Ela nasceu em 1847 numa família de pretensões aristocráticas, filha de um marechal e neta de escrava alforriada — uma contradição que o Brasil imperial tentou resolver apagando-a. Não conseguiu. Chiquinha Gonzaga tocou em salões onde mulheres não deveriam estar, compôs para o carnaval quando carnaval era coisa de rua, liderou campanhas pelos direitos autorais numa época em que o conceito mal tinha nome no país. Morreu aos 87 anos, em 1935, sem saber que um dia viraria inteligência artificial. Mas talvez não se surpreendesse. Ela nunca pediu licença para ocupar espaços que não foram feitos para ela. E agora seu nome e seu rosto — redesenhados por artistas digitais do século XXI — vão conduzir visitantes do Rio2C 2026 por um labirinto de perguntas sobre direito autoral, tecnologia e o futuro da criação musical no Brasil.
A União Brasileira de Compositores, a UBC, decidiu que a melhor forma de falar sobre o presente é falar sobre ela. Não por nostalgia. Por precisão histórica. Porque ninguém entendeu melhor do que Chiquinha Gonzaga o que significa criar algo — e ver esse algo circular pelo mundo sem o criador receber nada em troca.
A FUNDADORA QUE VIROU ALGORITMO
Para entender o que a UBC está fazendo no Rio2C, é preciso entender o que Chiquinha Gonzaga fez ainda viva. Em 1917, ela liderou a fundação da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais — a primeira organização de proteção de direitos autorais do país. A motivação era simples e brutal: seus trabalhos eram encenados, suas músicas eram tocadas, e ela não recebia um centavo. O sistema cultural brasileiro da época consumia a obra e descartava o criador. Ela decidiu que isso precisava ter um nome, uma lei e uma entidade que cobrasse.
Mais de cem anos depois, a UBC — fundada em 22 de junho de 1942 por Ary Barroso, Dorival Caymmi, Humberto Teixeira e outros pilares da música brasileira — representa mais de 70 mil associados entre autores, intérpretes, músicos, editoras e gravadoras. E enfrenta, em 2026, uma versão ainda mais complexa do problema que Chiquinha enfrentou no início do século passado: sistemas de inteligência artificial que aprendem com milhões de obras musicais protegidas, geram composições novas a partir desse aprendizado — e raramente pedem autorização ou pagam remuneração a quem criou o material original.
“Os compositores, intérpretes e músicos sofrem ameaças constantes de seus direitos. A questão não é se a IA vai mudar a música. Já mudou. A questão é quem paga a conta dessa transformação.”
A escolha de nomear a assistente virtual da instituição de Chiquinha é, portanto, um gesto que carrega mais camadas do que parece. É a UBC dizendo, ao mesmo tempo, que respeita o passado e que não tem medo do futuro — mas que vai negociar os termos desse futuro com a mesma determinação que a compositora negociou os termos do presente dela.
UMA IA QUE EXPLICA O QUE OUTRA IA AMEAÇA
A Chiquinha — a assistente virtual, não a compositora — foi lançada em setembro de 2025, junto com o novo site da UBC. Ela responde perguntas sobre filiação, cadastro de obras, pagamentos, relatórios de execução pública e direitos autorais. Funciona com linguagem clara, tom acolhedor, sem o peso burocrático que historicamente afastou artistas das entidades que existem para protegê-los.
No estande do Rio2C, a ativação vai além da tela. O visitante pode selecionar perguntas sobre direito autoral e ver a Chiquinha respondendo em tempo real. Pode colocar fones de ouvido e ouvi-la falar sobre a UBC, sobre a importância dos direitos autorais, sobre o novo momento digital da entidade. Pode conhecer o processo criativo que deu vida a ela: foi imaginada e desenhada por um artista visual, com traços pensados para transmitir acolhimento e a força de uma referência histórica, e depois ganhou vida pelo olhar de uma artista especializada em vídeo e motion design.
Há uma ironia delicada — e absolutamente intencional — nessa operação. A UBC está usando inteligência artificial para explicar, de forma acessível, os direitos que a inteligência artificial ameaça. É um paradoxo produtivo. E é exatamente o tipo de ambiguidade que o debate sobre IA e cultura precisa enfrentar com mais honestidade.
O DEBATE QUE NÃO PODE MAIS ESPERAR
No dia 27 de maio, às 11h30, a UBC assina o painel “O Som do Futuro: IA Quântica, Música e Direitos”, no palco SoundBeats I do Rio2C. Participam Fernanda Takai, diretora da UBC; Karina Callai, advogada especializada em direito autoral; e Bia Ambrogi, presidente da Apro+Som. A mediação será de Bruna Campos.
O timing do painel não poderia ser mais preciso. Em 19 de maio de 2026 — seis dias antes do evento — a UBC e dezenas de outras entidades dos setores musical, audiovisual, editorial e jornalístico entregaram uma nova carta à Comissão Especial da Câmara dos Deputados pedindo proteção aos direitos autorais no Projeto de Lei nº 2.338/2023, o Marco Legal da Inteligência Artificial no Brasil.
O documento é direto no diagnóstico: <a retirada do capítulo sobre direitos autorais do PL abriria caminho para que obras protegidas fossem usadas no treinamento de sistemas de IA sem autorização dos titulares e sem qualquer remuneração. Para as entidades signatárias, isso afetaria diretamente a sustentabilidade econômica de toda a cadeia cultural brasileira.
Compositores, intérpretes, produtores: os próprios criadores cujas obras alimentam as bases de treinamento da IA podem se tornar os primeiros a perder com a revolução que ajudaram, involuntariamente, a construir.
O debate jurídico é genuinamente complexo. Como regular o uso de obras protegidas no treinamento de algoritmos sem travar o desenvolvimento tecnológico? Como garantir remuneração a artistas cujas obras foram consumidas por sistemas que, por sua vez, geram novas obras em escala industrial? Essas perguntas não têm resposta fácil — e qualquer solução simplista favorecerá um lado em detrimento do outro.
O que o painel da UBC pode entregar ao Rio2C é exatamente o que esse debate mais precisa: pessoas que conhecem o tema por dentro — jurídica, artística e economicamente — dispostas a trocar certezas por perguntas honestas.
QUANDO UMA ORQUESTRA RETORNA AO LUGAR ONDE COMEÇOU
Um dia antes do painel, no dia 26 de maio, às 18h, a Orquestra Sinfônica Juvenil Chiquinha Gonzaga sobe ao palco da Cidade das Artes no Rio2C. A data tem peso sentimental específico: a Cidade das Artes foi o primeiro local onde a orquestra se apresentou, e o grupo retorna ao espaço justamente no ano em que completa cinco anos de existência.
O nome da orquestra — Chiquinha Gonzaga — não é coincidência nem marketing. É uma afirmação de valores: a música como formação, como herança, como ferramenta de transformação para jovens que, de outra forma, rariam difícil acesso a instrumentos, professores e palcos. A mesma Chiquinha que aos 15 anos começou a tocar piano contra a vontade da família; que enfrentou preconceito de classe, de gênero e de raça para se tornar a primeira regente feminina do Brasil; que compôs cerca de duas mil obras em gêneros que a elite considerava menores — essa Chiquinha dá nome a um projeto que acredita que toda criança merece um instrumento.
Há algo profundo numa orquestra juvenil que carrega o nome de uma mulher que precisou brigar para ter o direito de ser músico. E há algo extremamente necessário em trazer essa história para um festival que discute o futuro da indústria musical. Porque o futuro da música não está apenas nos algoritmos — está também nas crianças que ainda vão compor as músicas que esses algoritmos vão querer aprender.
O ESTANDE COMO MANIFESTO
A concepção do estande da UBC no Rio2C foi pensada para criar uma tensão produtiva entre dois mundos que precisam conversar. De um lado, uma área inspirada no universo de Chiquinha Gonzaga — memória, tradição, a música que fundou o Brasil moderno. Do outro, um espaço contemporâneo e tecnológico, de interação com a assistente virtual.
A ideia não é reproduzir literalmente a casa da compositora, explicam os organizadores. É criar uma atmosfera. E atmosfera, em jornalismo e em arte, é o que permanece depois que os fatos são esquecidos. É a sensação de que algo importante está em jogo aqui.
O que está em jogo, de fato, é uma das questões mais urgentes da economia criativa global: como a cultura sobrevive quando a tecnologia aprende a imitá-la com perfeição crescente? Como um compositor, um arranjador, um intérprete sustenta a vida e o trabalho quando um sistema de IA pode gerar em segundos o que levaria meses de estudo e prática?
A UBC não tem a resposta definitiva. Ninguém tem. Mas a instituição está fazendo a coisa certa ao colocar essa pergunta no centro da conversa — com o nome de uma mulher que passou a vida inteira fazendo perguntas incômodas nos lugares onde as pessoas preferiam fingir que tudo estava bem.
Chiquinha Gonzaga morreu em 1935. Em vida, ela criou cerca de duas mil composições, fundou a primeira sociedade de proteção de direitos autorais do país e foi a primeira maestrina do Brasil. Nada disso foi fácil. Nada disso foi dado. Ela arrancou cada conquista de um sistema que preferia que ela ficasse em casa. Que o nome dela agora apareça justamente na discussão sobre o futuro dos direitos dos criadores é, no mínimo, uma justiça poética. E no máximo, um aviso: os criadores brasileiros já passaram por isso antes. E têm memória longa.
SERVIÇO
ESTANDE UBC — Ativação centrada na Chiquinha, assistente virtual da UBC | Rio2C 2026
ORQUESTRA — Sinfônica Juvenil Chiquinha Gonzaga | 26 de maio · 18h | Cidade das Artes · Rio2C 2026
PAINEL — “O Som do Futuro: IA Quântica, Música e Direitos” | 27 de maio · 11h30 | Palco SoundBeats I
PARTICIPANTES — Fernanda Takai (UBC) · Karina Callai (advogada) · Bia Ambrogi (Apro+Som)
MEDIAÇÃO — Bruna Campos (UBC)

