Por Maximiliano Augusto
A decisão da Justiça do Rio de Janeiro que decretou, na última terça-feira (3), uma nova prisão preventiva contra o rapper Oruam não é apenas mais um capítulo de um caso policial envolvendo uma celebridade. É, sobretudo, um retrato incômodo da relação cada vez mais tensa entre indústria musical, discurso público e responsabilidade social.
O artista é considerado foragido após descumprir medidas cautelares impostas pelo Judiciário, entre elas o uso obrigatório de tornozeleira eletrônica. Segundo informações oficiais, o equipamento foi desligado 28 vezes em apenas 45 dias. A Polícia Civil foi até a residência do rapper para cumprir o mandado e não o encontrou.
A nova ordem de prisão foi assinada pela juíza Tula Corrêa de Mello depois que o Superior Tribunal de Justiça revogou o habeas corpus que havia colocado Oruam em liberdade condicional. A justificativa central é o desrespeito reiterado às condições impostas pela própria Justiça, o que inviabiliza qualquer manutenção de benefícios legais.
A defesa sustenta que não houve desligamento intencional da tornozeleira e alega falhas técnicas no equipamento, incluindo problemas de bateria e de sinal. Ainda assim, a reincidência nos registros pesou contra o artista.
Um histórico que ultrapassa a narrativa artística
Oruam foi preso preventivamente em julho de 2025, acusado de tráfico de drogas, associação ao tráfico, resistência, desacato, ameaça e tentativa de homicídio contra policiais. Permaneceu mais de 60 dias no Complexo de Gericinó, em Bangu, e deixou a prisão em setembro do mesmo ano, após decisão do STJ que substituiu a custódia por medidas restritivas.

Não se trata, portanto, de um episódio isolado. Trata-se de um percurso marcado por sucessivos conflitos com o sistema de Justiça.
O rapper também carrega uma herança simbólica pesada. É filho de Marcinho VP, apontado pelo Ministério Público como uma das principais lideranças do Comando Vermelho. Em março de 2024, durante apresentação no Lollapalooza, Oruam pediu publicamente a soltura do pai, condenado por crimes como homicídio e formação de quadrilha.
A cena foi aplaudida por parte do público. Para outra parcela da sociedade, soou como normalização explícita de uma estrutura criminosa responsável por milhares de mortes, territórios dominados pela violência e comunidades aprisionadas pelo medo.
Quando a música deixa de ser expressão e vira propaganda
A questão central que este caso escancara vai além da biografia de um artista. Ela toca no modelo de produção cultural que, sob o rótulo de “realidade das ruas”, transforma o crime organizado em estética, em narrativa heroica e, muitas vezes, em produto de consumo.
Parte significativa da música que orbita esse universo não se limita a retratar contextos sociais adversos. Ela glorifica armas, exalta facções, romantiza o tráfico e constrói personagens que apresentam a violência como caminho legítimo de ascensão.
Isso não é neutro. Não é inofensivo. E não pode mais ser tratado como “apenas arte”.
Em um país onde, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mais de 45 mil pessoas são assassinadas por ano, e onde jovens negros e periféricos são as principais vítimas, qualquer discurso que embeleza a engrenagem do crime organizado atua diretamente na manutenção desse ciclo.
A indústria que lucra com a marginalidade
Existe uma cadeia econômica robusta por trás desse tipo de produção. Gravadoras, plataformas digitais, produtoras, marcas e algoritmos lucram com a viralização de conteúdos que exploram o fascínio pela transgressão.

Enquanto isso, comunidades seguem convivendo com escolas fechadas por tiroteios, hospitais operando em regime de guerra e famílias soterradas pelo luto.
É preciso dizer com clareza. Transformar o tráfico em espetáculo não é resistência cultural. É colaboração simbólica com um sistema que mata, sequestra, extorque e controla territórios à base de terror.
Influência não é brinquedo
Artistas com milhões de seguidores não são apenas indivíduos exercendo sua liberdade criativa. São agentes de influência massiva.

Quando um ídolo naturaliza o crime, relativiza a violência ou se coloca como porta-voz de estruturas criminosas, ele não está apenas contando sua história. Está ajudando a moldar imaginários.
Para milhares de jovens que crescem em contextos de ausência de políticas públicas, esse discurso não chega como metáfora. Chega como possibilidade concreta.
A romantização vira aspiração. A estética vira projeto de vida.
O papel do Estado e da sociedade
A decisão judicial que considera Oruam foragido é um passo dentro da legalidade. Mas ela não resolve o problema estrutural.
É urgente que o debate avance para além da repressão penal e alcance também a esfera cultural. Liberdade de expressão não pode ser confundida com licença para promover organizações criminosas.
Da mesma forma, não cabe à sociedade seguir aplaudindo performances que flertam abertamente com a glorificação da barbárie, enquanto cobra, em paralelo, mais segurança, mais educação e mais oportunidades.
O que está em jogo
O caso Oruam não é apenas sobre um rapper em conflito com a Justiça.
É sobre o limite entre arte e propaganda do crime.
É sobre responsabilidade social em tempos de audiência ilimitada.
É sobre quem estamos escolhendo transformar em referência.
Se a cultura ajuda a moldar o futuro, é legítimo perguntar que futuro estamos construindo quando normalizamos, celebramos e monetizamos a estética da violência.
Não se trata de censura, mas de consciência.
Porque, quando o entretenimento passa a servir ao crime, quem paga a conta é sempre a mesma parte da população. E essa conta chega em forma de bala, luto e silêncio.

