Nenhuma tecnologia substitui a humanidade que deveria acompanhar cada toque de uma mão que cuida.
Por Silver D’madriaga Marraz
A morte do pequeno Benício Xavier, de apenas seis anos, após receber uma dose fatal de adrenalina em um hospital particular de Manaus, abriu uma ferida que o Brasil insiste em ignorar: o descaso, o despreparo e a desumanização que atravessam silenciosamente muitos espaços onde a vida deveria ser prioridade absoluta. Diante do corpo do filho, o pai pediu perdão. Perdão por tê-lo colocado na maca, por confiar que estaria seguro, por acreditar que a medicina nunca falha quando se trata de uma criança. É impossível não estremecer diante dessa cena — um pedido de perdão onde não deveria existir culpa paterna, mas responsabilidade institucional.
A negligência médica não é um acidente isolado: ela é sintoma de algo maior. Um sistema pressionado, burocratizado, sobrecarregado, mas também profundamente marcado pela perda de empatia. A medicina, quando reduzida a protocolos mecânicos, transforma pacientes em números, sintomas e prontuários. E quando esse distanciamento se normaliza, erros mortais deixam de ser tragédias inesperadas e passam a ser consequências previsíveis.
A pergunta que permanece ecoando é: como um erro tão básico, tão elementar, tão absurdo pôde acontecer? A resposta exige coragem de olhar para além do indivíduo que aplicou a injeção errada. É preciso olhar para a formação apressada, para equipes subdimensionadas, para a cultura da pressa que domina os hospitais, para a hierarquia rígida que impede profissionais de questionar procedimentos, para o medo de parecer incompetente ao pedir ajuda, para o desamparo emocional de quem cuida de vidas sem receber cuidados. A falta de empatia não nasce no ato final — ela é cultivada diariamente por um sistema que exige perfeição, mas não oferece condições humanas de trabalho.
A negligência médica, em muitos casos, não é fruto da falta de conhecimento técnico, mas da ausência de presença emocional. Porque cuidar não é só saber fazer; é estar consciente do impacto de cada gesto. É entender que um corpo deitado numa maca carrega uma história, uma família, uma vida que confia inteiramente naquele que segura a seringa.
A morte de Benício não deveria virar estatística, nem apenas motivar debates momentâneos. Ela deveria nos obrigar a questionar a anestesia moral que corrói nossas instituições. Como sociedade, precisamos exigir mais: mais fiscalização, mais capacitação, mais diálogo, mais humanidade. Precisamos colocar no centro do debate a empatia como prática profissional — e não como um valor abstrato citado em discursos protocolares.
Empatia, nesse contexto, não é sensibilidade exagerada; é responsabilidade ética. É o reconhecimento de que toda vida está sob nossos cuidados enquanto estiver sob nossos serviços. É a compreensão de que erros acontecem, mas que certos erros são inadmissíveis porque derivam do abandono daquilo que nos torna humanos: atenção, cuidado, presença, responsabilidade compartilhada.
O pedido de perdão daquele pai não deveria existir, mas ele revela algo profundo. Ele diz ao Brasil aquilo que muitos familiares engolem em silêncio: o desamparo. O medo de questionar médicos. A confiança obrigatória em um sistema que se vende como infalível. A sensação de que, quando algo dá errado, a culpa volta sempre para quem menos deveria carregá-la.
Cada morte evitável expõe um país que ainda não aprendeu a valorizar suas próprias vidas. A negligência não mata só com seringas erradas; mata com silêncio, com falta de escuta, com despreparo, com arrogância técnica disfarçada de autoridade profissional.
Precisamos de uma medicina que abrace, que olhe nos olhos, que admita limites, que peça ajuda, que reconheça o humano antes do procedimento. Uma medicina que se humanize para que a sociedade possa confiar novamente. Uma medicina que entenda que a vida não pode ser tratada como burocracia.
O caso de Benício Xavier não é apenas uma tragédia — é um espelho. Um espelho doloroso, mas necessário, que nos obriga a perguntar: quantas vidas mais serão sacrificadas antes de transformarmos a forma como cuidamos? Quantos pais ainda pedirão perdão por algo que não cometeram? Quantas crianças ainda serão vítimas de um sistema que esqueceu que o ato de salvar vidas começa, antes de tudo, com a responsabilidade de não feri-las?
A memória de Benício exige mais do que luto; exige mudança. Exige coragem coletiva. Exige que cada profissional se lembre de que, no momento em que toca um paciente, segura o mundo inteiro de alguém entre as mãos.
