A 68ª edição do Grammy Awards, realizada neste domingo (1º), reafirmou uma mudança de eixo que vem se desenhando há alguns anos na indústria musical. A principal premiação do setor voltou seus holofotes para artistas que combinam impacto cultural, identidade própria e força autoral, reconhecendo trajetórias que dialogam diretamente com transformações sociais, estéticas e comportamentais em curso no mundo.
O grande vencedor da noite foi Bad Bunny, que levou o prêmio de Álbum do Ano com Debí Tirar Más Fotos e também se destacou em outras categorias. O artista porto-riquenho superou concorrentes de peso como Kendrick Lamar e Sabrina Carpenter, consolidando-se como um dos maiores nomes da música contemporânea.
A cerimônia também celebrou a permanência de artistas consagrados, como Lady Gaga e Billie Eilish, ao mesmo tempo em que abriu espaço para novos talentos e linguagens. O resultado foi um retrato fiel de um mercado mais fragmentado, plural e atento às múltiplas vozes que disputam espaço no cenário global.
Mais do que uma lista de vencedores, o Grammy 2026 apresentou uma fotografia simbólica de uma indústria em transição, onde pop, rap, música latina, eletrônica, rock alternativo e trilhas para audiovisual coexistem como forças centrais.
Bad Bunny e a consolidação da música latina no centro do mundo
A vitória de Debí Tirar Más Fotos como Álbum do Ano representa um marco histórico. O disco, que mistura reggaeton, trap latino, pop e experimentação sonora, foi elogiado pela crítica por seu caráter autobiográfico e pela forma como discute fama, solidão, pertencimento e identidade.

A consagração de Bad Bunny confirma que a música latina deixou de ocupar um espaço periférico para se estabelecer como protagonista da indústria global, sem a necessidade de se adaptar ao inglês ou a padrões estéticos tradicionais do mercado norte-americano.
Autoria, identidade e força criativa como critérios centrais

Kendrick Lamar, indicado e vencedor em categorias relevantes, reafirma seu lugar como um dos principais cronistas sociais da música atual. Lady Gaga, com Mayhem, mostrou mais uma vez sua habilidade de transitar entre o pop de massa e a experimentação estética. Billie Eilish manteve sua presença constante entre os destaques, reforçando a importância da parceria autoral com Finneas O’Connell.
O recado da premiação é claro: artistas que escrevem, produzem e defendem narrativas próprias continuam sendo o eixo da inovação musical.
Mulheres e diversidade no centro da premiação

A forte presença feminina atravessou praticamente todas as categorias principais. Doechii venceu Melhor Canção de Rap com “Anxiety”. FKA Twigs levou Melhor Álbum Eletrônico com Eusexua. Sabrina Carpenter se destacou em performance solo pop. Esses resultados apontam para um cenário em que mulheres não apenas ocupam espaço, mas influenciam diretamente os rumos estéticos da indústria.
Rock, alternativo e música para audiovisual ganham fôlego
O reconhecimento a nomes como Nine Inch Nails, The Cure e Linkin Park evidencia que o rock segue vivo, ainda que fora do centro comercial. Ao mesmo tempo, categorias ligadas a trilhas sonoras, cinema, séries e games demonstram crescimento de relevância, refletindo o papel cada vez maior do audiovisual como motor da indústria musical.
Lista completa de vencedores e indicados do Grammy Awards 2026
Gravação do Ano
“DtMF” – Bad Bunny
“Manchild” – Sabrina Carpenter
“Anxiety” – Doechii
“Wildflower” – Billie Eilish
“Abracadabra” – Lady Gaga
“Luther” – Kendrick Lamar With SZA
“The Subway” – Chappell Roan
“APT.” – Rosé, Bruno Mars
Álbum do Ano
Debí Tirar Más Fotos – Bad Bunny
Swag – Justin Bieber
Man’s Best Friend – Sabrina Carpenter
Let God Sort Em Out – Clipse, Pusha T & Malice
Mayhem – Lady Gaga
GNX – Kendrick Lamar
Mutt – Leon Thomas
Chromakopia – Tyler, the Creator
Música do Ano
“Abracadabra” – Lady Gaga
“Anxiety” – Doechii
“APT.” – Rosé, Bruno Mars
“DtMF” – Bad Bunny
“Golden (From KPop Demon Hunters)” – HUNTR/X
“Luther” – Kendrick Lamar With SZA
“Manchild” – Sabrina Carpenter
“Wildflower” – Billie Eilish
Melhor Artista Novo
Olivia Dean
Katseye
The Marias
Addison Rae
Sombr
Leon Thomas
Alex Warren
Lola Young
Melhor Performance Solo Pop
“Daisies” – Justin Bieber
“Manchild” – Sabrina Carpenter
“Disease” – Lady Gaga
“The Subway” – Chappell Roan
“Messy” – Lola Young
Melhor Performance Pop – Duo/Grupo
“Defying Gravity” – Cynthia Erivo & Ariana Grande
“Golden” – HUNTR/X
“Gabriela” – Katseye
“APT.” – Rosé, Bruno Mars
“30 for 30” – SZA feat. Kendrick Lamar
Melhor Álbum Pop Vocal
Swag – Justin Bieber
Man’s Best Friend – Sabrina Carpenter
Something Beautiful – Miley Cyrus
Mayhem – Lady Gaga
I’ve Tried Everything But Therapy (Part 2) – Teddy Swims
Melhor Álbum Eletrônico
Eusexua – FKA Twigs
Ten Days – Fred Again
Fancy That – PinkPantheress
Inhale / Exhale – Rüfüs Du Sol
F*** U Skrillex You Think Ur Andy Warhol But Ur Not!! <3 – Skrillex
Melhor Performance Rock
“U Should Not Be Doing That” – Amyl and the Sniffers
“The Emptiness Machine” – Linkin Park
“Never Enough” – Turnstile
“Mirtazapine” – Hayley Williams
“Changes (Live From Villa Park)” – Yungblud feat. Nuno Bettencourt
Melhor Canção Rock
“As Alive as You Need Me to Be” – Nine Inch Nails
“Caramel” – Sleep Token
“Glum” – Hayley Williams
“Never Enough” – Turnstile
“Zombie” – Yungblud
Melhor Álbum de Música Alternativa
Sable, Fable – Bon Iver
Songs of a Lost World – The Cure
Don’t Tap the Glass – Tyler, the Creator
Moisturizer – Wet Leg
Ego Death at a Bachelorette Party – Hayley Williams
Melhor Música R&B
“Folded” – Kehlani
“Heart of a Woman” – Summer Walker
“It Depends” – Chris Brown feat. Bryson Tiller
“Overqualified” – Durand Bernarr
“Yes It Is” – Leon Thomas
Melhor Álbum R&B
Beloved – Giveon
Why Not More? – Coco Jones
The Crown – Ledisi
Escape Room – Teyana Taylor
Mutt – Leon Thomas
Melhor Canção de Rap
“Anxiety” – Doechii
“The Birds Don’t Sing” – Clipse, Pusha T & Malice
“Sticky” – Tyler, the Creator feat. GloRilla, Sexyy Red & Lil Wayne
“TGIF” – GloRilla
“TV Off” – Kendrick Lamar feat. Lefty Gunplay
Melhor Álbum de Rap
Let God Sort Em Out – Clipse, Pusha T & Malice
Glorious – GloRilla
God Does Like Ugly – JID
GNX – Kendrick Lamar
Chromakopia – Tyler, the Creator
Melhor Álbum Pop Vocal Tradicional
Wintersongs – Laila Biali
The Gift of Love – Jennifer Hudson
Who Believes in Angels? – Elton John & Brandi Carlile
Harlequin – Lady Gaga
A Matter of Time – Laufey
The Secret Of Life: Partners, Volume 2 – Barbra Streisand
Melhor Canção Country
“Bitin’ List” – Tyler Childers
“Good News” – Shaboozey
“I Never Lie” – Zach Top
“Somewhere Over Laredo” – Lainey Wilson
“A Song to Sing” – Miranda Lambert & Chris Stapleton
Melhor Álbum Country Contemporâneo
Patterns – Kelsea Ballerini
Snipe Hunter – Tyler Childers
Evangeline vs. the Machine – Eric Church
Beautifully Broken – Jelly Roll
Postcards From Texas – Miranda Lambert
Melhor Álbum Folk
What Did the Blackbird Say to the Crow – Rhiannon Giddens & Justin Robinson
Crown of Roses – Patty Griffin
Wild and Clear and Blue – I’m With Her
Foxes in the Snow – Jason Isbell
Under the Powerlines – Jesse Welles
Melhor Álbum de Comédia
Drop Dead Years – Bill Burr
PostMortem – Sarah Silverman
Single Lady – Ali Wong
What Had Happened Was… – Jamie Foxx
Your Friend, Nate Bargatze – Nate Bargatze
Melhor Álbum de Trilha Sonora – Mídia Visual
Como Treinar o Seu Dragão
Ruptura (2ª temporada)
Pecadores
Wicked
Robô Selvagem
Melhor Álbum de Trilha Sonora – Games ou Mídia Interativa
Avatar: Frontiers of Pandora – Secrets of the Spires
Helldivers 2
Indiana Jones and the Great Circle
Star Wars Outlaws: Wild Card & a Pirate’s Fortune
Sword of the Sea – Austin Wintory
Melhor Canção Escrita para Mídia Visual
“As Alive as You Need Me to Be” – Tron: Ares
“Golden” – Guerreiras do K-Pop
“I Lied to You” – Pecadores
“Never Too Late” – Elton John: Never Too Late
“Pale, Pale Moon” – Pecadores
“Sinners” – Pecadores
Melhor Videoclipe
“Young Lion” – Sade
“Manchild” – Sabrina Carpenter
“So Be It” – Clipse
“Anxiety” – Doechii
“Love” – OK Go
Melhor Filme de Música
Devo – Devo
Live at the Royal Albert Hall – Raye
Relentless – Diane Warren
Music by John Williams – John Williams
Piece by Piece – Pharrell Williams
O que o Grammy 2026 deixa como legado
A edição de 2026 não eliminou as contradições históricas da premiação, mas sinalizou um deslocamento importante. A música global caminha para um território onde diversidade, autoria e identidade não são mais exceções, mas critérios centrais.
Resta saber se a indústria acompanhará essa mudança de forma estrutural ou se tentará transformá-la apenas em tendência passageira.
O público, cada vez mais atento, já demonstra que não aceita menos do que verdade, representatividade e voz própria.

