Parceria com a Conspiração vai realizar sonho de mais de 20 anos do ator e diretor que trata de saúde mental na sua obra

Selton Mello anunciou recentemente a parceria com a Conspiração Filmes na produção de O Alienista para o cinema. O ator vai dirigir e protagonizar o clássico de Machado de Assis. Selton já acalenta esse desejo há 20 anos:

Levar ‘O Alienista’ para as telas é um sonho de mais de vinte anos. Quem é maluco? Qual o limite tênue entre razão e insanidade? Uma alegria enorme, ao lado da Conspiração e parceiros que anunciaremos em breve, trabalhar com este material tão clássico quanto atual. Machado de Assis é nosso mestre absoluto da literatura e chegou a hora de oferecer esta história estupenda ao grande público.

Sobre o Alienista

A narrativa se passa na cidade de Itaguaí e acompanha Simão Bacamarte, um médico respeitado que decide dedicar-se ao estudo da mente humana. Para isso, funda a Casa Verde, um hospício destinado a tratar pessoas consideradas loucas.

Inicialmente, Bacamarte interna apenas indivíduos com comportamentos claramente estranhos. Com o tempo, porém, seus critérios tornam-se cada vez mais amplos e rígidos, levando à internação de cidadãos comuns, influentes e até moralmente exemplares. A população se revolta, ocorrem conflitos políticos e mudanças de poder, mas o médico mantém sua autoridade, amparado pelo prestígio da ciência.

Em determinado momento, Bacamarte revê suas teorias e conclui que os verdadeiramente desequilibrados são aqueles excessivamente virtuosos e racionais. Liberta os antigos internos e passa a prender os considerados “perfeitamente normais”. Ao final, julgando-se o único caso de equilíbrio absoluto e racionalidade extrema, decide internar a si mesmo na Casa Verde, onde acaba morrendo.

Alienista, Selton Mello e Saúde Mental

O conto dialoga fortemente com o mundo contemporâneo ao falar de temas de saúde mental e mostrar como o discurso científico e técnico, quando tratado como verdade absoluta, pode justificar abusos de poder. Assim surgem as fake news científicas e os cancelamentos de quem defende a Ciência. Basta lembrar da vacina da Covid, por exemplo.

A obra também antecipa debates atuais sobre normalidade, revelando como esse conceito é instável e pode mudar conforme os interesses de quem detém autoridade. Inclusive porque na busca pela suposta normalidade é fácil cair na normose:  é um conceito filosófico e psicológico que descreve a “doença da normalidade”, onde padrões de comportamento, pensamentos e hábitos socialmente aceitos se tornam patogênicos, prejudicando a individualidade, a saúde mental e a qualidade de vida, levando à infelicidade e à adaptação excessiva a um sistema doentio.

É a identificação de que aquilo que “todo mundo faz” ou é considerado “normal” pode, na verdade, ser prejudicial, levando à perda de sentido e à estagnação humana, como a alienação ou a conformidade com a desumanidade e a corrupção, segundo pensadores como Pierre Weil.  Conforme o conceito de normose fica explícito, por exemplo, a escolha por deixar de lado a neurodivergência, afinal ser normal não rima com ser uma pessoa atípica será?

A escolha de Selton pelo tema não surpreende, afinal ele já declarou inúmeras vezes a importância que o processo de autoconhecimento por meio da terapia e psicanálise tem na sua vida ao buscar pela sua saúde mental. Além disso, é produtor e diretor da série Sessão de Terapia em que protagonizou as 2 ultimas temporadas, a 4a e a 5a e a sexta já foi gravada.

Elenco da 4a temporada de Sessão de Terapia. Divulgação Globoplay

E também não é novidade que o interesse dele em levar esse projeto adiante, além da experiência pessoal mostra a percepção sagaz da necessidade de debatermos os temas de saúde mental. Segundo informações doG1, dados do Minisitério da Previdencia Social em 2024 foram quase meio milhão de afastamentos, o maior desde 2014.
O projeto do filme dialoga com questões contemporâneas urgentes. Vivemos uma era d foram aqe diagnósticos rápidos, rótulos fáceis e uma medicalização crescente da vida. Quem define o que é normal? Quem tem o poder de nomear o desvio? O filme não precisa atualizar o texto de Machado para torná-lo atual — basta ser fiel ao seu espírito crítico.

Mais do que uma adaptação, o projeto de O Alienista promete ser um convite ao desconforto. E, em tempos de respostas prontas e discursos polarizados, talvez o maior mérito da obra seja justamente esse: nos fazer duvidar das nossas próprias certezas.

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Joana D’arc Souza é jornalista, escritora, ghostwriter e revisora. Une técnica e sensibilidade para transformar ideias em textos que tocam, inspiram e despertam reflexão. Apaixonada por cultura, especialmente livros e pela força das palavras, acredita que a leitura e escrita são formas de autoconhecimento e de conexão com o outro. Seu objetivo é que cada texto seja um convite a sentir, pensar e se expressar com verdade. Instagram: @ajoanadarcsouza

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