O carimbó é a alma do Pará. Mais do que um gênero musical, essa manifestação cultural sintetiza a vida no segundo maior estado em área territorial do país, onde a Linha do Equador cruza a imensidão da Floresta Amazônica. Em cada letra e no balanço das saias, ecoa o cotidiano das populações ribeirinhas e sua simbiose com a natureza exuberante do Norte. É música que cheira a rio e dança que traduz a força das comunidades rurais paraenses.

Contudo, a cerca de 3.500 km dali, o tremor do couro atravessa fronteiras e reivindica seu espaço no asfalto. Longe das águas do Tapajós, mas cercado pelo fervor do Rio de Janeiro, o carimbó encontrou um novo solo fértil. Você, leitor, certamente já sentiu o impacto grave do curimbó, um som tão profundo que evoca batalhas ancestrais, ecoando pelas ruas do Centro da cidade. Mas não se engane: é no coração do subúrbio, na Zona Norte, que esse movimento se torna um verdadeiro pavio de pólvora. Ali, entre o cotidiano carioca e a tradição paraense, a cultura explode em cores, sabores e cânticos que provam que a resistência de uma herança não conhece distâncias.

Há um magnetismo particular na esquina da 24 de Maio com a Vitor Meireles. Nas tardes de domingo, o cruzamento deixa de ser apenas uma passagem para se tornar o palco principal: um encontro de sons, dança e sabores que confirma que ali é onde tudo realmente acontece.


O Aturiá Carimbó, criado pela pesquisadora Andréia de Vasconcelos, é um dos principais grupos de carimbó do estado do Rio de Janeiro. Acompanhado de grandes grupos como Carimbó dos Altos, Afroribeirinhos, Kianda e vários outros grandes nomes, são responsáveis por criar essa atmosfera ancestral.

A Pàhnorama marcou presença nessa imersão e trocou uma ideia com quem vive e deixa a festividade mais rica com graça e dança. Sendo assim, bora comigo…

Roberto Valleck: Andréia, qual é a importância de manter o Carimbó vivo no subúrbio?

Divulgação

Andréia de Vasconcelos: Durante muitos anos, o Carimbó, como movimento comunitário aqui no Rio, ficou mais restrito à região do Centro, ali entre Lapa e Santa Teresa.

Aos poucos, numa escala temporal mais recente, com o surgimento de novos grupos, ele foi ganhando espaços, se difundindo para a Zona Sul, Zona Norte, Niterói, Região Oceânica e até fora da capital, como Paraty.

Ocupou novos espaços e uma das coisas que eu tive oportunidade de vivenciar e que me deixou muito feliz foi falar sobre carimbó e fazer práticas com carimbó nas universidades.

Estar em lugares historicamente eurocêntricos, que raramente dão abertura para o estudo de culturas tão discriminadas, como a cultura do Norte, que foi desenvolvida a partir dos fazeres dos povos originários, quilombolas, ribeirinhos e caboclos da Amazônia.

Importante estar dentro desse contexto educacional, sabe? Mesmo que às vezes como parte de uma atividade pontual, fora da grade curricular, mas que é de extrema importância para abrir caminhos e mentes ali dentro, chamando atenção para uma cultura que é Patrimônio do Brasil e que precisa ser reconhecida, valorizada e respeitada.

Agora, respondendo à sua pergunta sobre qual a importância de manter esse movimento no subúrbio: a importância é alta e profundamente necessária. E não se trata meramente de entretenimento.

O que Adriana e seu companheiro fazem ali, no bairro Riachuelo, é abrir a casa e ocupar a rua, promover acolhimento à comunidade nortista que reside no Rio, um alento para quem está fora da sua terra. Uma experiência incrível para os cariocas e turistas.

É um lugar para vivenciar a cultura do Norte de uma forma completa, com culinária, dança e os ritmos quentes do nosso estado, valorizando os artistas.

Fazer carimbó na rua, na periferia, no Sudeste é um ato revolucionário. Conseguir mobilizar os moradores do bairro e de outras áreas é fruto de um trabalho feito com dedicação e propósito. Criar eventos é fácil, mas sustentar é difícil.

Manter esse festejo mensalmente ao longo dos anos, com público fiel, requer um bom trabalho e amor pela cultura.

Esse movimento no subúrbio contribui para uma maior difusão do carimbó porque o subúrbio me parece mais acolhedor e divertido. Isso atrai gente de toda parte. Assim, o carimbó vai se mantendo cada vez mais presente na vida de um maior número de pessoas.



Roberto Valleck: Marcela Boto, qual é a sensação de vestir o traje típico do carimbó e subir no palco para representar sua cultura?

Marcela Boto: Olha, é muito boa. Mas o melhor da sensação é o pisar com movimentos indígenas, chamar a força da terra, uma sensação de conexão ancestral. E essa parte nem precisa do traje, ele é só a cereja do bolo para mim.

Ana Paula Felipe e Aurélio Batman são um casal que vive o carimbó de forma muito especial. Ambos são membros do Kianda (Cia Multicultural) e, claro, também bateram um papo com a Pàhnorama.

Roberto Valleck: Ana Paula Felipe, de que maneira seu trabalho como artista atua como ferramenta de preservação da memória e resistência dos saberes ancestrais do Pará?

Ana Paula Felipe: Sou artista, professora e pesquisadora do Carimbó, além de fundadora do Kianda Cia Multicultural. Meu percurso artístico foi profundamente marcado pelo contato direto com mestres do Carimbó e pelo aprofundamento da pesquisa sobre essa importante manifestação cultural da Amazônia.

Em 2017, no Rio de Janeiro, iniciei um processo de aprendizado e investigação sobre o Carimbó, sua dança, sua percussão e os modos de fazer que compõem o universo dos carimbozeiros fora de seu território de origem.

Nesse período, integrei o projeto Carimbloco, coordenado pelo Mestre Silvan Galvão, integrante do Coletivo de Mestres de Carimbó do Oeste do Pará, que então desenvolvia um importante trabalho de difusão da cultura paraense no Rio.

Esse espaço de convivência e troca cultural foi fundamental para o aprofundamento das minhas pesquisas práticas e teóricas sobre o Carimbó. Com o tempo, passei também a atuar como monitora de dança, orientando novos participantes nos fundamentos dessa tradição.

A partir dessas vivências, em 2021 fundei o Kianda Cia Multicultural, um grupo artístico, sociocultural e ambiental que desenvolve projetos nas áreas de dança, música, teatro e performance inspirados nas manifestações da cultura popular brasileira, com especial atenção às culturas da região Norte.

O Carimbó do Oeste do Pará tornou-se o eixo central das pesquisas e criações da companhia.

O projeto também tem como objetivo promover a valorização cultural e a inclusão social, atuando principalmente com comunidades do subúrbio do Rio de Janeiro.

As ações priorizam o acolhimento e o fortalecimento de pessoas em situação de vulnerabilidade social, econômica e de violência, com especial atenção às mulheres.

As atividades são desenvolvidas em escolas, CAPS, Clínicas da Família e espaços comunitários, utilizando o carimbó como ferramenta de educação, cuidado, pertencimento e transformação social.

Roberto Valleck: Para compor este cenário, não poderia faltar a mão de quem dá forma ao som. O Aurélio Batman é luthier do curimbó, instrumento de origem indígena que é a base rítmica da nossa terra.

Aurélio, te faço a mesma pergunta sob a ótica da criação: como você enxerga o seu trabalho artesanal servindo de ponte para manter viva a memória e os saberes ancestrais do povo do Pará?

Aurélio Batman: Valleck, hoje sou o único artesão e luthier que confecciona, de forma totalmente artesanal, os instrumentos tradicionais do Carimbó utilizando materiais orgânicos e recicláveis.

Meu trabalho nasce do compromisso de manter viva uma tradição que me foi transmitida pelos mestres do Carimbó do Pará, especialmente pelos mestres de Alter do Chão, que são grandes guardiões desses saberes ancestrais.

Ao construir cada instrumento, não estou apenas produzindo um objeto musical, mas preservando uma memória coletiva, um conhecimento que atravessa gerações e que faz parte da identidade cultural amazônica.

Esse processo artesanal é uma forma de salvaguardar esses saberes, garantindo que eles não se percam com o tempo e continuem sendo praticados e reconhecidos.

Além disso, ao levar esse trabalho para fora do território de origem — hoje atuando no subúrbio do Rio de Janeiro — contribuo para ampliar o alcance do carimbó, fortalecendo sua presença em outros territórios e promovendo o encontro entre culturas.

O carimbó é um patrimônio cultural imaterial brasileiro e, por isso, é fundamental que ele seja valorizado e difundido em todo o país.

Assim, meu trabalho como artesão e luthier se torna uma ferramenta de resistência cultural, preservação da memória e continuidade dos saberes tradicionais do Pará.

Roberto Valleck: Música e dança são a alma do projeto, mas todo grande movimento precisa de um alicerce. Vamos conversar com a mente pensante, a dona dos sabores por trás desse movimento, quem deu a estrutura necessária para chegarmos até aqui!

Roberto Valleck: Adriana Veloso, uma boa festa nunca pode faltar uma boa comida. Além da boa música, o público lota os eventos pela rica gastronomia. Como é preparar e alimentar tanta gente com pratos típicos que trazem muitas memórias afetivas de sua terra natal?

Adriana Veloso: É uma responsabilidade que eu carrego com muito amor e um pouquinho de “molho” paraense!

Alimentar tanta gente é como fazer um banquete para a minha própria família. Cada maniçoba que a gente mexe por sete dias, cada tacacá servido e cada peixe na brasa carrega uma história.

Eu sei que, para muitos que estão ali, aquele sabor é um abraço, é a lembrança da avó, da infância em Belém ou no interior.

Ver a casa cheia, o povo sorrindo e se emocionando com a minha comida é o meu maior combustível.

Eu não sirvo apenas um prato; eu sirvo a nossa ancestralidade.

É trabalhoso, sim. Mas, quando vejo a roda de carimbó girando e o povo com o prato na mão, sinto que o meu dever está cumprido: a alma do Pará está viva aqui no Rio.

Tacacá

Roberto Valleck: E, para fechar com chave de ouro, a última pergunta que deveria ser a primeira: como surgiu a ideia de trazer a cultura do Pará para o subúrbio do RJ?

Adriana Veloso: Olha, o Pescados nasceu de uma saudade muito grande. Eu e meu marido, Junior, sentíamos falta do cheiro, do tempero e daquela energia que só o Pará tem.

O subúrbio do Rio, especialmente o Riachuelo, sempre foi um lugar de muita mistura e gente trabalhadora, mas faltava esse pedacinho da Amazônia.

A ideia não foi só abrir um restaurante, foi criar uma embaixada.

Eu queria que o paraense se sentisse em casa e que o carioca pudesse viajar sem sair do Rio.

Trazer o nosso carimbó e a nossa culinária para cá foi a forma que encontrei de honrar minhas raízes e mostrar que a nossa cultura é potente, é alegre e merece ser celebrada em todos os cantos.

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3 Comentários

  1. Bruno Azevedo on

    A cultura brasileira é uma das maiores riquezas do nosso país.
    Ela representa a história, os costumes e a diversidade do nosso povo. Valorizar a cultura é respeitar nossas raízes, preservar nossas tradições e reconhecer aquilo que forma a identidade do Brasil. Manter a cultura viva é fortalecer a sociedade e inspirar as próximas gerações.

  2. Essas fotos ficaram muito bacanas e as entrevistas também! Esse ponto é um espaço de aconchego cultural da zona norte, onde pude aprender vivenciando através da alegria e da comida sobre a cultura paraense. Viva o Pescados e os artistas que passam por lá!

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