Existe uma cena que se repete em quase todas as campanhas eleitorais brasileiras. O candidato aparece na televisão, aperta a mão de um policial, declara que vai acabar com o crime, e segue para o próximo compromisso de campanha. A câmera fecha, a caravana parte, e as ruas continuam as mesmas.
O que mudou em 2026 é que essa cena já não engana ninguém. Ou quase ninguém.
Estamos num momento em que a violência deixou de ser apenas estatística e passou a ocupar a mesa do jantar, o caminho da escola, a volta para casa depois do trabalho. O Brasil chegou exatamente nesse ponto.
De acordo com a pesquisa Genial/Quaest divulgada em abril deste ano, a violência é o principal problema apontado pelos brasileiros — preocupação declarada por 27% dos entrevistados, à frente da saúde, do desemprego e da inflação. É um número que deveria travar o país. Deveria colocar a segurança pública no centro de cada debate, de cada proposta, de cada discurso. Em vez disso, o tema continua sendo tratado como cenário de fundo — útil para assustar o eleitor, inútil para orientar política pública séria.
O paradoxo tem nome e tem endereço.
Porque, enquanto os candidatos repetem discursos prontos sobre combate ao crime, milhões de brasileiros seguem vivendo sob a lógica do medo cotidiano. E quem mora na periferia sabe que essa discussão não é abstrata. Ela tem endereço, horário e som.
Tem o som do tiro de madrugada.
Tem o comércio fechando mais cedo.
Tem mãe esperando o filho atravessar a rua para poder dormir.
Tem trabalhador mudando caminho para evitar uma área dominada.
Tem criança aprendendo cedo demais a distinguir fogos de artifício de rajada de fuzil.
A campanha eleitoral começou, mas a sensação nas ruas é outra: a segurança pública continua sendo tratada como slogan, não como prioridade de Estado.
E é justamente nesse ponto que o debate eleitoral trava.
Falar sério sobre segurança pública exige discutir inteligência policial, combate financeiro ao crime organizado, presença social do Estado, investimento em educação, prevenção, tecnologia, reforma institucional e ocupação permanente dos territórios abandonados. Exige planejamento de longo prazo. Exige orçamento. Exige continuidade.
Mas campanhas eleitorais preferem frases de efeito. Funcionam melhor na televisão e exigem menos explicações.
O resultado é cruel: o eleitor mais afetado pela violência é também o que menos recebe propostas reais.
Enquanto isso, histórias como a do comandante Felipe Marques ajudam a revelar o tamanho do problema que o Brasil decidiu normalizar.
O medo como moeda
Quem vive na periferia de qualquer grande cidade brasileira sabe exatamente o que significa acordar num território disputado. Sabe o horário em que não se sai de casa. Sabe o barulho que é tiro e o barulho que não é. Sabe o nome das pessoas que desapareceram nos últimos anos — e sabe também que nenhum político foi ao enterro.
Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, as milícias atuam nas proximidades de 19% da população brasileira. Não são grupos periféricos. São estruturas de poder paralelo que controlam comércio, imóveis, serviços e vidas inteiras. Em regiões metropolitanas como o Rio de Janeiro e São Paulo, esse número se aprofunda em bairros específicos onde o Estado simplesmente não chegou — ou chegou apenas como força repressiva, jamais como serviço.
Esse é o ponto que nenhum pré-candidato quer tocar de verdade: a diferença entre combater o crime e governar o território.
“Segurança pública no Brasil virou palanque. Todo candidato tem o discurso, nenhum tem o plano”, diz um pesquisador de segurança que acompanha os debates eleitorais há mais de duas décadas e prefere não ser identificado. “O problema é estrutural, exige continuidade, exige investimento de longo prazo, exige mudança institucional. Isso não cabe em jingle de campanha.”
O que os números escondem
A estatística de 27% parece fria até que se traduz em vida cotidiana. Significa filhos que não podem brincar na rua depois das seis da tarde. Significa idosos que deixaram de frequentar igrejas e feiras porque o caminho ficou perigoso. Significa comerciantes que pagam proteção para continuar de portas abertas. Significa mulheres que mudam de rota toda semana porque o trajeto fixo virou risco calculado.
A violência no Brasil não é apenas um fenômeno criminal. É uma forma de organização social imposta pelo abandono do Estado. E ela afeta de maneira completamente diferente quem tem recursos para se proteger e quem não tem.
O morador do condomínio fechado e o morador da favela vivem no mesmo município, mas em realidades tão distintas que parecem países separados. A câmera de segurança, o carro blindado, a portaria 24 horas — tudo isso é a solução privada para um problema público que ninguém resolveu. E é exatamente essa assimetria que a política de segurança insiste em ignorar.
A armadilha eleitoral
Há uma lógica perversa no silêncio dos candidatos. Falar em segurança de forma superficial é rentável eleitoralmente. Prometer mão dura, “guerra ao crime”, militarização — essas palavras mobilizam votos sem comprometer orçamento, sem criar expectativa de entrega, sem cobrar resultado mensurável.
Mas quando um candidato começa a falar sério — sobre prevenção, sobre reintegração social, sobre inteligência policial, sobre desarmamento de milícias, sobre reforma institucional — o assunto fica complexo demais para um debate de televisão. E complexo, na lógica eleitoral brasileira, é perigoso.
O resultado é que o eleitor mais afetado pela violência — aquele que vive no território dominado pelo tráfico ou pela milícia — é também o eleitor que menos recebe propostas reais durante as campanhas. Recebe promessa. Recebe retórica. Recebe a visita do candidato que vai embora antes de escurecer.
A pesquisa Genial/Quaest não deixa dúvida: a violência está na cabeça do brasileiro. O que ainda não entrou, de forma séria, é a consciência de que o medo não vai diminuir com discurso. Vai diminuir com política pública consistente, com investimento contínuo, com presença do Estado além da farda.
Isso exige coragem. E coragem, neste ciclo eleitoral, ainda está em falta.
O que está em jogo
Outubro de 2026 vai chegar com o país ainda assustado. Com milícias ocupando 19% do entorno populacional. Com territórios inteiros fora do alcance do direito. Com jovens negros e periféricos sendo enterrados enquanto o palanque discute outra coisa.
A pergunta que o eleitor vai ter de responder nas urnas é: quem, entre todos os candidatos, está disposto a governar o Brasil inteiro — incluindo as partes que o Brasil oficial prefere não ver?
A resposta pode mudar uma eleição. Mais do que isso: pode mudar a vida de gente que nunca teve o luxo de esperar.
A morte do comandante Felipe Marques e o retrato de um país em conflito
A morte do comandante Felipe Marques Monteiro não foi apenas a perda de um policial experiente. Foi um retrato duro do nível de violência que o país enfrenta hoje.

Felipe tinha 46 anos, era piloto da Polícia Civil do Rio de Janeiro e atuava em operações aéreas da Core, uma das forças mais estratégicas da segurança pública fluminense. Em março de 2025, durante uma operação na Vila Aliança, na Zona Oeste do Rio, o helicóptero que pilotava foi atingido por disparos de fuzil. Um dos tiros atravessou a cabine e acertou sua cabeça.
Mesmo ferido gravemente, ele ainda conseguiu manter a aeronave estável antes do pouso forçado. O gesto evitou uma tragédia ainda maior e passou a ser lembrado entre colegas como um ato extremo de lucidez e coragem.
Foram mais de 400 dias de internação, cirurgias delicadas, períodos de recuperação e uma luta diária acompanhada de perto pela família. A morte dele, confirmada em maio de 2026, provocou comoção dentro e fora das forças de segurança porque simboliza algo maior: o avanço de organizações criminosas cada vez mais armadas, estruturadas e preparadas para enfrentar o próprio Estado.
Felipe Marques construiu uma trajetória respeitada na aviação policial. Colegas o descrevem como disciplinado, técnico e profundamente comprometido com a profissão. Mas sua morte também escancara uma contradição brasileira: o país exige heroísmo permanente de policiais enquanto evita enfrentar as raízes da violência de forma séria e contínua.
Quando um helicóptero policial é derrubado por tiros de fuzil durante uma operação urbana, não se trata mais apenas de criminalidade comum. Trata-se de territórios transformados em zonas de conflito.
E talvez seja exatamente isso que parte da política brasileira ainda se recusa a admitir.
A violência hoje não separa apenas criminosos e vítimas. Ela separa brasileiros que conseguem comprar proteção privada daqueles que dependem exclusivamente de um Estado ausente. De um lado, condomínios blindados, câmeras, vigilância armada. Do outro, ruas sem iluminação, medo constante e a sensação de abandono.
O Brasil oficial e o Brasil real convivem no mesmo mapa, mas parecem países diferentes.
Por isso, a eleição de 2026 carrega uma pergunta que vai muito além da disputa partidária: quem está realmente disposto a governar os territórios esquecidos do país?
Porque o medo já faz parte da vida do brasileiro há tempo demais. E nenhuma sociedade suporta indefinidamente transformar sobrevivência em rotina.

