Por Maíra Souza

Na noite de segunda-feira, 22, enquanto boa parte da cidade seguia seu roteiro previsível entre bares da zona sul e restaurantes consagrados pelos guias tradicionais, outro mapa gastronômico se afirmava com força própria. Um mapa desenhado a partir de territórios historicamente marginalizados, mas culturalmente centrais. A primeira edição do concurso Favela Gourmet encerrou-se celebrando três vencedores, um de cada comunidade participante, e deixando um recado claro para o Rio e para o Brasil: a favela também é destino, também é excelência e também é potência econômica.

O Bolinho de Bacalhau do Bar do Lukinhas, na Rocinha, foi o grande vencedor da comunidade. No Vidigal, o público escolheu o Cuscuz com Carne Seca, do Bar do Baunilha. Já no Complexo Pavão-Pavãozinho e Cantagalo, o prato mais votado foi o Ossobuco com arroz branco e pirão de pata de vaca, do restaurante Panelada. Cada um dos três vencedores recebeu um prêmio de R$ 3 mil, valor simbólico diante do que o projeto representou em visibilidade, circulação de pessoas e fortalecimento dos negócios locais.

Mais do que uma disputa gastronômica, o Favela Gourmet funcionou como um exercício de reposicionamento simbólico e econômico das favelas no circuito turístico da cidade. Cerca de mil pessoas participaram da votação, circulando pelos estabelecimentos ao longo dos dias de competição. Para os comerciantes, o impacto foi imediato. Houve aumento médio de 35% no faturamento durante o período do concurso, segundo a organização.

Esse dado, por si só, desmonta um estigma antigo. A favela não é apenas cenário de carência ou violência, como ainda insiste parte do imaginário social. Ela é também espaço de criação, empreendedorismo e saberes transmitidos de geração em geração. A comida, nesse contexto, aparece como linguagem universal e ferramenta de reconexão entre territórios e públicos.

“Conseguimos promover a circulação de visitantes e revelar territórios que carregam histórias profundas e pouco contadas. Além disso, fortalecemos negócios locais que são expressão viva da identidade das comunidades, impulsionamos o turismo comunitário como ferramenta de desenvolvimento e pertencimento”, afirma Renan Monteiro, criador do aplicativo Favela Turismo e também participante da competição com o Mirante da Rocinha.

A fala de Renan toca num ponto sensível do debate sobre turismo no Brasil. Por décadas, políticas públicas e investimentos privados concentraram esforços em roteiros tradicionais, frequentemente dissociados da realidade da maioria da população urbana. Iniciativas como o Favela Gourmet apontam outro caminho. Um turismo de base territorial, que gera renda local, valoriza narrativas próprias e rompe com a lógica extrativista que consome paisagens sem devolver dignidade.

Ao todo, quatorze restaurantes participaram da primeira edição do concurso. Pequenos negócios, muitos deles familiares, que encontraram no evento uma oportunidade rara de exposição qualificada. A expectativa agora é que o público não se limite ao período da competição. A aposta dos organizadores é que esses estabelecimentos passem a integrar, de forma permanente, o repertório gastronômico de cariocas e turistas.

O movimento dialoga com tendências globais. Dados da Organização Mundial do Turismo indicam crescimento consistente do turismo gastronômico e do interesse por experiências autênticas, ligadas à cultura local. No Brasil, onde a desigualdade territorial ainda define quem pode ou não ser visto como destino, esse tipo de iniciativa ganha contornos políticos inevitáveis.

Celebrar um bolinho de bacalhau na Rocinha, um cuscuz no Vidigal ou um ossobuco no Pavão-Pavãozinho não é apenas falar de comida. É reconhecer histórias de resistência, trajetórias de trabalho e redes de afeto que sustentam esses negócios. É também confrontar a lógica que insiste em separar cidade formal e informal, centro e margem, consumo e cidadania.

Com o sucesso da primeira edição, a organização já projeta uma ampliação do projeto, com maior adesão de estabelecimentos e aumento de público. A ideia é consolidar o Favela Gourmet como um calendário fixo do turismo carioca, fortalecendo uma economia que nasce de dentro para fora e se sustenta na identidade de seus territórios.

No fim das contas, o Favela Gourmet deixa experiências, sabores e histórias seguem invisibilizadas porque insistimos em olhar a cidade sempre do mesmo ponto. Talvez esteja na hora de entender que o futuro do turismo passa menos pelos cartões-postais e mais pelas mesas onde a cidade real se senta para comer.

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