O Château de Ferrières não é um espaço neutro. Construído na década de 1850 pelo barão James de Rothschild, projetado pelo arquiteto britânico Joseph Paxton — o mesmo do Palácio de Westminster — e erguido a aproximadamente 40 quilômetros a leste de Paris, o castelo carrega uma biografia que antecede qualquer evento que decida sediar. Napoleão III foi seu hóspede. O exército prussiano o ocupou durante a guerra de 1870. Roman Polanski filmou ali parte de A Dança dos Vampiros. Em dezembro de 1972, a família Rothschild recebeu nas suas dependências o Baile Surrealista — uma das festas mais documentadas e estudadas do século XX, onde Salvador Dalí compareceu com um sapato na cabeça e os convidados vieram caracterizados como seus próprios pesadelos.

Na noite de sábado, 6 de junho de 2026, o château recebeu mais um evento inscrito em sua cronologia. Elisa Zarzur e Alexandre Negrão celebraram o casamento com cerca de 300 convidados vindos de diferentes partes do mundo, em festa que encerrou um fim de semana inteiro de celebrações promovido pelo casal em Paris.

O vestido e a decisão do ateliê

A escolha de Elisa Zarzur para a cerimônia foi um vestido de alta-costura Dior — peça cuja construção, segundo a maison, foi inspirada nas curvas da natureza. O tecido: renda Chantilly francesa tecida à mão, bordada com cristais. A silhueta: painéis que criam um efeito de pétala resultante de técnicas desenvolvidas pelos artesãos do ateliê parisiense ao longo de meses de trabalho.

Para a recepção, a Dior desenvolveu uma releitura da mesma peça — trabalho executado especificamente para essa ocasião. A volumosa saia foi removida, revelando o body de costas profundamente abertas com painéis de renda. O que permaneceu foi a mesma estrutura de alta-costura; o que mudou foi o propósito: o segundo look foi concebido para a pista de dança e não para a cerimônia.

A decisão é incomum no universo da moda nupcial de alto padrão, onde o vestido da cerimônia raramente é submetido a transformações estruturais para uso posterior. Que o ateliê tenha desenvolvido a releitura como projeto paralelo à peça original indica uma encomenda de dupla construção — dois looks nascidos do mesmo briefing, para a mesma noite, com funções distintas.

A estrutura da festa

A recepção foi organizada com menu elaborado pelo catering do próprio château — prática comum em Ferrières, que opera também como espaço para eventos privados de alto padrão e mantém equipe de gastronomia própria. A trilha sonora ficou a cargo de DJs brasileiros, que se revezaram ao longo da noite. O momento mais visível da programação foi o espetáculo de fogos de artifício realizado nos jardins da propriedade.

Entre os convidados presentes registrados pelas fotografias oficiais estavam Silvia Braz, Maria Braz, Adibe Marques e Livia Nunes.

Silvia Braz e Elisa Zarzur

O bolo: um projeto de logística e confeitaria

Um dos elementos mais operacionalmente complexos da festa foi o bolo, assinado pelo confeiteiro Denilson Lima — responsável, segundo a organização do evento, por peças criadas para diferentes momentos da vida de Elisa Zarzur ao longo dos anos, incluindo aniversários e datas comemorativas.

Bolo de casamento assinado por Denilson Lima no Château de Ferrières, produzido com ingredientes trazidos do Brasil

Para a execução da peça no próprio Château de Ferrières, uma equipe viajou do Brasil com mais de 20 malas contendo ingredientes, materiais e utensílios específicos. A produção foi realizada dentro do castelo, o que impôs logística de importação temporária de insumos e adaptação ao espaço da cozinha da propriedade. Não há registro público dos detalhes da peça além das fotografias divulgadas.

A escolha de manter o mesmo confeiteiro de ocasiões privadas para o evento de maior visibilidade pública é uma decisão que fala de continuidade — a preferência por um trabalho conhecido e de confiança em detrimento de uma assinatura mais internacionalmente reconhecida, que Paris ofereceria em abundância.

Ferrières como escolha editorial

Casar no Château de Ferrières em 2026 é uma escolha que comunica antes mesmo de qualquer detalhe da festa ser conhecido. A propriedade é reconhecida internacionalmente tanto pelo seu valor arquitetônico quanto pela densidade histórica acumulada ao longo de quase dois séculos de uso pela família Rothschild.

O Baile Surrealista de 1972 — organizado pela baronesa Marie-Hélène de Rothschild — é o evento mais frequentemente associado ao castelo no imaginário cultural contemporâneo. As fotografias dessa festa, amplamente reproduzidas em publicações de moda, arte e comportamento nas últimas décadas, fixaram Ferrières como um espaço onde o extraordinário não é apenas possível, mas esperado.

Usar esse espaço para um casamento privado — e não para um evento institucional ou corporativo — é uma decisão que posiciona a festa dentro de uma linhagem específica de celebrações europeias de alto padrão: aquelas que escolhem o lugar pelo peso da história, não pela conveniência da infraestrutura.

Os jardins projetados em estilo inglês, sobre os quais os fogos de artifício explodiram na noite de sábado, são parte do projeto original de Paxton e integram o mesmo espaço que serviu de locação para Polanski nos anos 1960. A paisagem é, ela mesma, um documento.

O que o casamento de Elisa e Alexandre registra

O evento de sábado encerrou um fim de semana inteiro de celebrações que o casal organizou em Paris — formato que, no segmento de casamentos de alto padrão, se tornou padrão entre famílias com convidados internacionais: múltiplos eventos ao longo de dois ou três dias, em locações diferentes, com programações distintas para cada momento.

O Château de Ferrières, para o encerramento dessa sequência, foi escolhido como palco da festa principal — a recepção com os 300 convidados, os DJs, os fogos, o bolo produzido com 20 malas de Brasil.

O registro fotográfico oficial de Ale Bigliazzi documenta uma noite em que o luxo foi mobilizado com precisão de propósito: cada elemento presente ali — do vestido de renda Chantilly ao confeiteiro de confiança trazido de outro continente — foi escolhido por quem e pelo que representa, não apenas pelo que aparenta.

Em Ferrières, onde o aparato sempre foi abundante, essa distinção raramente é tão legível.

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Ana Paula Tergilene é professora, pedagoga, jornalista, editora-chefe e fundadora da Revista Pàhnorama. Com mais de 25 anos de atuação na imprensa, construiu uma trajetória marcada pelo jornalismo crítico, independente e comprometido com a verdade, a diversidade e os direitos humanos. Atua nas áreas de política, cultura e sociedade. É referência em narrativas que dão voz a quem historicamente foi silenciado, unindo rigor jornalístico, sensibilidade social e visão estratégica de comunicação.

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