Advogada, empresária, mãe e Rainha de Bateria, Sávia David representa uma geração de mulheres que não aceita rótulos e está redefinindo o significado de sucesso no Brasil.
Por Antônio Assumpção
Existe uma pergunta que Sávia David já ouviu mais vezes do que consegue contar. Ela chega em variações diferentes, numa entrevista de negócios, numa conversa de corredor de evento, às vezes até numa mensagem bem-intencionada de alguém que a admira. A pergunta, na essência, é sempre a mesma: como você consegue fazer tudo isso ao mesmo tempo?
Ela sorri antes de responder. Não porque a pergunta seja ingênua — é legítima, e ela sabe disso. Mas porque a pergunta, sem querer, revela um pressuposto que ainda não foi completamente desativado: o de que uma mulher que ocupa muitos espaços está, necessariamente, dividida entre eles.
Sávia não se sente dividida. Se sente inteira.
Advogada formada, bacharel em Educação Física, empresária à frente da Rede Lofts Copacabana — especializada em hospedagem short stay no Rio de Janeiro —, mãe e Rainha de Bateria da escola de samba Estrela do Terceiro Milênio. A lista pode parecer, à primeira vista, uma coleção de identidades que não combinam. No Brasil do século 21, ela é, na verdade, um retrato de como a liderança feminina funciona quando não aceita os limites que alguém tentou definir de fora.
“Empreender é entender pessoas antes de entender números”, ela diz, e a frase tem o peso de quem não a aprendeu num curso de MBA. Aprendeu na prática — nas negociações com proprietários de imóveis no Rio, nas conversas com hóspedes que chegam de São Paulo, de Buenos Aires, de Lisboa, procurando algo mais do que um quarto de hotel. Procurando uma experiência que pareça carioca de verdade.
O negócio que nasceu de uma percepção
A Rede Lofts Copacabana não surgiu de um plano de negócios impecável desenhado numa sala de escritório climatizado. Surgiu de algo mais simples e mais preciso: a percepção de que o mercado de hospedagem estava mudando antes que a maioria percebesse.
A economia do compartilhamento — com plataformas como Airbnb e Booking transformando o comportamento do turista urbano — criou um espaço que hotéis tradicionais não conseguiam preencher e que imóveis residenciais convencionais não estavam estruturados para atender. Sávia enxergou esse espaço e construiu dentro dele.
Os números do setor dão substância à intuição: segundo dados da Associação Brasileira das Locadoras de Temporada (ABLA), o mercado de hospedagem por temporada no Brasil cresceu de forma consistente ao longo dos últimos anos, impulsionado pelo aumento do turismo doméstico e pela preferência de viajantes por experiências mais personalizadas. No Rio de Janeiro, destino que recebe milhões de visitantes anualmente — número que o Instituto Pereira Passos, órgão de pesquisa da Prefeitura, monitora continuamente —, o segmento de short stay consolidou-se como alternativa competitiva à hotelaria convencional.
A expansão para São Paulo, que a Rede Lofts Copacabana inicia agora, é o movimento natural de uma marca que entendeu seu modelo antes de tentar escalar. Não é aposta. É sequência lógica.
Carnaval: a plataforma que o mercado subestimou
Existe um equívoco recorrente sobre o Carnaval brasileiro que as pessoas de negócios demoram para corrigir — e que quem cresceu no universo do samba nunca precisou aprender, porque sempre soube: o Carnaval não é apenas festa. É mídia. É narrativa. É uma das plataformas de comunicação orgânica mais poderosas que o Brasil já produziu.
“O Carnaval é uma das maiores plataformas de propaganda humana que existem. Ele conecta emoção, imagem e memória”, ela diz. E completa, com a precisão de quem pensa estrategicamente sobre presença pública: “Visibilidade sem propósito vira apenas exposição. Quando existe propósito, a imagem vira posicionamento.”
O impacto econômico direto do Carnaval carioca, segundo estimativas da Riotur — Empresa de Turismo do Município do Rio de Janeiro —, movimenta bilhões de reais na economia da cidade, com reflexos em hotelaria, gastronomia, transporte, produção cultural e geração de empregos. O desfile das escolas de samba do Grupo Especial é transmitido por emissoras de televisão abertas e pagas, alcança audiência em múltiplos países e gera cobertura jornalística que nenhum budget de marketing convencional consegue comprar.
Sávia entende isso com uma clareza que vai além do instinto.
Essa distinção — entre exposição e posicionamento — é o coração do que ela construiu. A Rainha de Bateria que desfila na Avenida não está apenas representando a escola. Está construindo autoridade pública. Está associando sua imagem a uma instituição cultural com décadas de história. Está comunicando, para um público que vai muito além dos sambódromos, uma identidade que combina presença, propósito e pertencimento cultural.
Para uma empresária do setor de hospitalidade no Rio de Janeiro, não existe maneira mais carioca — nem mais estratégica — de dizer quem você é.
O que a múltipla identidade ensina sobre liderança
A combinação de trajetórias que Sávia acumula — o direito, a educação física, o mercado imobiliário, a maternidade, o samba — não é exibicionismo. É competência acumulada em territórios que parecem distantes mas se comunicam o tempo todo.
A formação em Educação Física ensina sobre corpo, sobre disciplina, sobre a relação entre preparo e resultado — lições que qualquer empreendedora que passou por uma crise de gestão reconhece imediatamente. O direito ensina a ler contratos, a entender obrigações, a navegar o labirinto regulatório que qualquer negócio imobiliário precisa atravessar. A maternidade — que o mercado insiste em tratar como variável de risco na carreira feminina — desenvolve uma capacidade de gestão de prioridades e de tomada de decisão sob pressão que nenhuma pós-graduação ensina com a mesma eficiência.
E o Carnaval? O Carnaval ensina sobre equipe. Ensina sobre a diferença entre o ensaio e o palco. Ensina que resultado coletivo depende de cada pessoa entregando o que prometeu no momento certo.
“A mulher do século 21 não quer escolher entre ser forte ou feminina. Ela aprendeu a ser os dois“, diz Sávia. A frase resume algo que o debate sobre liderança feminina ainda está tentando formalizar — e que mulheres como ela já praticam sem precisar nomeá-lo.
O contexto que importa entender
A trajetória de Sávia David não acontece no vácuo. Ela emerge num cenário em que o empreendedorismo feminino brasileiro vive uma expansão documentada — mas ainda enfrenta assimetrias estruturais que não desaparecem com o discurso do empoderamento.
Segundo dados do Sebrae e da FGV, as mulheres representam hoje mais de 34% dos empreendedores brasileiros — uma parcela que cresceu significativamente na última década, especialmente no microempreendedorismo individual. Mas a proporção cai conforme sobe o porte da empresa: nas empresas de médio e grande porte, a representação feminina na liderança ainda está muito abaixo do que os números gerais de empreendedorismo sugeririam.
Isso significa que a trajetória de uma mulher que constrói uma rede de imóveis para hospedagem com expansão para dois estados — e que faz isso enquanto exerce presença pública em uma das maiores plataformas culturais do país — ainda é excepcionalmente incomum. E é exatamente por isso que ela importa como referência.
Não como modelo a ser replicado em seus detalhes específicos — cada trajetória tem sua própria lógica. Mas como prova de que o teto que limita o crescimento de mulheres empreendedoras no Brasil não é de concreto. É de percepção. E percepções mudam quando há exemplos suficientes para desafiá-las.
O que ela ainda quer construir
Quando se pergunta a Sávia sobre o futuro — o da Rede Lofts, o do Carnaval, o dela mesma como personagem pública —, ela responde com uma honestidade que não performa modéstia nem simula ambição sem substância.
Ela quer crescer. Com critério. No ritmo que o negócio comporta.
A expansão para São Paulo é um passo calculado, não um salto de fé. O mercado paulistano tem perfil diferente do carioca — turismo de negócios, temporadas mais curtas, público que chega pelo aeroporto e precisa de localização antes de precisar de charme. Adaptar o modelo ao novo contexto exige atenção ao que funciona e ao que precisa ser repensado.
“Toda mulher que conquista independência inspira outras mulheres a acreditarem que também conseguem”, ela diz — e a frase, que poderia soar como bordão motivacional, soa diferente quando vem de alguém que está, de fato, construindo independência em tempo real. Não apenas como discurso. Como obra.
O que fica
Histórias como a de Sávia David importam ao jornalismo não porque são perfeitas — nenhuma trajetória real é —, mas porque são concretas. Têm endereço, têm CNPJ, têm contrato de locação assinado, têm data de desfile, têm filhos que crescem enquanto a mãe trabalha.
O empreendedorismo feminino não é mais tendência de artigo de revista. É realidade de mercado. É estrutura econômica. É, também, uma transformação cultural que está mudando o que o Brasil entende por liderança, por presença, por autoridade.
E talvez a maior mudança seja essa: a mulher que não espera mais que o espaço seja aberto para ela. Que abre o espaço. E convida outras para entrar.
