Por Silver D’Madriaga Marraz

No final de dezembro de 2025, um comercial da Havaianas, estrelado por Fernanda Torres, fez algo que a publicidade sempre fez: usou uma expressão popular, brincou com linguagem, apostou em leveza e tentou dialogar com o espírito de virada de ano. A campanha sugeria começar o novo ano não apenas “com o pé direito”, mas com os dois pés — na vida, nas escolhas, na estrada. Uma metáfora simples, cotidiana, quase banal. Ainda assim, o Brasil mostrou que até o banal pode se transformar em campo de batalha.

O que era uma peça publicitária virou, em poucas horas, um episódio típico da guerra cultural contemporânea. Grupos políticos e influenciadores alinhados à direita interpretaram a fala como um ataque ideológico. Um ex-deputado gravou vídeo jogando sandálias no lixo, outro declarou que “nem todo mundo agora vai usar Havaianas”. A reação não foi de discordância ponderada, mas de indignação performática. A lógica foi imediata: se desagrada, é ataque; se não me representa, é inimigo.

Esse episódio não diz muito sobre a Havaianas, mas diz muito sobre nós. Revela uma sociedade exausta, hipersensível, permanentemente armada para o confronto simbólico. Tudo passou a ser lido por um filtro estreito, no qual qualquer palavra, gesto ou metáfora precisa ser enquadrado como “de direita” ou “de esquerda”. Não há espaço para ambiguidade, ironia, contexto ou acaso. Há apenas a necessidade urgente de reagir.

O primeiro ponto que merece reflexão é essa associação automática entre cultura e militância. Vivemos um tempo em que parece impossível conceber uma manifestação cultural que não esteja a serviço de uma agenda política explícita. A publicidade, a arte, o humor e até expressões idiomáticas passam a ser tratadas como códigos secretos de guerra ideológica. Essa leitura revela menos sobre o objeto analisado e mais sobre o estado emocional de quem interpreta. É o sintoma de uma sociedade que desaprendeu a escutar e a interpretar.

O segundo ponto é a completa perda de proporção. A frase do comercial não citava partidos, governos, ideologias ou projetos de poder. Era uma metáfora motivacional, dessas que sempre povoaram campanhas de fim de ano. Ainda assim, foi tratada como manifesto político. Quando tudo vira ataque, nada mais pode ser debate. O exagero passa a substituir o argumento, e a indignação vira método.

O terceiro ponto, talvez o mais grave, são as consequências concretas desse comportamento. O boicote virou movimento, o movimento virou ruído, e o ruído teve impacto real, inclusive financeiro, com queda no valor de mercado da empresa. Não porque houve crime, discurso de ódio ou violação ética, mas porque uma leitura radicalizada decidiu que era preciso punir simbolicamente uma marca. É o consumo transformado em arma política, não por consciência, mas por impulso.

Não se trata aqui de defender uma empresa ou relativizar críticas legítimas ao mercado. A questão é mais profunda. Trata-se de perceber como a polarização extrema vai colonizando todas as esferas da vida social, inclusive as mais triviais. Se um comercial de chinelos vira motivo de guerra cultural, o que sobra para as conversas no trabalho, para os vínculos familiares, para o convívio cotidiano entre pessoas que pensam diferente?

Há ainda um elemento perturbador: a forma como lideranças políticas se alimentam dessa lógica e a incentivam. Ao transformar qualquer gesto cultural em prova de fidelidade ideológica, essas lideranças estreitam o campo do pensamento e reforçam uma visão de mundo baseada no confronto permanente. O resultado é uma sociedade dividida não apenas por ideias, mas por símbolos banais, marcas, palavras e até objetos do dia a dia.

Esse fenômeno revela uma incapacidade crescente de lidar com nuances. Tudo se reduz a “nós contra eles”. Não há meio-termo, dúvida, reflexão ou escuta. O outro deixa de ser alguém com quem se dialoga e passa a ser alguém que se combate. Essa lógica empobrece o debate público, enfraquece a democracia e transforma diferenças legítimas em hostilidades constantes.

Mas esse episódio também pode ser pedagógico. Ele nos convida à autorreflexão. A política precisa ser, necessariamente, um território de agressividade contínua? Ou pode ser um espaço de divergência civilizada, onde nem tudo precisa virar afronta? O cidadão comum precisa reagir a tudo com fúria e boicote, ou pode escolher a leitura crítica, o distanciamento e o bom senso?

Talvez o maior aprendizado esteja em reaprender a separar as coisas. Nem todo gesto cultural é político. Nem toda metáfora é provocação. Nem toda discordância é ataque. Recuperar essa distinção é um exercício de maturidade social. É admitir que a vida é mais complexa do que os rótulos que tentamos impor a ela.

O limite da ignorância, portanto, não é fixo nem abstrato. Ele se expande quando abrimos mão da reflexão e se retrai quando escolhemos pensar antes de reagir. Quando priorizamos a convivência em vez da hostilidade. Quando entendemos que o mundo não cabe inteiro na dicotomia simplista de “direita” e “esquerda”.

No fim, não está em jogo um comercial, uma marca ou um par de sandálias. O que está em jogo é a nossa capacidade de viver em sociedade sem transformar tudo em trincheira, de discordar sem destruir e de interpretar o mundo com mais inteligência emocional e menos fúria ideológica. Se isso se perder, nenhuma campanha publicitária será capaz de disfarçar as marcas que deixaremos uns nos outros. É preciso usar a inteligência e não se deixar manipular por quem não estudou figuras de linguagem na escola. As metáforas são perigosas e requerem uso irrestrito da inteligência. Cuidado é necessário, porque se a ignorância avançar, daqui a pouco, falar “vire à direita”, “vire à esquerda”, ou “não vire à direita”, ou “não vire à esquerda” será também polarização.

Compartilhar.
Deixe Uma Resposta

Português do Brasil
Exit mobile version