Aconteceu em São Paulo, no bairro Vila Santa Catarina zona Sul da capital Paulista um evento de conversas brasileiras sobre uma verdadeira epidemia dos últimos tempos: a obesidade.

Arquivo pessoal.

Conduzido pela especialista Andrea Levy, o encontro reuniu diversos profissionais da área para trazer esclarecimentos sobre a doença, as causas que impulsionam os altos índices, o combate aos estigmas e a realidade dos pacientes que convivem com a patologia.

Divulgação

No Brasil, a realidade reflete essa tendência preocupante. Dados do sistema Vigitel do Ministério da Saúde indicam que a obesidade entre adultos brasileiros saltou de 11,8% em 2006 para 25,7% em 2024 — um crescimento de 118% em menos de duas décadas. Atualmente, estima-se que um a cada três brasileiros adultos viva com a doença, enquanto cerca de 62% da população está acima do peso. O cenário entre os jovens também é crítico: uma em cada cinco crianças e adolescentes no país já convive com o sobrepeso ou a obesidade.

As especialistas Andrea Levy e Aida Franques conversaram com exclusividade com a Revista Pàhnorama.

Aida Franques

Psicóloga especializada em Transtornos Alimentares, Obesidade e acompanhamento em Cirurgia Bariátrica, destaca-se pela liderança como presidente e ex-vice-presidente da COESAS/SBCBM. Referência técnica na área, é coordenadora das Diretrizes Brasileiras para a Assistência Psicológica em Cirurgia Bariátrica (2023) e membro da IFSO, consolidando uma atuação de excelência nacional e internacional no cuidado em saúde metabólica.

Revista Pàhnorama – Ranielson Cambuim: Doutora Aida Franques, em que momento a senhora percebeu que um paciente bariátrico precisaria de um acompanhamento psicológico também?

Aida Franques: Olha, desde o começo do meu atendimento, eu fui convidada para participar da equipe do ator Garrido lá nos anos 90 e pouco, né? Porque ele já tinha essa percepção de que alguns pacientes, pelo menos, necessitavam de um acompanhamento psicológico. Era tudo muito começo da cirurgia bariática, né? Não tínhamos história anterior, né? Então era muito mesmo na percepção do médico que fazia tudo sozinho, era ele que cuidava da prática nutricional, do apoio psicológico. E aí começaram a perceber que o paciente precisava de outros apoios, de especialistas. E a equipe multidisciplinar. Foi começando a ser chamada para participar. E a gente já se conhecia, ele me convidou para participar quando ele abriu o Instituto Garrido e aí comecei a dar esse tipo de atendimento aos pacientes. E assim, já de início a gente percebeu quanto isso era importante, né? Porque a obesidade é essa doença complexa que a gente está vendo hoje aqui, né? Com que a pessoa está ali junto, sofrendo. Normalmente, antigamente ainda, né? O paciente que ia para cirurgia era o paciente que tinha peso muito alto, né? Não era assim como hoje em dia, pessoas com menos peso. Então, eram os obesos móbidos mesmo, né? Então, eram pessoas que tinham um sofrimento psicológico, emocional muito grande e que precisavam ser tratados.

Revista Pàhnorama – Ranielson Cambuim: E realmente, uma pessoa é um antes e depois da bariátrica, não só pelo corpo, mas também psicologicamente?

AF: É bem visível essa mudança, a gente fala isso até, não é só o espaço que a pessoa ocupa que vai mudar, é a questão emocional, então normalmente a pessoa vem com uma autoestima muito baixa, muito baixa, e o emagrecimento vai trazendo uma alegria de ver que está conseguindo dar conta disso, que está emagrecendo, que está ficando bem, e as pessoas vão falando, dando feedback, nossa, você está ótimo, você está bem, está emagrecendo, que lindo, eu até brinco sobre isso com os pacientes, você pode até, a cabeça pode ir para as nuvens, porque acaba ficando às vezes muito estimulado, né? Mas não tire os pés do chão, né? Porque a vida está aqui, a gente, muita coisa está mudando, e daí também a importância do acompanhamento psicológico, né? Então para acompanhar essas mudanças, para orientar, para apoiar. Olhar para a pessoa, às vezes a pessoa começa a viver coisas que ela nunca viveu anteriormente, é muita novidade, né? Da vida mesmo, das coisas que ela passa a ter acesso, que ela passa a ter voz ativa, da forma como ela é vista no mundo, muda muito isso, né? Então é muito importante se acompanhar, sem dúvida, e é uma diferença marcante. Muitos pacientes falam, minha vida se resume nisso antes da cirurgia bariátrica e depois da cirurgia bariátrica, quer dizer, antes do emagrecimento e depois do emagrecimento.

Andrea Levy

Psicóloga clínica e bariátrica com mais de 20 anos de experiência, especialista em Obesidade e Transtornos Alimentares pelo HC-FMUSP. É presidente e cofundadora do Instituto Obesidade Brasil, além de autora da obra ‘Cirurgia Bariátrica: manual de instruções para pacientes e familiares’, consolidando uma carreira dedicada ao suporte especializado e à disseminação de conhecimento na área

Revista Pàhnorama – Ranielson Cambuim: Epidemia da obesidade, qual será o maior motivo por trás dessa grande polarização dessa doença?

Andrea Levy: A obesidade é uma doença multifatorial, com mais de 200 fatores que interferem, desde mudanças climáticas, genética, ambiente, e a gente tem que levar em consideração tudo isso. A segurança pública é uma coisa que interfere, se eu posso andar na rua ou se eu não posso, se eu moro em um lugar mais seguro, menos seguro, se eu tenho acesso a alimentos de melhor qualidade, alimentos em natura ou não, quais são os hábitos da minha família, então são mais de 200 fatores discriminados no desenvolvimento da obesidade, e o nosso mundo, o mundo mesmo inteiro, está mais sedentário, com a alimentação mais processada, então tudo isso realmente interfere no aumento exponencial da obesidade hoje no mundo. Espero que em breve, com as novas medicações, com novos tratamentos e principalmente com a educação das pessoas relacionada à alimentação, relacionada ao estilo de vida, a gente possa começar a reduzir essa curva, mas por enquanto é uma curva que só sobe no mundo inteiro.

Revista Pàhnorama – Ranielson Cambuim: A tendência então ainda é aumentar esses casos, ainda ser algo maior do que já se é hoje?

AL: Infelizmente, as projeções são ruins nesse sentido, as projeções são de aumento da obesidade porque o acesso ao tratamento, o acesso à medicação ainda é muito restrito. A grande maioria das pessoas não tem acesso e a bons profissionais, então uma das coisas que a gente prioriza muito no Instituto Obesidade Brasil é a educação das pessoas em relação a estilo de vida e também a educação dos profissionais de saúde para que as pessoas possam realmente ter acesso à medicação. Profissionais que saibam tratar da doença obesidade e entender a obesidade sempre como doença crônica e não como falta de força de vontade ou qualquer desleixo desse tipo. Ainda é uma luta, esse discurso ainda é uma luta para nós disseminar esse conhecimento.

Revista Pàhnorama – Ranielson Cambuim: Agora tem a moda das canetas emagrecedoras até se contrapondo com o tradicional bariátrica. Como fica o paciente hoje? Uma caneta ou uma bariátrica?

AL: Os tratamentos não se contrapõem. O tratamento cirúrgico, o tratamento medicamentoso são opções importantes e que aumentam os tipos de tratamento possíveis para as pessoas que precisam do tratamento da obesidade. A cirurgia ainda tem sua validade, provavelmente terá ainda por bastante tempo. Provavelmente a gente vai operar pacientes mais graves, pacientes metabólicos, pacientes com algumas comorbidades relacionadas à obesidade e cada vez mais a indústria farmacêutica está evoluindo e isso é maravilhoso. A tecnologia funcionando a favor do paciente e, obviamente, quando bem indicados e de novo por profissionais qualificados, tem que tomar muito cuidado com medicações. Falsas, manipuladas e de procedência duvidosa. Agora, as duas coisas têm o seu valor e muitas vezes elas se complementam. Tem pessoas que fizeram cirurgia há muitos anos e voltaram a ganhar peso ou tem uma dificuldade do controle do peso pela própria genética da obesidade, mas elas podem usar a medicação também combinada com a cirurgia. Então, uma coisa não anula nem exclui a outra

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