Da colonização à subjetividade, o filme expõe como o olhar alheio constrói identidades e perpetua marcas históricas que ainda atravessam a sociedade
A pré-estreia de Fanon aconteceu ontem, dia 29 de abril, no Estação Net Rio, e desde a chegada até o momento de entrar na sala de exibição já era possível ver o tamanho de Fanon: não paravam de chegar pessoas interessadas na história do protagonista. Duas salas de exibição quase não foram suficientes para comportar as pessoas.
Tinha desde gente comum até pesquisadores, personalidades, produtores, membros de coletivos, professores, artistas como Antônio Pitanga e Shirley Cruz, de A Melhor Mãe do Mundo. Gente de todas as idades, todos os tipos e cores — e ninguém estava ali à toa.
Seja qual for o motivo e o objetivo de cada um em assistir, todos, sem exceção, foram impactados com a história desse homem que, sem dúvida nenhuma, ainda toca a nossa sociedade: o racismo ainda está presente na nossa sociedade, que também é decolonial, apesar de já sermos descolonizados.
Trocando em miúdos: ser descolonizado é não ser mais colônia de outro país; aqui somos independentes desde 1822. Será? Se considerarmos que hoje o colonialismo ainda se mantém de outras formas, ainda somos um país decolonial, ou seja, mantivemos as estruturas de poder, saber e identidade, agora não mais em relação à colonização portuguesa e sim à americana, ou estadunidense, se preferir.
O ponto de vista muda tudo
Importante destacar: Fanon é o 5º filme de Jean Claude Barny e, antes do início da sessão, brevemente agradeceu a presença de todos e reforçou que é caribenho e o filme é construído a partir desse ponto de vista. Se lembrarmos que a maioria dos filmes que nos chegam é americana, isso é muito relevante.
O filme se passa no período histórico em que a Argélia era colonizada pela França. E, ao longo de todo o roteiro, desde a cena inicial até a última, percebemos claramente que se trata de uma grande crítica não apenas à colonização, mas ao racismo e a todas as consequências emocionais e sociais que eles acarretam.
Não à toa, em uma sequência, ao falar de Pele Negra, Máscara Branca com o seu residente, ele fala abertamente que sofreu resistências à sua produção acadêmica e que ali era apenas um psiquiatra. Mas ele sabia bem que não seria “apenas mais um”, e sim aquele que mudaria a forma de tratar os pacientes e familiares: com humanização e respeito, como gente.
Logo no início há sequências que mostram tratamento desumano com os pacientes, inclusive acorrentamento e racionamento de água. Isso não era apenas uma forma de ação da equipe, e sim um dos reflexos da questão política em torno dali, atravessada pela nacionalidade dos pacientes.
Eis que Fanon chega: um homem negro da Martinica, que falava francês, casado com uma mulher branca — suficiente para, logo na entrada do hospital, não ser reconhecido como esposo dela, muito menos como médico — e para ouvir de um homem na estrada, após atropelar a ovelha dele, que negros não são confiáveis e lhe forçar a dar mais dinheiro do que o valor do animal; caso contrário, teria de retornar a pé na estrada à noite, com a esposa grávida.
O mangue como metáfora da opressão
Um elemento muito presente no filme é o mangue. Não apenas abre o longa como se torna uma presença ilustrativa em um quadro na casa dele enquanto fazia a sua produção acadêmica. Conforme o filme avança, é possível associar as características da vegetação com a própria situação política no local. Afinal, assim como um mangue denso, úmido e difícil de atravessar, o ambiente que envolve o protagonista parece impedir qualquer movimento livre.
Porém, ele fala claramente sobre a diferença entre dominar e domesticar. O povo argelino, naquele momento, estava dominado, mas não necessariamente domesticado, pois, além da resistência feita de forma clandestina, obviamente, havia simultaneamente revolta e esperança nos olhares e rostos.
Olhares que formam as identidades. Em um raro momento em que ele fala sobre si, diz ao seu residente de origem judaica que as identidades são construídas pelo olhar alheio e, naquele contexto, a sua identidade como homem negro era a única certeza que tinha na vida, que não era alardeada em forma de discurso falado e sim de prática vívida e vivida na sua atuação como psiquiatra. Promovia humanização, socialização e respeitava as crenças e vivências dos pacientes.
Apostava em métodos como pintura, cultivo de hortaliças, enfim, o que na época era tido como não tradicional. Aqui no Brasil temos Nise da Silveira, que também tinha método semelhante.
Colonização e saúde mental
É na dimensão psicológica que o filme encontra sua maior força. Fanon, enquanto psiquiatra, não observa o colonialismo apenas como estrutura externa, mas como experiência interna. O que está em jogo não é apenas opressão, mas a produção de subjetividades atravessadas por ela. O filme traduz isso sem didatismo. O medo não aparece como episódio é contínuo. A tensão não se resolve, se acumula. A identidade não se afirma, se fragmenta.
Essa leitura antecipa o que hoje se discute: mesmo após os processos de independência :a chamada descolonização política, permanecem formas de organização social, cultural e psicológica herdadas do colonialismo. É nesse ponto que o filme dialoga com o pensamento decolonial: não basta o fim da ocupação formal. As estruturas continuam operando, muitas vezes de forma invisível.
Descolonizados ou espelhos enevoados?
Ao olhar para a história, Fanon também sugere uma continuidade. Se o colonialismo operava por meio da presença direta, o mundo contemporâneo evidencia outras formas de controle — mais sutis, mas não menos eficazes. Relações de dependência econômica, padrões culturais dominantes e hierarquias globais mantêm, sob novas configurações, lógicas que se aproximam do que se convencionou chamar de neocolonialismo. O filme não explicita esse conceito, mas o evoca ao mostrar que as marcas do passado não foram superadas,foram reorganizadas.
Fanon não oferece conforto. Não há alívio narrativo fácil, nem tentativas de suavizar o impacto do que está sendo mostrado. O filme exige permanência: permanecer na cena, na sensação, no desconforto. E é justamente aí que ele se torna relevante. Porque, ao não permitir distanciamento, ele desloca o espectador da posição de observador para a de implicado. O incômodo não é um efeito colateral. É o ponto.
Mais do que um retrato biográfico, Fanon funciona como um espelho enevoado. Em Os Quatro Compromissos, Don Miguel Ruiz apresenta esse conceito: “Sou o Espelho enevoado. Estou vendo a mim mesmo em todos vocês, mas não nos reconhecemos por causa do nevoeiro entre nós.”
As reflexões que ficam do filme são: por que ainda somos enevoados pelas atitudes discriminatórias e até quando seremos espelhos enevoados?
Fanon estreia nos cinemas em 14 de maio.
Assista ao trailler:

![[Crítica] Fanon e o espelho enevoado: quando o racismo se instala por dentro](https://pahnorama.com.br/wp-content/uploads/2026/04/MV5BNTI5OTg2M2YtNmIzNC00NGNjLTgxYTgtZTBlMmE0ZGRlMGJjXkEyXkFqcGc@._V1_QL75_UX796.5_-768x316.jpg)