Na virada para 2026, o Maracanã recebeu um evento inédito no Rio de Janeiro: um réveillon gospel gratuito, com ingressos esgotados e supostamente público estimado em 50 mil pessoas. No palco, alguns dos maiores nomes da música gospel nacional, como Aline Barros, Fernandinho, Maria Marçal, Luciano Camargo e Davi Sacer. Na condução da noite, o apresentador Yudi Tamashiro. A festa, chamada MaraVIRA, foi apresentada como um encontro de fé, esperança, união e renovação espiritual, com proposta declaradamente familiar e inclusiva.
Quando o evento cultural revela um problema político
O que poderia ser apenas mais um grande evento cultural da cidade se transformou, no entanto, em um episódio revelador de um problema político central que atravessa o Estado brasileiro contemporâneo: o uso sistemático de recursos públicos para financiar agendas religiosas específicas, por meio de entidades privadas, sem concorrência pública, sem transparência proporcional ao volume de dinheiro envolvido e sem o devido debate democrático.
Os dados oficiais e o financiamento público
Os dados são objetivos. Segundo publicação no Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro, em 17 de dezembro de 2025, a realização do evento foi viabilizada por meio de inexigibilidade de licitação. O valor destinado foi de 7 milhões de reais. A empresa responsável é o Instituto Assistencial Atitude, associação privada presidida por Josué Valandro de Oliveira Junior, pastor da Igreja Batista Atitude, uma das principais lideranças religiosas evangélicas do Rio.
A entidade responsável e suas atividades
O Instituto Assistencial Atitude possui CNPJ ativo desde 2016 e tem como atividade principal registrada na Receita Federal a educação infantil ao nível de pré-escola. Entre as atividades secundárias constam assistência social, comércio varejista, atividades culturais e produção de eventos esportivos. Ainda que o escopo jurídico permita múltiplas frentes de atuação, o que se impõe é a análise política do modelo adotado: uma entidade privada, ligada diretamente a uma liderança religiosa, recebe milhões de reais do Estado para realizar um evento de caráter confessional em um equipamento público simbólico e estratégico como o Maracanã.
Estado laico e uso de recursos públicos
Não se trata de criminalizar a fé, nem de atacar manifestações religiosas. A liberdade de crença é um direito constitucional. O ponto central é outro e é político. O Estado brasileiro é laico. Isso significa que recursos públicos não devem ser direcionados para favorecer uma religião específica, seus líderes ou suas estruturas institucionais, ainda que sob o discurso de cultura, assistência social ou entretenimento.
A engrenagem política por trás do financiamento
O financiamento estatal desse tipo de evento revela uma engrenagem conhecida. A aproximação entre governos e lideranças religiosas, especialmente de segmentos evangélicos, tem sido uma estratégia política recorrente nos últimos anos. Dados do Tribunal Superior Eleitoral mostram o crescimento exponencial de candidaturas e mandatos vinculados a igrejas. No Congresso Nacional, a bancada evangélica já ultrapassa 200 parlamentares. No Executivo, secretarias e cargos estratégicos passaram a ser ocupados por quadros alinhados a essa agenda.
Alianças, licitações e silenciamento do debate
Esse arranjo produz efeitos diretos. Recursos públicos são alocados com base em alianças políticas e eleitorais, não em critérios republicanos. A inexigibilidade de licitação, instrumento legal previsto para casos específicos, torna-se regra quando o objetivo é atender aliados estratégicos. A fiscalização se fragiliza. O debate público é silenciado sob o argumento de que qualquer crítica seria intolerância religiosa.
A contradição entre discurso e prática
A fala de Luciano Camargo, uma das atrações do evento, ao afirmar que não cobra cachê para cantar em igrejas ou encontros religiosos, reforça a contradição estrutural do caso. Ainda que o artista adote uma postura pessoal de não remuneração, o evento como um todo mobilizou uma engrenagem milionária, financiada com dinheiro público. O discurso da gratuidade espiritual convive, sem constrangimento, com contratos vultosos pagos pelo Estado a uma entidade privada ligada a uma igreja.
O problema central
O problema central não é o show, nem os artistas, nem o público que lotou o Maracanã. O problema é a naturalização da transferência de patrimônio público para projetos que fortalecem grupos religiosos específicos, ampliam seu capital político e simbólico e aprofundam a confusão deliberada entre fé, poder e Estado.
As revelações e o contexto eleitoral
Essas informações vieram a público a partir de publicações feitas no perfil do ex-governador Anthony Garotinho, que tem utilizado suas redes para expor dados oficiais, documentos administrativos e registros do Diário Oficial, apontando falhas estruturais da política do Estado do Rio de Janeiro. Ao trazer à luz do conhecimento público valores, contratos e mecanismos de contratação, Garotinho revela a engrenagem que opera longe do discurso público e ajuda a iluminar a realidade que se constrói nos bastidores do ano eleitoral de 2026, marcado pela disputa de poder, pela instrumentalização da máquina pública e pela consolidação de alianças políticas sustentadas com recursos do próprio Estado.
Escolhas orçamentárias e prioridades
Enquanto áreas essenciais como saúde, educação básica, ciência e políticas sociais enfrentam cortes, contingenciamentos e precarização, milhões são destinados a eventos que funcionam, na prática, como vitrines de poder religioso e eleitoral. Não há neutralidade nesse processo. Há escolha política. Há projeto. Há método.
A captura gradual do Estado
A captura do Estado por interesses religiosos não ocorre de forma abrupta. Ela se dá em atos administrativos, em contratos pouco debatidos, em decisões aparentemente técnicas, em eventos festivos que diluem o debate crítico sob aplausos e louvores. O custo dessa escolha recai sobre toda a sociedade, inclusive sobre quem não compartilha da mesma fé.
Sintoma de um modelo de gestão
O réveillon gospel no Maracanã não é um fato isolado. Ele é sintoma de um modelo de gestão pública que confunde laicidade com conveniência política, cultura com proselitismo e interesse público com barganha eleitoral. Um modelo que se sustenta porque encontra respaldo institucional, silêncio cúmplice e normalização social.
Estado laico, democracia e responsabilidade
A defesa do Estado laico não é uma pauta abstrata. É uma defesa concreta do uso responsável do dinheiro público, da igualdade de direitos e da preservação da democracia. Quando o poder público escolhe financiar a fé de alguns, ele abandona o dever de servir a todos. Esse não é um debate sobre crença. É sobre poder, orçamento e responsabilidade política.
Ausência de registros e transparência
Até o momento, não há qualquer registro público consistente sobre a realização do evento que permita aferir sua dimensão real, impacto ou execução. Não existem matérias jornalísticas, reportagens, notas oficiais, galerias de imagens ou dados publicados por veículos de comunicação que informem quantitativo de público, dinâmica da programação, fatos ocorridos durante a celebração ou qualquer outro elemento básico de cobertura noticiosa, senão uma breve nota no RJTV. O silêncio da imprensa e a ausência de registros verificáveis contrastam com a magnitude anunciada do evento e reforçam a falta de transparência em torno de uma iniciativa financiada com recursos públicos, que, por sua natureza, deveria estar amplamente documentada, acessível à sociedade e sujeita ao escrutínio público.
Nos dias seguintes ao evento, comentários publicados no perfil oficial do MaraVIRA no Instagram passaram a tensionar ainda mais a narrativa apresentada pelos organizadores. Pessoas que afirmam ter participado da celebração relataram, de forma recorrente, que o Maracanã esteve longe de atingir a lotação anunciada e que amplos setores do estádio permaneceram vazios ao longo da noite. Essas percepções individuais encontram eco em imagens divulgadas pelos próprios organizadores e por frequentadores, nas quais é possível observar áreas inteiras sem público e uma ocupação visivelmente inferior à estimativa de 50 mil pessoas. Embora não haja, até o momento, dados oficiais ou auditoria independente sobre o número real de presentes, o contraste entre o discurso institucional e os registros visuais e testemunhais reforça as dúvidas sobre a transparência do evento e sobre a veracidade das informações utilizadas para justificar o investimento de recursos públicos.
