
Nenhuma sociedade se torna justa enquanto seus homens permanecem calados.
O apelo do ministro Luiz Edson Fachin ecoa como um grito que atravessa séculos de violência normalizada: que o silêncio seja substituído pela denúncia. Mas esse pedido é muito maior do que uma frase judicial; é uma convocação moral. Uma convocação dirigida, sobretudo, aos homens que não se reconhecem como machistas, mas que também não se movimentam para enfrentar a cultura que mata mulheres todos os dias.
O feminicídio não é um acidente, nem um desvio individual. É o resultado de um sistema inteiro que educa homens para o domínio e mulheres para a sobrevivência. Um sistema que naturaliza a humilhação, a posse, o controle, o ciúme, a agressão, e que transforma a violência doméstica em mais um item do cotidiano. Enquanto isso, estatísticas seguem crescendo como se fossem fenômenos climáticos inevitáveis — quando, na verdade, são escolhas coletivas, silenciosamente produzidas pela omissão.
A ausência masculina nesse debate não é neutra. É parte do problema. Porque ficar quieto quando outras mulheres são espancadas, ameaçadas, perseguidas, silenciadas ou mortas equivale a dizer, ainda que sem palavras: “Isso não tem nada a ver comigo.” Tem, sim. Todos os homens estão socializados dentro do mesmo caldo cultural que autoriza o desrespeito, que ensina que “homem de verdade não leva desaforo”, que reforça a ideia de que o corpo e a vida das mulheres são objetos passíveis de tutela. Muitos não praticam violência, mas vivem em um ambiente que normaliza piadas, reduz vozes, infantiliza emoções e constrói rivalidades. E, quando não enfrentam esse sistema, sustentam-no com a própria inércia.
Dizer “eu não sou assim” nunca foi suficiente. O mundo está cheio de homens que não se consideram machistas, mas não movem um dedo para desconstruir o machismo que os beneficia. É preciso mais do que distância moral: é preciso responsabilidade ativa. Porque todo feminicida já foi, um dia, um homem comum. Um menino educado por frases corriqueiras, criado em casas onde o grito do pai valia mais do que a opinião da mãe, incentivado a acreditar que “ciúme é cuidado” e que “mulher que se dá ao respeito não passa por isso”. A violência fatal começa nos detalhes — nas pequenas permissões, nas risadas cúmplices, no “não vou me meter”, no “isso é problema do casal”.
Por isso, o apelo de Fachin não é apenas sobre denunciar crimes consumados; é sobre mudar a cultura que os produz. É sobre romper o pacto masculino que sustenta essa estrutura. É sobre fazer dos homens aliados — não espectadores. Homens que denunciam, que acolhem, que intervêm, que educam outros homens, que questionam seus próprios padrões, que entendem que masculinidade não é sinônimo de superioridade, mas de responsabilidade afetiva e social.
Não haverá país seguro para mulheres enquanto os homens não ocuparem as ruas, as conversas, as escolas, as redes e as instituições para dizer, publicamente: “Eu sou contra a violência. Eu não tolero. Eu não aceito. Eu não serei cúmplice.” A luta não pode continuar sendo apenas das mulheres, porque elas estão sendo mortas dentro de casa, no trabalho, nas ruas, pelos mesmos homens que cresceram ouvindo que feminismo era exagero.
Se a sociedade quer que o silêncio seja substituído pela denúncia, precisa também substituir a indiferença pelo compromisso. O medo pela coragem. A passividade pela ação. Porque cada mulher assassinada é, antes de tudo, um fracasso coletivo. É a marca de um país que insiste em ignorar que violência de gênero não é destino, é projeto — e que só se desmonta com enfrentamento.
Chegou a hora de os homens decentes serem mais barulhentos do que os violentos. Que ocupem a linha de frente. Que digam aos filhos outra coisa. Que parem os amigos. Que interrompam a roda de piadas. Que se levantem quando presenciarem abuso. Que denunciem. Que protejam. Que se eduquem. Que se responsabilizem.
A mudança que o Brasil precisa não virá apenas das leis, nem apenas das mulheres. Passa pelos homens que finalmente decidem que ficar calado não é mais uma opção, porque, diante da violência, silêncio é sempre cumplicidade — e ação é sempre escolha.

