de vontade, indicando ânimo para superar medos e obstáculos.
Tatame é um filme sobre a coragem de duas mulheres a desafiar as imposições que as impedem de conquistar seus sonhos. Ao longo da narrativa, com menos de 1h de filme, já entendemos que o filme é maior do que o Campeonato de Judô: é sobre o esporte e suas relações com a política e também sobre a força feminina, muito bem representada pelas atrizes.
Falar de geopolítica é um desafio por si só, e o filme não se aprofunda nisso ,até porque não é a principal questão. mas as consequências dela atravessam toda a narrativa. E não por acaso as protagonistas são duas mulheres. Contextualizado com a realidade atual da opressão vivida pelas iranianas, somada à pressão esportiva por si só, são suficientes para deixar o espectador tenso do início ao fim, sem piscar.
Durante o Mundial de Judô, Leila (Arienne Mandi), uma atleta iraniana, é ameaçada pelo comitê do próprio país, que deseja que ela abandone a competição para não enfrentar uma atleta israelense — o regime iraniano não reconhece Israel como nação e quer evitar a luta a qualquer custo. A permanência de Leila no torneio pode colocar em risco sua família e a de sua treinadora, Maryam (Zar Amir Ebrahimi) , uma ex-atleta.
Essa sinopse é, sim, fiel à história, porém não entrega 1/10 do que é o filme.
95% da narrativa é construída durante o Mundial de Judô e se passa em poucas horas — que parecem infindáveis diante da tensão cortante presente em todo o filme.
A direção de Zar Amir Ebrahimi, Guy Natti e a direção de Fotografia de Todd Martin, são brilhantes e dizem muito com pouco.
O primeiro ponto é o uso do preto e branco. Me surpreendi: pensei que seria apenas até um determinado momento, mas não. É, sim, em preto, branco, cinzas e suas nuances que permitem a intensidade das emoções e expressões saltarem da tela — e isso é formidável.
Há muitos planos-sequência e, além disso, poucos closes, porém cirúrgicos. A maior parte é filmada de forma quase intimista, como se fosse possível tocar os atores pela tela, tamanha a proximidade. Sem dúvida, esse é um ponto que favorece muito a conexão do público com a história.
O roteiro de Elham Erfani, Guy Nattiv, é impactante porque cresce em gradação em todos os sentidos. Conhecemos a protagonista e sua família logo no início, depois a técnica Maryam. Tudo vai bem no campeonato até que a treinadora recebe a ordem de fazer Leila desistir da competição para evitar lutar na final com uma atleta israelense.
Só que Leila, além de não aceitar, confronta a técnica com o próprio passado e continua a lutar sozinha, juntando forças das memórias felizes em família. Até aceitar ajuda com as ameaças demora — e, vendo, entende-se o porquê.
Nesse momento, percebemos que a luta de Leila já não é mais só pela medalha de ouro, e sim liberdade e dignidade. Ela conta com uma sólida rede de apoio formada pelo marido e amigos. Aliás, ele, ao contrário dela, que até essa imposição sobrevivia ao regime sem confrontar, é do tipo que “coloca fogo no parquinho”, ao ser questionado, por exemplo, sobre tê-la permitido viajar ao exterior para competir.
Cá entre nós, colocar “fogo no parquinho” alheio é fácil — afinal, ele é favorecido pelo sistema só pelo fato de ser homem. Mas isso não tira o mérito de apoiá-la: ser casado com uma mulher independente não é para qualquer um. Ele também foi corajoso ao levar o filho do casal e ao apoiá-la a não ceder, mesmo diante das consequências. A tensão só aumenta, e isso fica muito claro com o andamento das lutas de Leila e as dificuldades familiares enfrentadas por ela e Maryam como forma de pressão.
As interpretações são viscerais e, ao mesmo tempo, equilibradas — sim, é possível. Enquanto Leila é intensidade pura e explode no tatame e fora dele, Maryam, sua técnica, engole calada todas as dificuldades que já superou e fica dividida entre ajudar Leila e se arriscar. Por outro lado, há momentos notórios em que é perceptível o quanto Maryam a admira — talvez por fazer o que gostaria de ter feito, mas não pôde. Esse é o grande dilema da treinadora, que fica dividida entre a admiração e o medo. Ela, por sua vez, também é ameaçada. As demais atletas passam pelo mesmo dilema da técnica, porém falam sem voz.
Tatame vai além do esporte: mostra a batalha da vida e a importância da coragem. Não traz respostas, conclusões nem análises. Foca na vida das personagens, que são mulheres comuns lutando pelos seus sonhos. E, ao mesmo tempo que traz tensão, também pontua a esperança que nasce da coragem de lutar pela medalha de ouro no judô e na vida.
Assista ao trailler:
