Tive grandes professores na faculdade. Devo a eles boa parte da consciência sociopolítica que adquiri e ainda vou adquirindo. Afinal, não se sai incólume de um curso de comunicação social. Disciplinas como sociologia, formação da cultura brasileira, teoria da comunicação, antropologia, teoria política, sociologia da comunicação, economia política, comunicação política, teorias do jornalismo, entre muitas outras, viram o aluno do avesso e fazem com que vejamos os fatos por olhares nunca dantes vislumbrados.
Entre os inesquecíveis mestres com quem muito aprendi, destaco, neste artigo, Reinaldo Pompeu de Campos, com quem convivi nos dois primeiros períodos. Ele era professor de estudos dos problemas brasileiros I e II, que chamamos, no jargão universitário de EPB. Culto, arguto, bem-humorado e dono de uma ironia fina admirável, Reinaldo fazia das aulas um verdadeiro prazer. Saudades dele!
No início do segundo período – março de 1989 – Dia Internacional da Mulher, ele entrou na sala, às 19h (a aula ia até 20h20), parabenizou todas as mulheres presentes, louvou as conquistas do sexo feminino ao longo das décadas e desejou que outras tantas viessem. Assim que as moças e jovens senhoras presentes agradeceram, ele arrematou, entre sério e irônico: “Agora já pra cozinha, porque eu quero o jantar pronto às 20h30!” Foi uma gargalhada geral, mas ele fez essa provocação justamente para introduzir o assunto que pautaria a aula: o machismo estrutural.
Mais de 30 anos depois da bem-humorada provocação do Reinaldo, cá estamos nós às voltas com o mesmo machismo estrutural, desta vez de forma mais gritante, talvez devido ao advento da internet e redes sociais. Não só pela quantidade de casos de machismo escancarado, estupro e feminicídio que testemunhamos todos os dias (haja imagens!), mas também por causa dos vários grupos de ódio, em que homens se reúnem para desmerecer a condição feminina e até combinar estupros. É revoltante e terrivelmente real.
Essa visão da mulher como um ser inferior que deve submissão e obediência ao homem é antiga, bem o sabemos. Remonta a várias tradições religiosas e está presente em inúmeros episódios da história da humanidade. Atualmente, graças a vários avanços e conquistas, o assunto está sempre na ordem do dia e precisa continuar. Ainda há muitos homens achando que lugar de mulher é na cozinha, que eles mandam no pensamento e na vontade do sexo feminino, que não aceitam não como resposta, que as mulheres são seres sem vontade e expostos numa vitrine para que eles as escolham etc. Eu, como homem que tenta ser cada vez menos machista, já testemunhei muita coisa.
Certa vez, num clube aqui da minha cidade, estava reunido com três colegas de adolescência. Um deles – a quem chamarei de Luís Cláudio – apontou para uma menina próxima e disse: “Olha lá que jaburu, gente!” Os outros dois acharam graça e concordaram com ele. Já eu preferi ficar quieto. A menina – a quem chamarei de Verônica – era minha colega de colégio; uma boa colega, aliás. Vários anos depois, encontrei-a feliz, casada, com filhos e realizada profissionalmente. Quanto a Luís Cláudio, que se referiu a ela como jaburu, namorou, por muito tempo, uma moça a quem ele dizia gostar muito. Até que, um dia, no início da vida adulta, ele me disse que ainda gostava dela, mas preferira romper o namoro porque estava com outra que tinha um par de seios maravilhoso. Pois é, trocou uma relação baseada em afeto e cumplicidade por, como ele mesmo disse “uns peitos lindos”. Machismo estrutural é isso!
Anos depois, encontrei Luís Cláudio na rua. Estava feliz e casado com uma terceira moça. O casamento seguiu bem por muitas décadas até que, não sei por que, terminou. Um belo dia, soube que ele havia morrido tragicamente, num acidente na rodovia BR-040, que corta Petrópolis (RJ), onde moramos. Numa noite chuvosa de domingo, Luís Cláudio perdeu o controle do automóvel, capotou e foi cuspido do veículo. Morreu na hora, estatelado no asfalto e encharcado pela chuva. Fiquei triste, confesso. E fiquei mais triste ainda por ter sabido do fato quatro meses depois. Gostaria de ter ido me despedir dele. Era um bom amigo com quem conversei e me diverti muito, principalmente na adolescência e juventude. Não deixou, no entanto, de ser um produto do meio machista, que enxerga mulheres como objetos à disposição do prazer e da conveniência dos homens.
Meses depois do desenlace de Luís Cláudio, deparei com Verônica. a quem ele, décadas antes, havia tachado de jaburu. Uma mulher feliz, sorridente e com o marido a tiracolo. Ambos almoçando com uma das filhas. Acenei para ela e saí satisfeito do restaurante. A cena dela e família à mesa também havia me alimentado.
Neste Dia Internacional da Mulher, faço votos que cada vez mais mulheres conquistem independência, realização afetiva e profissional e mandem passear os homens que tanto as desmerecem. Elas não precisam mais de machos tóxicos que acham que o lugar delas se restringe à cozinha, à vitrine ou à cama, onde ele manda e ela obedece. Esse tempo já passou, embora alguns barbados ainda insistam em atrasar o relógio.
Marcelo Teixeira
