Por Ana Soáres
Durante muito tempo, a menopausa foi tratada como uma espécie de despedida. Não apenas da fertilidade, mas de algo ainda mais íntimo: o direito ao prazer. Entre o constrangimento, a desinformação e uma cultura que insiste em associar o valor da mulher à juventude, milhões atravessaram esse período acreditando que o desejo era algo que ficava para trás. Não ficava. Apenas deixava de ser reconhecido.
A menopausa não chega de forma abrupta. Ela se instala aos poucos, silenciosa, alterando ritmos, sensações e percepções. Oficialmente, é caracterizada pela ausência de menstruação por doze meses consecutivos, resultado da queda natural na produção de hormônios como o estrogênio e a progesterona. Mas reduzir esse processo a uma definição clínica é ignorar o impacto real que ele tem sobre o corpo e sobre a identidade.
O tecido vaginal perde elasticidade. A lubrificação diminui. O contato que antes era natural pode passar a causar desconforto. Há mudanças que não se veem, mas que se sentem — e, muitas vezes, se silenciam. O que a medicina chama de síndrome geniturinária da menopausa é, na prática, uma experiência que atravessa o físico e o emocional. E, sem orientação adequada, muitas mulheres interpretam essas mudanças como um sinal de fim, não de transição.
Mas o que está em jogo não é o desaparecimento do desejo. É a falta de cuidado com ele.
Em consultórios e ambulatórios, uma realidade começa a emergir com mais clareza: quando há informação, acolhimento e tratamento adequado, a vida sexual não apenas continua — ela se transforma. E, para muitas mulheres, se torna até mais consciente.
Há medidas simples que fazem diferença. O uso de sabonetes íntimos com pH adequado ajuda a preservar o equilíbrio natural da região. Roupas íntimas de algodão evitam o acúmulo de umidade e protegem a microbiota vaginal. Lubrificantes específicos reduzem o atrito e devolvem conforto às relações. São cuidados que, por muito tempo, não foram ensinados — não por falta de solução, mas por falta de prioridade.
Nos últimos anos, novas abordagens também começaram a ganhar espaço. Procedimentos como o laser vaginal e a radiofrequência estimulam a produção de colágeno e contribuem para a regeneração do tecido. Ainda inacessíveis para muitas, essas técnicas representam um avanço importante. Mais do que tecnologia, elas simbolizam uma mudança de paradigma: o reconhecimento de que a saúde sexual feminina importa em todas as fases da vida.
Mas talvez a transformação mais profunda não esteja nos equipamentos, e sim na consciência.
As mulheres vivem mais do que nunca. E isso significa viver mais tempo após a menopausa. Décadas inteiras em que o corpo continua sendo território de sensações, afetos e experiências. Ignorar isso é perpetuar uma forma de apagamento que não tem base científica — apenas cultural.
A ideia de que o prazer tem prazo de validade nunca foi uma verdade biológica. Foi uma construção social.
Hoje, essa narrativa começa a ser confrontada. Não com discursos grandiosos, mas com gestos cotidianos: uma mulher que busca informação, que questiona, que se recusa a aceitar a dor como destino. Que entende que o corpo não deixou de ser seu — apenas exige um novo tipo de escuta.
A menopausa não é o fim de nada. É uma travessia.
E, como toda travessia, ela pode ser solitária quando não há orientação. Mas também pode ser um reencontro — com o próprio corpo, com o próprio tempo e, sobretudo, com o direito de continuar existindo por inteiro.

