Por Ana Soáres
Estreante no Carnaval carioca e já ocupando um dos espaços mais disputados da festa, Virginia Fonseca entrou definitivamente no radar do noticiário de celebridades ao surgir usando uma coleira com o nome de Vini Jr., em clara referência ao gesto icônico de Luma de Oliveira no desfile da Tradição de 1998. O acessório, que atravessou décadas como um dos símbolos mais debatidos da história do Carnaval, retorna agora ressignificado no corpo de uma influenciadora que carrega milhões de seguidores, contratos publicitários e um poder de alcance que ultrapassa o território da avenida.
O que poderia ser apenas um tributo estético rapidamente se transformou em pauta social. A imagem de Virginia com a coleira escancarou uma tensão antiga que insiste em se reciclar: até que ponto gestos públicos de afeto feitos por mulheres famosas são lidos como autonomia e até que ponto continuam sendo interpretados como submissão, mesmo quando partem de mulheres financeiramente independentes, empresárias e protagonistas de suas próprias narrativas?

Ao afirmar que não se considera submissa e que a escolha partiu exclusivamente de seu desejo de exaltar o namorado, Virginia tenta se colocar no campo da autonomia. Mas o debate não se encerra na intenção individual. Ele se amplia para o campo simbólico. Símbolos não pertencem apenas a quem os usa. Eles circulam, produzem sentidos, geram disputas e são apropriados por diferentes camadas da sociedade.
A coleira, enquanto objeto, carrega uma memória cultural carregada de ambiguidades. Em 1998, Luma de Oliveira foi alvo de ataques violentos, julgamentos morais e leituras reducionistas. Décadas depois, a repetição do gesto não acontece em um vazio histórico. Ela reativa debates que nunca foram plenamente resolvidos sobre erotização do corpo feminino, romantização de relações de poder e a constante vigilância sobre as escolhas das mulheres, sobretudo quando essas escolhas envolvem homens famosos.
Voltando ao passado, em 28/09/2023, numa entrevista exclusiva ao jornalista Leo Dias, para o “Fofocalizando” do SBT, Luma de Oliveira relembrou a polêmica história envolvendo a coleira com o nome do ex-marido, lembrou que sofreu críticas e foi acusada de ser submissa ao marido, com quem permaneceu casada por 13 anos. E apesar de não querer falar mais do assunto, foi categórica: “sou muito seletiva”, garantiu a atriz, modelo e empresária.

“Ali eu estava à frente de uma bateria com 300 ritmistas, sambando, de maiô, aonde viram algum gesto de submissão? Eu acho que as pessoas queriam era falar. Como vai falar hoje se outra mulher fizer”, afirmou Luma.
Há ainda um componente que não pode ser ignorado: a espetacularização da vida afetiva como produto. Virginia não é apenas uma mulher apaixonada. Ela é uma marca. Cada gesto seu, cada look, cada frase, cada postagem se converte em conteúdo, engajamento e monetização. O amor, nesse contexto, também vira performance. Não no sentido de ser falso, mas no sentido de ser exibido dentro de uma lógica de mercado que transforma intimidade em ativo.
Quando Virginia diz “eu amo ele” diante das câmeras, essa frase circula em um ecossistema onde sentimentos são recortados, replicados, comentados e transformados em manchetes. O afeto, que poderia ser apenas privado, passa a existir como narrativa pública, sujeita a leitura, distorção e consumo.
A reação atribuída a Vini Jr., descrita pela própria Virginia como bem-humorada, também revela outra camada desse fenômeno. Homens famosos, em geral, são pouco cobrados quando se tornam centro de gestos grandiosos de devoção. Já as mulheres que os protagonizam seguem sendo analisadas, esquadrinhadas e convocadas a se explicar. A assimetria permanece.

No discurso da influenciadora, aparece uma tentativa clara de marcar território: ela afirma que tem carreira, filhos, patrimônio, identidade própria. É uma resposta direta a uma sociedade que ainda associa demonstrações públicas de amor feminino a fragilidade ou dependência emocional. O problema é que, mesmo em 2026, mulheres continuam precisando justificar escolhas que homens fazem sem qualquer questionamento.
O episódio também revela como o Carnaval segue sendo um palco privilegiado para disputas simbólicas. A avenida não é apenas festa, ela é linguagem onde, na maioria das vezes, o corpo que desfila comunica e o figurino fala o que a boca não expressa. O gesto é discurso baseado na história que o enredo carrega. Ao levar para a sociedade um símbolo carregado de memória, Virginia, consciente ou não, se insere em uma tradição onde estética e política caminham juntas.
Não se trata de condenar a escolha da influenciadora. Tampouco de canonizá-la como ato libertário. O que se impõe é reconhecer que estamos diante de um retrato fiel do nosso tempo: mulheres hiper visíveis, extremamente bem-sucedidas, mas ainda atravessadas por estruturas antigas que insistem em enquadrá-las dentro de narrativas estreitas.
Virginia pode, sim, amar. Pode, sim, homenagear. Pode, sim, brincar com símbolos. Mas o fato de esse gesto gerar tamanha repercussão diz menos sobre ela e muito mais sobre um país que ainda não sabe lidar com mulheres que escolhem, expõem e controlam sua própria imagem.
No fundo, a coleira não fala apenas de romance. Ela fala de poder, mercado, espetáculo, gênero e memória. E, talvez sem perceber, Virginia escancarou mais uma vez aquilo que o Carnaval sempre revelou com brutal honestidade: o Brasil continua sendo um território onde o corpo feminino é observado, interpretado e julgado em praça pública.
A dúvida que permanece não é se Virginia é submissa ou empoderada. A questão mais incômoda é outra: por que, em pleno 2026, ainda precisamos classificar mulheres a partir de gestos de afeto, enquanto seguimos tratando homens como sujeitos livres de qualquer rótulo?

