O câncer de próstata segue como o tipo mais comum entre homens no Brasil, segundo dados do Instituto Nacional de Câncer, a ciência brasileira dá um passo decisivo ao transformar conhecimento acadêmico em solução concreta de saúde pública. Nos dias 2 e 3 de fevereiro, o Hospital Universitário Pedro Ernesto, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, promove o primeiro Curso Teórico-Prático de Prostatectomia Radical Aberta Anterógrada, uma técnica cirúrgica desenvolvida integralmente na UERJ e que já vem mudando a forma de tratar a doença no Brasil e fora dele.

Coordenado pelo urologista, pesquisador e cientista Fabrício Carrerette, a iniciativa consolida uma inovação que nasce da universidade pública, dialoga com a realidade do Sistema Único de Saúde e responde a um dos maiores desafios da medicina contemporânea: como oferecer tratamento oncológico de excelência sem depender de tecnologias inacessíveis à maior parte da população.

Uma técnica brasileira, pensada para a realidade brasileira

Desenvolvida em 2015 no Hospital Universitário Pedro Ernesto, a Prostatectomia Radical Aberta Anterógrada parte de um princípio claro e disruptivo. Reproduzir, com instrumentos convencionais, os mesmos passos anatômicos e funcionais da cirurgia robótica, amplamente utilizada em países ricos, mas ainda distante da maioria dos hospitais públicos e privados de médio porte no Brasil.

A cirurgia é realizada por meio de uma incisão de Pfannenstiel, transversal, menor e mais estética, semelhante à utilizada em cesarianas. Essa abordagem substitui a incisão vertical clássica da prostatectomia aberta tradicional, reduzindo trauma cirúrgico, favorecendo cicatrização e proporcionando melhor resultado estético ao paciente.

O procedimento segue rigorosamente a lógica anterógrada, iniciando pelo colo vesical e avançando de forma controlada até o ápice prostático. Esse percurso cirúrgico permite melhor visualização anatômica, menor sangramento intraoperatório e maior preservação das estruturas responsáveis pela continência urinária e pela função sexual, aspectos centrais na qualidade de vida após o tratamento do câncer.

Resultados clínicos comprovados

A técnica não ficou restrita ao campo da teoria ou da experimentação pontual. Foi avaliada em diversos estudos clínicos, incluindo um ensaio prospectivo randomizado com 240 pacientes. Os resultados são consistentes e inequívocos. As taxas de controle oncológico, continência urinária e recuperação da função sexual se mostraram semelhantes às obtidas com a cirurgia robótica, considerada padrão ouro em muitos centros internacionais.

A diferença central está no custo. Ao dispensar robôs cirúrgicos, descartáveis de alto valor e contratos de manutenção milionários, a Prostatectomia Radical Aberta Anterógrada torna-se viável em hospitais públicos e privados de médio porte, ampliando de forma concreta o acesso dos pacientes a um tratamento de alta qualidade.

Esse dado não é secundário. Ele toca diretamente em uma ferida estrutural do sistema de saúde brasileiro, onde a desigualdade tecnológica frequentemente se traduz em desigualdade de sobrevivência.

Inovação como política de saúde

Mais do que uma inovação técnica, a cirurgia desenvolvida na UERJ se afirma como uma solução social. Em um cenário em que a medicina de ponta muitas vezes se associa a equipamentos importados e custos proibitivos, a técnica brasileira demonstra que ciência, eficiência e equidade podem caminhar juntas.

“A proposta sempre foi unir rigor científico, excelência cirúrgica e acessibilidade. Não faz sentido falar em inovação se ela não chega a quem mais precisa”, afirma Fabrício Carrerette, membro da Sociedade Brasileira de Urologia, da European Association of Urology e palestrante internacional sobre o tema.

A abordagem ganha ainda mais relevância quando se considera que o câncer de próstata atinge majoritariamente homens acima dos 60 anos, faixa etária que depende fortemente do SUS para diagnóstico e tratamento. Ampliar o acesso a uma cirurgia eficaz, segura e com bons resultados funcionais não é apenas uma escolha médica, mas uma decisão política de cuidado com a vida.

Formação, difusão e impacto internacional

O curso promovido pela UERJ pretende formar cirurgiões, difundir a técnica e consolidar um modelo de ensino baseado na troca de conhecimento e na valorização da produção científica nacional. Carrerette, que construiu sua carreira unindo prática clínica, ensino e pesquisa, atua diretamente na formação de novos urologistas e na expansão do método em diferentes regiões do país.

A técnica ganhou reconhecimento internacional e foi tema de artigo publicado na plataforma científica The Conversation, voltada à divulgação de pesquisas de relevância global. O interesse externo confirma o que a prática clínica já demonstra: soluções desenvolvidas em países do Sul Global podem oferecer respostas eficientes a problemas universais da medicina.

Ciência com humanidade

A trajetória de Fabrício Carrerette carrega ainda um elemento que fortalece sua autoridade científica e humana. Sua vivência pessoal com a doença reforça a empatia com os pacientes e a compreensão de que o tratamento do câncer não se resume à erradicação do tumor, mas envolve dignidade, autonomia e qualidade de vida no pós-operatório.

“Saúde de excelência não precisa ser sinônimo de tecnologia inacessível. Temos o SUS, que é um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo, e temos profissionais capazes de produzir ciência de alto nível. Precisamos acreditar nisso”, afirma o pesquisador.

Um caminho possível

Em tempos de desvalorização da ciência, cortes em universidades públicas e descrédito da produção acadêmica nacional, a Prostatectomia Radical Aberta Anterógrada surge como prova concreta de que investir em pesquisa pública salva vidas, reduz desigualdades e fortalece o sistema de saúde.

A inovação criada na UERJ não é apenas uma técnica cirúrgica. É uma afirmação de soberania científica, de compromisso social e de que a saúde pública brasileira pode, sim, ser referência quando ciência, política e humanidade caminham juntas.

Informações sobre o curso estão disponíveis em www.urologiauerj.com.br

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