Eu me lembro de 2006 como se fosse ontem. Saí do cinema com aquela sensação ambígua que só os bons filmes deixam: encantada com os figurinos, incomodada com o preço humano da ambição. Andy Sachs entrava naquele elevador e nós, uma geração inteira de jovens mulheres, entrávamos junto, sonhando com um mundo onde talento e esforço bastassem. Miranda Priestly era o monstro necessário — cruel, mas honesta em sua crueldade. O diabo vestia Prada e, de certa forma, nós queríamos que ele continuasse vestindo.

Agora, em 2026, o diabo voltou. E o mundo mudou de um jeito que nem Miranda poderia prever.

O Diabo Veste Prada 2 chega aos cinemas num momento em que a moda, mais do que nunca, se revela como campo de batalha. Não apenas de tendências, mas de poder, de valores, de quem define o que é belo, aceitável ou “relevante”. O filme, dirigido novamente por David Frankel e escrito por Aline Brosh McKenna, acerta em cheio ao colocar Miranda (Meryl Streep, ainda magnética aos 76 anos) diante do abismo: a Runway sangra, as revistas impressas agonizam, os anunciantes mandam mais do que nunca e as redes sociais transformaram garotas de 22 anos com celular na mão em árbitras do gosto coletivo.

Andy (Anne Hathaway) retorna mais madura, marcada pela vida real — jornalista que viu o próprio veículo ser dizimado por demissões em massa. Emily (Emily Blunt) agora comanda uma grande marca de luxo. Nigel (Stanley Tucci) segue sendo o observador irônico. E Miranda? Miranda tenta manter o império de pé enquanto descobre que o trono está rachado. O roteiro não poupa o espectador: a moda tradicional perdeu o monopólio. O que antes era ditado de cima para baixo agora é negociado, cancelado ou viralizado em questão de horas.

Meryl Streep como Miranda Priestly em O Diabo Veste Prada 2, crítica da moda real 2026 – Divulgação

Aqui entra o desconforto real que o filme toca, às vezes com mais lucidez do que parece à primeira vista. Nos últimos anos, vimos o Met Gala — aquele suposto templo da criatividade — virar palco de protestos e boicotes explícitos. Em 2026, a participação de Jeff Bezos como co-chair gerou cartazes nas ruas de Nova York, ausências notáveis de nomes como Zendaya e até rumores envolvendo a própria Meryl Streep, e uma sensação generalizada de que o evento, outrora sinônimo de arte e elevação, se tornou símbolo de outro tipo de poder: o bilionário, o corporativo, o distante das realidades que a moda diz representar.

O filme não cita o Met Gala diretamente, mas respira o mesmo ar. Ele mostra como a moda continua sendo ferramenta de distinção — e, cada vez mais, de imposição de visões de mundo. Quando uma influenciadora com milhões de seguidores pode derrubar ou salvar uma marca com um stories, o “gosto” deixa de ser refinamento cultural e vira moeda de troca. Quando o luxo precisa se justificar diante de acusações de exploração trabalhista, greenwashing e consumo insustentável, o closet se torna palco político. O Diabo não veste mais apenas Prada. Ele veste narrativa.

Meryl Streep entrega uma Miranda que envelheceu com dignidade e astúcia. Menos caricata, mais vulnerável, mas ainda capaz de congelar uma sala com um olhar. É fascinante vê-la navegar entre a necessidade de se adaptar e o terror de perder a essência do que construiu. Anne Hathaway traz uma Andy que já não é mais a ingênua: ela sabe o custo de entrar no jogo e, ainda assim, sente o chamado. A química entre elas continua elétrica, mas agora carregada de uma melancolia adulta — a de quem entende que nenhum closet salva ninguém da precariedade do tempo.

O filme acerta ao mostrar o lado sombrio sem transformá-lo em panfleto. Há figurinos de tirar o fôlego, sim. Há momentos de puro prazer estético. Mas há também a consciência incômoda de que boa parte dessa beleza repousa sobre estruturas frágeis: mão de obra mal remunerada, pressão por produção constante, uma velocidade que esgota criadores e consumidores. A ascensão dos algoritmos, mencionada no enredo, espelha o que vivemos fora da tela: criadores virando conteúdo, autenticidade virando estratégia, poder se fragmentando em likes e cancelamentos.

Não é um filme perfeito. Em alguns momentos, ele recua quando poderia ir mais fundo. Prefere a reconciliação nostálgica ao confronto radical. Mas, talvez, essa hesitação seja parte da honestidade: a moda, como a vida, raramente permite finais limpos. Ela nos seduz, nos veste, nos expõe — e, no fim, nos obriga a olhar no espelho.

O Diabo Veste Prada 2 não é só uma sequência. É um documento de transição. Um lembrete de que o que vestimos nunca foi só tecido. É declaração, escudo, arma. E, em tempos de redes sociais onipresentes e bilionários co-chairing eventos de “arte”, a pergunta que o filme deixa no ar é: quem, afinal, está vestindo quem?

Nós ainda queremos acreditar na magia. Mas o filme nos obriga a perguntar: a que custo?

Pontos altos e baixos

O que brilha: A química do elenco, a produção visual (os figurinos são um espetáculo à parte!) e o jeito inteligente como o filme comenta o declínio da mídia tradicional sem virar aula chata. Tem momentos emocionantes, risadas garantidas e aquela vibe “empoderamento fashion” que marcou o original.

O que poderia ser melhor: Em alguns momentos o filme fica um pouco seguro demais. A Miranda “defanged” (menos cruel) que alguns críticos mencionaram tira um pouco da tensão deliciosa do primeiro filme. Não chega a ser uma obra-prima revolucionária, mas cumpre com louvor o papel de sequência divertida e nostálgica.

⭐⭐⭐⭐

Nota final: 7.8 / 10 Uma sequência digna, visualmente impecável e muito divertida. Não reinventa a roda, mas entrega exatamente o que o público quer: reencontrar velhos amigos (e inimigos) no mundo da moda.

Ficha técnica

  • Direção: David Frankel
  • Roteiro: Aline Brosh McKenna
  • Elenco principal: Meryl Streep (Miranda Priestly), Anne Hathaway (Andy Sachs), Emily Blunt (Emily Charlton), Stanley Tucci (Nigel) + novos nomes como Simone Ashley, Justin Theroux, Lucy Liu e mais
  • Duração: 1h 59min
  • Classificação: PG-13 (12 anos)
  • Onde assistir: Em cartaz nos cinemas (estreia em 30 de abril no Brasil)
  • Gênero: Comédia / Drama

Compartilhar.

Ana Paula Tergilene é professora, pedagoga, jornalista, editora-chefe e fundadora da Revista Pàhnorama. Com mais de 25 anos de atuação na imprensa, construiu uma trajetória marcada pelo jornalismo crítico, independente e comprometido com a verdade, a diversidade e os direitos humanos. Atua nas áreas de política, cultura e sociedade. É referência em narrativas que dão voz a quem historicamente foi silenciado, unindo rigor jornalístico, sensibilidade social e visão estratégica de comunicação.

Deixe Uma Resposta

Português do Brasil
Exit mobile version