Com o Desenrola 2.0, o governo federal abre uma janela de oportunidade para milhões de brasileiros endividados. Mas especialistas alertam: renegociar é só o começo. Entender como o dinheiro funciona é o que muda o destino financeiro de uma família
Por Maria Antônia Perez
O Brasil tem um problema com dívidas. Não é segredo, não é novidade, mas os números continuam sendo capazes de causar impacto: segundo dados do Banco Central, o endividamento das famílias brasileiras superou 78% da renda disponível nos últimos anos, e a inadimplência segue como um dos maiores fantasmas do cotidiano de milhões de lares. Em resposta a esse cenário, o governo federal lançou o Desenrola 2.0, programa de renegociação de dívidas estruturado em quatro frentes: Desenrola Famílias, Desenrola FIES, Desenrola Rural e Desenrola Empresas.
Na modalidade Famílias, que deve alcançar o maior número de pessoas, cidadãos com renda de até cinco salários mínimos podem renegociar seus débitos com descontos que variam de 30% a 90% sobre o valor principal, com juros limitados a 1,99% ao mês. O programa também permite o uso de até 20% do saldo do FGTS para quitar dívidas — um benefício significativo para trabalhadores formais com reservas guardadas.
Mas a história mais importante não está no programa em si. Está no que acontece depois. Ahmed Sameer El Khatib, doutor em Finanças e coordenador do Centro de Estudos em Finanças da FECAP, lembra que o maior erro dos endividados é não mudar o comportamento que gerou as dívidas. E ele explica algo que muita gente confunde: a diferença entre dívida caduca e dívida prescrita. Uma dívida caduca quando, após cinco anos, ela sai dos sistemas de proteção ao crédito — o nome fica limpo. Mas o débito não desaparece: os bancos mantêm suas próprias listas e podem negar crédito, financiamentos e até abertura de conta corrente a quem tem esse histórico. Já a prescrição acontece quando a empresa perde o prazo judicial para cobrar — ou seja, não pode mais acionar a Justiça. São conceitos distintos que mudam completamente a estratégia de quem está endividado.
El Khatib recomenda um orçamento familiar detalhado como ponto de partida — mapear toda a renda líquida, listar despesas fixas e variáveis, identificar gastos invisíveis como assinaturas pouco utilizadas. Ferramentas digitais, como aplicativos de gestão financeira, ajudam a tornar esse processo concreto. E a regra de ouro permanece simples: comece pelas dívidas com juros mais altos, como cartão de crédito e cheque especial, que podem ultrapassar 300% ao ano.
A janela do Desenrola 2.0 é real e pode mudar vidas. Mas a janela se fecha. O que fica é o hábito. E esse, só cada um pode construir.
