Longa de Kleber Mendonça Filho leva multidões para refletir sobre o silenciamento da memória nacional 

O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, ultrapassou a marca de 1 milhão de espectadores e se consolidou como a maior bilheteria do cinema brasileiro em 2025. O dado, por si só, já seria relevante. Mas o que torna esse feito verdadeiramente significativo é o tipo de filme que estamos falando: uma narrativa não-linear, nada óbvia, com diversas “partes faltando”, densa, política, e inquietante.

Esse sucesso de público e crítica não se explica por campanhas apelativas ou por concessões narrativas. Ele nasce da confiança do espectador em um cinema que respeita sua inteligência. Kleber Mendonça Filho construiu, ao longo de sua filmografia, uma relação de credibilidade com o público: quem entra em seus filmes sabe que não encontrará respostas prontas. Além claro da atuação do elenco capitaneada por Wagner Moura, que dispensa maiores apresentações e comentários.

A trama de Agente Secreto opera na lógica da tensão constante. Não há explosões, perseguições espetaculares ou vilões caricatos o tempo todo. Não é um filme de ação no estilo americano. Ao contrário, a maior cena de perseguição se dá na metade final e mesmo assim de forma contextualizada e tensa, aliás tensão é o que não falta naquela sequência.

Mas não é aquela construída em narrativas pasteurizadas que dão a sensação de “agora o que vai acontecer com determinado personagem” ou “quem vai morrer agora” é sutil.

Vai para a direção de “o que houve antes? “ será que a personagem X é aliada do protagonista ou vai traí-lo?”

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A não-linearidade do enredo ajuda na construção desse medo. O medo é construído no detalhe: nos corredores, nos silêncios prolongados, nas conversas interrompidas. É um filme que fala de vigilância, controle e paranoia institucional sem precisar explicitar tudo. O espectador sente antes de compreender.

Afinal nem tudo é revelado e isso fica muito claro. Saí do cinema com mais perguntas do que respostas sobre a história e talvez seja esse o grande mérito do filme: Não contar toda a história exatamente como uma forma de promover reflexão sobre o que de fato sabemos e o que ignoramos. E como isso tudo compõe a nossa memória nacional muitas vezes deturpada. 

A atuação de Wagner Moura como o filho adulto, mostra exatamente isso. E cá entre nós estar num banco de sangue, local onde se preserva a vida, onde outrora era um cinema onde muitas coisas aconteceram é uma grande metáfora de como precisamos estar atentos.

Talvez seja justamente aí que reside o segredo do sucesso. Em um tempo de excesso de informação e de narrativas ruidosas, O Agente Secreto aposta na contenção. 

Não sabemos nada detalhado sobre o passado das personagens, de nenhum dos vizinhos, inclusive do protagonista, sabemos o que precisamos e isso inquieta muito a quem está acostumado com flashbacks e contextualizações completas. 

O que houve com a esposa de Marcelo? Cada espectador talvez tenha seu próprio palpite, mas o que dá para suspeitar é que pode não ter sido doença… Kleber Mendonça confia que o público é capaz de ler entrelinhas, de sustentar o desconforto e de permanecer atento. Aliás, isso também está presente com força em Bacurau, cá entre nós.

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O Agente Secreto levar mais de um milhão de pessoas ao cinema depois de Ainda Estou Aqui em que ambos têm o mesmo pano de fundo: a Ditadura Militar é significativo. As abordagens são claramente diferentes, mas com elementos em comum, tais como: a tensão, a contenção das emoções (você viu Marcelo ter algum rompante? Eunice então se conteve o tempo todo) diz muito não apenas sobre um amadurecimento do público brasileiro, mas também que estamos formando público interessado por obras que dialogam com nossa história recente, nossas feridas políticas e estruturas de poder. 

O cinema, nesse sentido, deixa de ser apenas entretenimento e se torna espaço de reflexão coletiva e de formação de plateia qualificada. Considerando que ainda temos muito a avançar na Educação e política cultural isso é extremamente relevante.

Ter sido a maior bilheteria em 2025 não significa apenas vencer em números. Significa abrir caminho e mostrar que há espaço e desejo por um cinema autoral, crítico e comprometido com o presente. O Agente Secreto não conquistou sucesso por ser fácil, pois definitivamente não é; venceu por ser necessário.

E talvez essa seja sua maior conquista: provar que o cinema brasileiro, quando confia em sua própria voz, não apenas encontra público: ele cria memória.

Brasil protagonista do Cinema Mundial: O Agente Secreto vence Globo de Ouro, é forte candidato ao Oscar e Rio recebe The Golden Globe Tribute Awards em março.

Premiações de Ainda Estou Aqui abriram caminho para: Agente Secreto, Amarela, Apocalipse nos Trópicos e Yanuni projetarem o cinema brasileiro no Oscar

O Agente Secreto está na lista de pré-indicados ao Oscar nas categorias de Melhor Filme Internacional, Melhor Filme e Melhor ator para Wagner Moura além de Melhor Elenco, categoria inédita em 2026. Ou seja, pode ser um dos filmes a receber a indicação para a nova estatueta que premia o Diretor de Elenco e trazer o prêmio mais que merecido, pois o elenco traz atuações intensas, para dizer o mínimo.

E não para por aí! O longa venceu o Globo de Ouro em duas das 3 categorias a que concorreu: : Melhor Filme em Língua Não-Inglesa, recebido pelo diretor  Kleber Mendonça Filho e Melhor Ator em Filme de Drama para Wagner Moura, pela primeira vez para o nosso cinema . Apesar de não ter ganho como Melhor Filme de Drama, a indicação nesta categoria já é uma grande conquista: foi a primeira do cinema nacional.

Imagem: Divulgação
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O Agente Secreto que está seguindo os mesmos passos e sendo aclamado pela crítica nacional e internacional. Depois do sucesso internacional de Ainda Estou Aqui que nos trouxe o Globo de Ouro de Melhor Atriz de Drama com Fernanda Torres e o Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025 celebramos a renovação do brilho do nosso cinema.

Além das recentes produções que também estão na lista de Pré-indicados ao Oscar:  Os documentários “Apocalipse nos Trópicos” de Petra Costa, “ Yanuni” de Richard Ladkani, o curta” Amarela” de André Hayato Saito, e Adolpho Veloso como diretor de fotografia de Sonhos de Trem

Não à toa o Globo de Ouro anunciou o evento The Golden Globe Tribute Awards para 18 de março de 2026 no Copacabana Palace para premiar destaques da cultura nacional em evento de gala exclusivo para 350 pessoas. O que significa colocar o Brasil no mapa do Cinema mundial com destaque. Obviamente que já estávamos desde Central do Brasil, porém agora temos um destaque merecido e inédito .

Os Operários & O Agente Secreto

O cartaz internacional de O Agente Secreto é inspirado na obra Os Operários, de Tarsila do Amaral. A escolha não é apenas estética — é profundamente simbólica. 

Os Operários é uma pintura que fala de coletividade, anonimato e força silenciosa. Rostos justapostos, quase sem individualidade, formam um corpo social denso, marcado pelo trabalho, cansaço e desesperança visível nas expressões dos rostos . 

Enquanto Tarsila traz o cansaço e a desesperança da exploração da classe operária, a releitura no cartaz de O Agente Secreto mostra os personagens com olhar perdido como se buscassem uma fagulha de esperança, uma solução para o que eles veem e sentem, mas não podem externar.  

Quaisquer semelhanças com a ideia de que no filme o indivíduo está dentro de estruturas maiores, muitas vezes invisíveis, mas profundamente opressoras não é coincidência com o original de Tarsila.

Essa dimensão simbólica ganha ainda mais força no contexto internacional. O Agente Secreto figura atualmente entre os pré-indicados ao Oscar, em um momento histórico particularmente significativo para o Brasil. O Globo de Ouro anuncia evento no Rio de Janeiro e o cinema brasileiro ainda vive o impacto de termos sido recentemente premiados com o Oscar de Melhor Filme Internacional

Nada disso acontece por acaso. Há um movimento claro de reconhecimento do cinema brasileiro como um cinema autoral, político e esteticamente sofisticado. Filmes como O Agente Secreto não tentam imitar modelos estrangeiros; eles exportam uma linguagem própria, enraizada em nossa história, em nossa arte e em nossas contradições.

O cartaz inspirado em Tarsila funciona, portanto, como uma declaração de princípios. Ele diz: este filme nasce no Brasil, dialoga com sua tradição artística e pensa o mundo a partir daqui. Em vez de diluir sua identidade para alcançar reconhecimento externo, ele faz o oposto — radicaliza sua brasilidade.

O Agente Secreto se insere nesse momento histórico com precisão. Um filme que olha para dentro, sem medo de incomodar, e que, justamente por isso, encontra eco fora. Quando arte, política e memória caminham juntas, o resultado não é apenas reconhecimento — é permanência.

A pré-indicação ao Oscar não deve ser vista apenas como uma possível conquista individual, mas como parte de um ciclo mais amplo. Um ciclo em que o Brasil volta a ocupar espaço central no debate cinematográfico internacional, não como exceção exótica, mas como potência criativa.

A lista de indicados ao Oscar 26 sai em 23 de janeiro e O Agente Secreto é uma forte aposta!

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Joana D’arc Souza é jornalista, escritora, ghostwriter e revisora. Une técnica e sensibilidade para transformar ideias em textos que tocam, inspiram e despertam reflexão. Apaixonada por cultura, especialmente livros e pela força das palavras, acredita que a leitura e escrita são formas de autoconhecimento e de conexão com o outro. Seu objetivo é que cada texto seja um convite a sentir, pensar e se expressar com verdade. Instagram: @ajoanadarcsouza

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