Por Eudes Ferreira

As férias chegam como um convite coletivo à suspensão da pressa. Mudam os horários, os lugares e, quase sempre, o jeito de comer. A mesa ganha petiscos, encontros longos, pratos improvisados e sobremesas compartilhadas. Não é um problema em si. O risco mora no automático. Quando o descanso vira desatenção, o corpo cobra a conta em forma de mal-estar, inchaço, cansaço e uma relação menos gentil com a comida. O desafio contemporâneo não é abdicar do prazer, mas reaprender a conduzi-lo.

No Brasil, pesquisas recentes apontam aumento do consumo de ultraprocessados em períodos de recesso e feriados prolongados, especialmente entre jovens adultos. A mudança de rotina, aliada à oferta abundante e à socialização mediada por comida, tende a empurrar escolhas menos equilibradas sem se perceber. É nesse contexto que o cuidado cotidiano precisa ser traduzido em estratégias simples, possíveis e, sobretudo, humanas.

Para a professora do curso de Nutrição da Una, Denise Perez, o equilíbrio começa na organização do prato, mesmo em cenários mais descontraídos. A lógica não é de proibição, mas de proporção. “Uma forma simples de manter o equilíbrio é começar preenchendo metade do prato com opções mais leves, como saladas, frutas, legumes assados e preparações menos gordurosas. Em seguida, incluir uma fonte de proteína magra, como frango, peixe, ovos ou cortes suínos mais leves. Depois disso, selecione uma ou duas opções de carboidratos, como arroz, massas, pães ou acompanhamentos típicos de férias, sempre em porções moderadas. Assim você mantém o prazer à mesa, mas evita exageros”, orienta a especialista.

O prato como mapa, não como regra

A proposta parece óbvia, mas esbarra em um ponto sensível da cultura alimentar brasileira: a ideia de que cuidar da alimentação significa perder liberdade. Nas férias, esse pensamento se intensifica. Comer bem passa a ser visto como um esforço incompatível com o descanso. Denise rebate essa lógica ao lembrar que pequenas decisões repetidas ao longo do dia fazem mais diferença do que grandes restrições pontuais.

Preferir preparações assadas em vez de fritas, escolher lanches com menos embutidos, priorizar frutas e saladas e evitar beliscar por impulso são ajustes discretos, porém eficazes. “No momento dos doces, vale escolher aqueles que você realmente aprecia, em vez de experimentar tudo. E trocar refrigerantes por água aromatizada, água de coco ou sucos naturais também ajuda muito”, destaca. A atenção aos molhos e aos alimentos ultraprocessados, geralmente mais ricos em gordura, açúcar e sódio, é outro ponto-chave.

O corpo fala. A gente escuta?

Passeios longos, viagens e encontros sucessivos costumam culminar em refeições fartas. O resultado, muitas vezes, é desconforto digestivo e a sensação de peso que rouba o prazer do próprio descanso. Para evitar esse ciclo, a orientação é simples e pouco praticada: não passar longos períodos sem comer. Pequenos lanches ao longo do dia ajudam a controlar a fome intensa e a reduzir excessos.

Durante a refeição, comer devagar, mastigar bem e respeitar os sinais de saciedade são atitudes que devolvem autonomia ao corpo. “Após a refeição, caminhadas leves e hidratação adequada ajudam na digestão e diminuem a sensação de peso”, pontua Denise. Não se trata de compensação, mas de cuidado contínuo.

Trocas possíveis, prazer preservado

Manter refeições leves e saborosas nas férias não exige cardápios mirabolantes. Substituições inteligentes resolvem boa parte do problema. Sanduíches com mais vegetais e menos molhos, iogurte natural no lugar da maionese tradicional, grelhados ou assados nas refeições principais e frutas como sobremesa ampliam o valor nutricional sem empobrecer a experiência.

“Essas escolhas tornam a alimentação mais equilibrada, sem abrir mão do prazer de comer, que é tão presente nesse período”, reforça Denise. O recado é claro: prazer não está no excesso, mas na consciência.

Entre o descanso e a responsabilidade consigo

Férias não são intervalo da vida. São parte dela. O modo como nos alimentamos nesse período diz muito sobre nossa relação com o próprio corpo, com o tempo e com o cuidado. Em uma cultura que normaliza o exagero e depois vende culpa, escolher equilíbrio é um gesto quase político.

Talvez o que fique não seja o que comer nas férias, mas como queremos nos sentir ao vivê-las. Comer com prazer, atenção e respeito não tira nada do descanso. Pelo contrário. Devolve ao corpo o direito de participar da festa sem pagar o preço depois. A mesa continua farta. A diferença é que agora ela também é consciente.

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