Entre papéis, cobranças e conquistas, o retorno ao que sustenta de dentro para fora

Este é o último texto da série “Mulheres que Sustentam: liderança, maternidade e o que ninguém vê”, que percorreu, ao longo dos artigos, as camadas visíveis e invisíveis da experiência feminina — da liderança à maternidade, da sobrecarga à identidade — até chegar a um ponto essencial: aquilo que permanece quando todos os papéis se silenciam.

Ao longo da vida, muitas mulheres aprendem a se definir pelo que fazem. Se você pedir que se apresente ela vai dizer:

Sou a Fulana, tenho X anos, casada com Beltrano (a) mãe de Ciclano (a), trabalho como … na empresa X. Percebe que ela fala sempre sobre o externo e não sobre quem é, como algo do tipo:

Sou Fulana, tenho X anos, faço aniversario tal dia, minha comida preferida é, amo a série/filme/ Y, meu hobbie é Y.

Entende a diferença?

Parece pequena mas não é!

Quando focamos no externo, deixamos de prestar atenção em quem realmente somos. O que queremos ou não para a nossa vida. E ai seguimos muitas vezes no automático, sem nos darmos conta do quanto estamos perdidas. Estava revendo Comer Rezar e Amar, amo a Júlia Roberts para quem não sabe, e em um trecho antes da viagem à Itália sua personagem Elizabeth diz à amiga Delia (Viola Davis): ” só vivo de salada, não tenho mais apetite pela vida”, dai a escolha pela Itália. Quer comer, sem culpa, saborear a vida com apetite.

É sobre isso! E ai ela parte em busca de si mesma para responder à pergunta:

Quem sou eu, para além de tudo isso?

Essa não é uma pergunta simples.

Porque, quando a identidade foi construída em torno do fazer, o ser pode parecer distante. Quase abstrato. Difícil de acessar.

Mas ele não desaparece.

Ele apenas deixa de ser ouvido.

A essência não se perde.
Ela se encobre.

Se encobre nas urgências do dia a dia.
Nas demandas que não podem esperar.
Nas escolhas que priorizam o outro — repetidas vezes.

E, com o tempo, aquilo que é essencial passa a ser tratado como secundário.

Não por falta de valor.
Mas por falta de espaço.

Reconectar-se com a própria essência não é abandonar os papéis construídos.
Não é deixar de ser mãe, profissional, líder.

É, na verdade, sustentar esses papéis a partir de um lugar mais inteiro.

É lembrar do que faz sentido.
Do que mobiliza.
Do que permanece mesmo quando tudo muda.

Essa reconexão não acontece de forma abrupta.

Ela começa em pequenos movimentos.

Na pausa consciente.
Na escuta de si.
Na retomada de algo que parecia distante.
Na coragem de se fazer perguntas que não têm respostas imediatas.

O que me move?
O que ainda faz sentido para mim?
O que eu tenho adiado de mim mesma?

Onde está aquele sonho que tinha?

Como posso voltar a “pintar/estudar/escrever”, enfim aquilo que te alimentava mas você parou e nem se deu conta, lembra?

Como eu era?

Adorava “batom vermelho” porque não uso mais?

Isso não é sobre a cor do batom.

Essas perguntas não exigem respostas rápidas.

Mas exigem presença.

Porque é na presença que a mulher volta a se perceber — não apenas como alguém que faz, mas como alguém que é.

E esse deslocamento muda tudo.

Muda a forma de trabalhar.
Muda a forma de cuidar.
Muda a forma de se posicionar no mundo.

Porque, quando a mulher se reconhece, ela não precisa mais se provar o tempo todo. E muitas vezes só percebemos o quanto aprendemos quando nos vemos transformadas. Sabe quando corta o cabelo e depois de pronto, vê o quanto ele cresceu naquele intervalo, mas como estava disforme você não viu?

É isso! Só percebemos as transformações quando conseguimos olhar para nós mesmas cientes de todos os “cortes” que tivemos na vida: os desafios, que superamos; sonhos, que conquistamos; objetivos alcançados, mudanças feitas, amizades escolhidas, relacionamentos construidos.

Apenas assim podemos realmente olhar para nós mesmas e reconhecer quem somos e ai sim sustentar quem somos. Ou seja: manter a nossa essência e a partir daí, tudo o mais passa a não ter a mesma importância pois nós sabemos quem somos e por isso sustentamos, ou se preferir, bancamos emocionalmente:

As escolhas.
Os limites.
Os caminhos.

Não a partir da cobrança — mas da consciência da nossa essência e não há nada no mundo que valha mais do que isso.

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Joana D’arc Souza é jornalista, escritora, ghostwriter e revisora. Une técnica e sensibilidade para transformar ideias em textos que tocam, inspiram e despertam reflexão. Apaixonada por cultura, especialmente livros e pela força das palavras, acredita que a leitura e escrita são formas de autoconhecimento e de conexão com o outro. Seu objetivo é que cada texto seja um convite a sentir, pensar e se expressar com verdade. Instagram: @ajoanadarcsouza

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