81,7 milhões de brasileiros endividados não são um acidente.
Estamos diante de um tipo de anúncio que soa bem demais para ser simples. Aquele que chega embrulhado em números grandes, palavras generosas e um timing que nenhum assessor de comunicação poderia chamar de coincidência. O Desenrola 2.0, lançado ontem, 4 de maio de 2026, em cerimônia em Brasília com presença do presidente Lula e dos ministros da Fazenda e do Planejamento, é esse tipo de anúncio.
O programa de renegociação de dívidas promete movimentar até R$ 58 bilhões em débitos. Oferece descontos de 30% a 90% sobre o valor principal em linhas de crédito com juros escorchantes — cartão rotativo, cheque especial, crédito direto ao consumidor. Permite que o trabalhador use até 20% do saldo do seu FGTS, ou no mínimo R$ 1.000, para abater o que deve. Fixa juros máximos de 1,99% ao mês nas renegociações — bem abaixo dos 15% ao mês do rotativo e dos 8% do cheque especial que sangram o orçamento de milhões de famílias todos os meses.
O foco declarado são pessoas físicas endividadas, microempreendedores individuais e pequenas empresas com renda mensal de até cinco salários mínimos — hoje R$ 8.105. Segundo o Ministério da Fazenda, essa faixa concentra a maior parte da inadimplência registrada no país.
Parece generoso. É, de certa forma, necessário. Mas é suficiente? Aí a resposta muda completamente de tom.
O TAMANHO DO BURACO
Para entender o Desenrola 2.0, é preciso primeiro entender o país que o gerou. Os dados do Mapa da Inadimplência do Serasa apontam que o programa surge em um cenário de endividamento recorde no país, com milhões de brasileiros enfrentando dificuldades para manter as contas em dia, especialmente em linhas de crédito com juros elevados. O número exato chega a 81,7 milhões de brasileiros inadimplentes em 2026 — um recorde histórico que não é surpresa para ninguém que acompanhou a trajetória dos juros e do crédito no país na última década.
O Brasil não tem um problema de dívida. Tem um modelo que depende dela.
Dados do Banco Central evidenciam que as dívidas bancárias comprometem quase metade da renda das famílias brasileiras. Não é um número abstrato. É a conta que não fecha no final do mês. É a criança que não vai à escola de inglês porque o cartão está no limite. É o trabalhador que aceita qualquer proposta de renegociação sem ler as letras miúdas porque qualquer saída parece melhor do que a situação atual.
No primeiro programa Desenrola Brasil, realizado em 2023, cerca de 15 milhões de pessoas foram beneficiadas com a negociação de R$ 53,2 bilhões em dívidas. Três anos depois, o endividamento bate novo recorde. Essa sequência de fatos conta, por si só, uma história que o governo não tem interesse em narrar com essa clareza.
O QUE O PROGRAMA OFERECE — E O QUE OMITE
Os bancos serão obrigados a oferecer descontos sobre o valor principal, com taxas reduzidas para os parcelamentos. O desconto sobre o valor principal vai de 30% a 90%, dependendo da linha de crédito e do prazo de parcelamento. Os juros máximos ficam em 1,99% ao mês — bem abaixo das taxas praticadas em cartão rotativo, acima de 15% ao mês, e no cheque especial, cerca de 8% ao mês.
A renegociação ficará aberta por 90 dias e o cliente terá até quatro anos para pagar a nova dívida, com carência de até um mês para a primeira parcela, quando ocorrerá a limpeza do nome nos cadastros de inadimplência. O governo aportará entre R$ 8 bilhões e R$ 9 bilhões no Fundo Garantidor de Operações para cobrir eventuais calotes.
O Desenrola 2.0 pode limpar o nome, mas não muda o sistema.
Há ainda uma novidade que o governo apresenta como sinal de responsabilidade fiscal: ao aderir ao Desenrola 2.0, o participante aceita o bloqueio voluntário de acesso a jogos e apostas esportivas online por 12 meses. Lula foi direto em seu pronunciamento de Dia do Trabalhador: “Agora, o que não pode é renegociar a dívida e continuar perdendo dinheiro apostando em bet.”
A medida é razoável. Mas ela revela, inadvertidamente, algo que o governo preferiria não dizer: que parte expressiva da população endividada que o programa pretende atender usa crédito para alimentar apostas. Isso não é problema de indisciplina individual. É falha estrutural de um sistema que empurrou bets para dentro das camadas mais vulneráveis da sociedade ao mesmo tempo em que permitia que o crédito fluísse sem freio.
O REMENDO QUE NÃO COSTURA A FERIDA
O advogado Stéfano Ribeiro Ferri, sócio fundador do Stéfano Ferri Advocacia, relator da 6ª Turma do Tribunal de Ética da OAB/SP e membro da Comissão de Direito Civil da OAB-Campinas, acompanha de perto os efeitos jurídicos e sociais do endividamento crônico no Brasil. Sua análise é precisa e incômoda: o Desenrola 2.0, tal como estruturado, é paliativo. Trata o sintoma, não a doença.
“A euforia no lançamento da medida esconde uma realidade complexa: milhões de brasileiros apenas ‘sairão da inadimplência’ com a aquisição de um novo crédito, via renegociação”, alerta o especialista. “No entanto, sem educação financeira, há grandes chances de que voltem ao mesmo status por não conseguir arcar com a nova parcela da dívida renegociada ou por contrair dívidas paralelas.”
Stéfano Ribeiro Ferri
É uma armadilha que se fecha em câmera lenta. O consumidor desesperado para limpar o nome aceita a renegociação — qualquer renegociação — sem avaliar se a nova parcela cabe no orçamento real do próximo mês. O nome limpa. O crédito volta a ficar disponível. E o ciclo recomeça.
A raiz do problema está em algo que não se resolve com programa nenhum de 90 dias: a assimetria de informação. O consumidor brasileiro — especialmente o de baixa e média renda, que é exatamente o público-alvo do Desenrola — não tem as ferramentas para avaliar o custo real de uma operação de crédito, comparar ofertas, entender o impacto de uma dívida renegociada sobre sua capacidade futura de consumo ou identificar quando uma proposta aparentemente generosa esconde armadilhas no prazo longo.
O MERCADO QUE LUCRA COM A INADIMPLÊNCIA
Há uma verdade desconfortável que raramente aparece no noticiário econômico brasileiro: parte do mercado financeiro estruturou seus modelos de negócio em torno de um consumidor cronicamente endividado.
Não é uma afirmação conspiratória. É lógica financeira. O crédito rotativo do cartão, que cobra mais de 15% ao mês, só existe porque há tomadores que o usam. O cheque especial a 8% ao mês é um produto que só sobrevive porque há clientes que entram no limite todo mês. As renegociações sucessivas geram novas receitas de juros sobre o saldo renegociado. O sistema não foi projetado para manter o consumidor inadimplente — mas também não foi projetado para que a inadimplência acabasse.
Ferri é direto nesse ponto: “Não há como negar que parte do mercado financeiro se beneficia indiretamente do endividamento crônico dos consumidores, seja por meio dos juros elevados, renegociações sucessivas ou pela própria dinâmica do crédito rotativo. O sistema financeiro muitas vezes se estrutura de forma a tolerar — e até lucrar com — o atraso constante.”
O problema ultrapassa a economia e entra no terreno jurídico quando essa estrutura impõe ao consumidor uma onerosidade excessiva com base na desigualdade informacional. A lógica da boa-fé e do crédito responsável estabelece limites claros à atuação das instituições financeiras. Quando esses limites são ultrapassados — quando o crédito é ofertado de forma agressiva sem avaliação real da capacidade de pagamento, ou quando o custo total da operação é apresentado de forma opaca — o sistema deixa de corrigir distorções para reproduzi-las.
O TIMING QUE FALA POR SI
O anúncio do programa foi realizado em pronunciamento na TV em alusão ao Dia do Trabalho, em tom eleitoral. Em outubro de 2026 há eleições presidenciais. Lula aparece com 36% nas apostas da Polymarket — menor índice desde a abertura do mercado. Flávio Bolsonaro está em 38%.
Nesse cenário, lançar um programa que promete limpar o nome de dezenas de milhões de brasileiros às vésperas da campanha não é política econômica, é política eleitoral com roupa de economia. Não é um julgamento de intenções: é a leitura óbvia do calendário. O próprio ministro da Fazenda, Dario Durigan, fez questão de deixar claro que o programa não é recorrente: “Tanto no Desenrola de 2023 quanto no de agora, tratam-se de medidas pontuais. Não se trata de um Refis recorrente.”
Pontuais. Não estruturais. O governo admite, nas entrelinhas, que não está resolvendo o problema — está administrando o sintoma até outubro.
O QUE FALTA — E O QUE PRECISARIA EXISTIR
A crítica ao Desenrola 2.0 não é a de que o programa seja inútil. Para os milhões de brasileiros que estão com o nome sujo, com o crédito bloqueado, sem acesso a financiamentos básicos como aluguel ou emprego em alguns setores — a renegociação é oxigênio real. Não se descarta isso.
O que se aponta é o que está sistematicamente ausente: uma política de educação financeira de longo prazo, obrigatória nas escolas, acessível nos Centros de Referência de Assistência Social, presente nas agências bancárias no momento da concessão do crédito. Uma regulação mais firme sobre a publicidade agressiva de crédito para populações vulneráveis. Uma limitação real das taxas do rotativo e do cheque especial — não por 90 dias de programa, mas como política permanente.
Faz bem notar que o Banco Central já havia determinado, em 2023, o limite de 100% ao mês para o rotativo do cartão — uma medida estrutural que o próprio mercado encontrou formas de contornar. A questão é que medidas estruturais não rendem manchetes de Dia do Trabalhador.
O QUE O CONSUMIDOR PRECISA SABER ANTES DE ADERIR
Para quem está considerando participar do Desenrola 2.0, os especialistas listam três pontos críticos antes de assinar qualquer acordo.
Primeiro: calcule se a nova parcela cabe no orçamento real — não no otimista. O desconto de 90% sobre a dívida original é real, mas a parcela resultante precisa ser comparada com a renda líquida mensal disponível após todas as despesas fixas.
Segundo: o uso do FGTS é irreversível para aquela finalidade. O valor é transferido diretamente para o banco credor, sem passar pela conta do trabalhador. Isso é proteção contra desvio de uso — mas também significa que a reserva de segurança do trabalhador diminui. Há situações em que isso é a melhor decisão. Há outras em que não é.
Terceiro: o bloqueio das bets por 12 meses é condição do programa, não punição. Para quem tem o hábito de apostar, essa é uma oportunidade real de interrupção forçada — use-a como tal.
O VEREDITO QUE O GOVERNO NÃO QUER OUVIR
O Desenrola 2.0 não é vilão. Mas também não é herói. É o que Ferri descreve com precisão clínica: um remendo que trata o sintoma, mas não a causa. O ministro Dario Durigan reconheceu que “as famílias têm um problema” e que o programa é resposta a “uma situação excepcional”. Situações excepcionais que se repetem a cada três anos, no entanto, têm outro nome: estrutura.
81,7 milhões de brasileiros endividados não são um acidente. São o resultado previsível de décadas de crédito irresponsável, educação financeira inexistente, juros entre os mais altos do mundo e um sistema que aprendeu a lucrar com o ciclo que deveria quebrar.
O Desenrola 2.0 vai aliviar o orçamento de milhões de famílias por alguns meses. Isso importa. Mas se o governo — este ou o próximo — não enfrentar as causas estruturais do endividamento crônico, em 2029 haverá um Desenrola 3.0 sendo anunciado em pronunciamento de Dia do Trabalhador, com o mesmo tom de urgência generosa e o mesmo silêncio sobre o que realmente precisaria mudar.
O consumidor brasileiro merece mais do que alívio periódico. Merece um sistema que não o coloque, ciclicamente, entre a cruz e a espada.
Contribuição técnica e jurídica: Stéfano Ribeiro Ferri — Advogado, sócio fundador do Stéfano Ferri Advocacia, relator da 6ª Turma do Tribunal de Ética da OAB/SP e membro da Comissão de Direito Civil da OAB-Campinas.
Fontes: Serasa Mapa da Inadimplência (2026) | Banco Central do Brasil | Ministério da Fazenda | Agência Brasil | InfoMoney | ANF — Agência de Notícias das Favelas
