O calendário oficial ainda diz que não. Mas o país real, aquele que pulsa nas redes sociais, nos bastidores de Brasília, nos palanques improvisados de eventos empresariais, religiosos e culturais, já vive um clima inequívoco de campanha. Em janeiro de 2026, o Brasil está formalmente fora do período eleitoral, mas politicamente mergulhado até o pescoço em disputas antecipadas, alianças informais e discursos que não deixam dúvida sobre o que está em jogo: poder, permanência e sobrevivência política.
O que se vê é uma corrida iniciada antes do tiro de largada. Pré-candidatos circulam como candidatos, falam como candidatos e se comportam como candidatos. Apenas evitam, por ora, a palavra proibida. O jogo é semântico, mas o efeito é concreto.
Campanha fora da lei, mas dentro do algoritmo
As redes sociais se tornaram o principal território dessa pré-campanha permanente. Dados do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro mostram que, apenas no último trimestre de 2025, houve aumento superior a 40% no impulsionamento de conteúdos políticos por perfis ligados a figuras públicas com mandato ou projeção eleitoral. Lives semanais, vídeos curtos com edição profissional, narrativas emocionais e ataques disfarçados de opinião pessoal passaram a compor a rotina digital de nomes que miram 2026.
A estratégia é clara: ocupar o espaço antes que o adversário ocupe. Criar uma sensação de presença constante, de inevitabilidade, de liderança natural. Tudo isso fora das regras formais da propaganda eleitoral, mas explorando uma zona cinzenta que a legislação ainda não conseguiu alcançar com eficácia.
O Tribunal Superior Eleitoral acompanha, mas corre atrás de um fenômeno que avança mais rápido do que a capacidade de regulação. A judicialização precoce já é uma realidade. Partidos e adversários protocolam ações preventivas, questionam excessos, pedem retirada de conteúdos. O Judiciário entra em cena antes mesmo de a campanha começar oficialmente.
Alianças que nascem longe do voto
Outro traço evidente desse período é a costura silenciosa de alianças. Governadores, prefeitos de capitais, líderes religiosos, empresários e representantes do agronegócio se reúnem longe das câmeras, mas deixam rastros suficientes para que o recado seja entendido. A política institucional se mistura à agenda econômica, cultural e até espiritual, criando blocos de apoio que antecedem qualquer debate público sobre projetos de país.
Essas alianças informais moldam o terreno eleitoral antes que o eleitor tenha acesso às propostas. Quando a campanha oficial começar, boa parte do jogo já estará definida. Não por convencimento popular, mas por acordos fechados em salas restritas.
Polarização como método, não como consequência
Se em eleições anteriores a polarização foi apresentada como efeito colateral do embate político, em 2026 ela aparece como método deliberado. Discursos binários, simplificadores e agressivos se multiplicam. A retórica do “nós contra eles” volta a ocupar o centro da narrativa, alimentada por desinformação, recortes fora de contexto e apelos emocionais calculados.
Pesquisa do Datafolha divulgada no fim de 2025 indica que 67% dos brasileiros acreditam que o debate político está mais agressivo do que há quatro anos. Entre jovens de 18 a 29 anos, esse índice sobe para 72%. O dado revela não apenas percepção, mas desgaste. Uma democracia que se comunica permanentemente em tom de guerra enfraquece o diálogo e afasta parte da população do processo político.
Riscos reais para a democracia
A antecipação da campanha não é apenas uma questão de calendário. Ela compromete a igualdade de disputa, favorece quem já tem mandato, visibilidade e recursos, e empurra o debate público para uma lógica de espetáculo permanente. O tempo que deveria ser dedicado à formulação de políticas públicas se transforma em disputa narrativa contínua.
Há ainda um risco institucional. Quando regras são sistematicamente tensionadas antes mesmo de entrarem em vigor, a mensagem transmitida é a de que a lei é negociável. Isso corrói a confiança nas instituições e naturaliza a ideia de que vencer justifica driblar limites.
Especialistas em direito eleitoral alertam que a normalização desse comportamento cria precedentes perigosos. Se tudo é campanha o tempo todo, quando termina a governança? Quando começa, de fato, o compromisso com o interesse público?
O papel do eleitor diante desse cenário
Diante de um país que já parece em campanha, mesmo sem admitir, a pergunta central não é apenas quando a eleição começa, mas como o eleitor se posiciona. Aceitar passivamente essa antecipação é legitimar um modelo que privilegia barulho em detrimento de conteúdo. Questionar, checar informações, exigir propostas concretas e reconhecer estratégias de manipulação são atos políticos fundamentais.
A democracia não se esgota no voto, mas o voto é profundamente impactado pelo ambiente que o antecede. Se o Brasil já está em campanha, cabe à sociedade decidir se será apenas plateia desse processo ou agente ativo na construção de um debate mais honesto, transparente e responsável.
A eleição de 2026 ainda não começou no calendário. Mas, na prática, ela já disputa corações, mentes e algoritmos. A questão que permanece é se aprenderemos, desta vez, a não confundir campanha permanente com democracia viva.
