Era uma quarta-feira, 13 de março de 2013. Por volta das 19h06 no Vaticano (15h06 no horário de Brasília), a Igreja Católica encerrava o Conclave convocado após a histórica renúncia de Bento XVI. Joseph Ratzinger deixava o trono de Pedro após quase oito anos de pontificado, alegando que a “fragilidade física e mental” o impedia de cumprir as exigências de sua missão aos 85 anos de idade.
O cardeal eleito era o argentino Jorge Mario Bergoglio, de 76 anos. O então arcebispo de Buenos Aires teria sido o segundo colocado no conclave que elegeu Ratzinger, em 2005. O nome escolhido era inédito: o 266⁰ líder de mais de um bilhão de católicos se chamaria Francisco — nome adotado após ouvir do cardeal brasileiro Cláudio Hummes: “Não se esqueça dos pobres”. Já nos primeiros minutos como Pontífice, Francisco quebrou protocolos ao pedir que a multidão presente na Praça de São Pedro rezasse por ele, antes mesmo de proferir sua primeira bênção.
Desde esse gesto inicial, Francisco moldou seu pontificado pela proximidade e pela quebra de formalidades, trocando os luxuosos apartamentos papais pela simplicidade da Casa Santa Marta e enviando a mensagem clara de que a Igreja deveria ser um “hospital de campanha”, pronta para acolher a todos sem julgamentos prévios. Essa postura humanizada abriu caminhos para o diálogo com grupos marginalizados, priorizando a misericórdia sobre a rigidez doutrinária. Para além das fronteiras do Vaticano, ele consolidou-se como um dos líderes mais influentes do século XXI através de documentos como a encíclica Laudato si’, que uniu a fé à urgência climática, e a Fratelli tutti, que reforçou a fraternidade universal e a crítica ao “descarte” humano. Internamente, Bergoglio enfrentou temas espinhosos como a reforma das finanças e o combate aos abusos sexuais, apostando na Sinodalidade para tornar a instituição menos centralizada no clero e mais participativa para leigos e mulheres.
A morte de Francisco em 2026 encerra, portanto, o capítulo do “Papa das Periferias”, que humanizou o trono de Pedro com seu despojamento e deixou como herança uma Igreja irremediavelmente mais horizontal e conectada às dores do mundo moderno. O paralelo com a eleição de seu sucessor, Leão XIV, marca uma transição simbólica de eras: enquanto o nome “Francisco” evocava a reforma pela humildade e o cuidado com a criação, o título “Leão” resgata a linhagem da doutrina social e da firmeza institucional. Isso sugere que, se Bergoglio foi o arado que revolveu a terra e plantou novas sementes de acolhimento, o novo Pontífice assume agora a missão de organizar essa colheita, equilibrando as aberturas proféticas de 2013 com a necessidade de unidade e síntese em uma cristandade que busca consolidar as reformas iniciadas sob o signo da misericórdia.
