A dor que não se vê também pede cuidado.
Por Silver d’Madriaga Marraz
Há gestos que parecem absurdos, atos que se tornam notícia pela estranheza, mas que carregam dores que ninguém viu. O rapaz que pulou na jaula da leoa não foi apenas um jovem que desafiou a lógica; foi, talvez, o retrato de uma doença que caminha pelas frestas da mente humana com passos invisíveis: a esquizofrenia silenciosa. Uma condição que não se revela de imediato, que não anuncia sua chegada com alarme, mas que se instala lentamente, esculpindo realidades paralelas dentro do cotidiano.
Vivemos em uma sociedade que só percebe o caído no chão, nunca o cambaleante. Só enxergamos a tragédia quando ela explode, raramente quando ela começa a se formar. Mas a esquizofrenia silenciosa é exatamente isso: uma erosão interna, quase imperceptível, que corrói a lógica, altera percepções e transforma o real em um território instável.
Muitos julgariam: “Por que ele fez isso?”. A pergunta, porém, deveria ser outra: “O que se passou dentro dele para que aquilo se tornasse possível?”. Há pensamentos que não se ouvem do lado de fora, vozes que só fazem sentido dentro de uma cabeça atormentada. A realidade se fragmenta em pequenos cacos, e cada um deles reflete um mundo diferente. Alguns brilham com medos irracionais, outros com sensações de perseguição, outros ainda com a convicção de que existe uma espécie de missão invisível. Quando esses fragmentos se sobrepõem, o indivíduo age não com a racionalidade que esperamos, mas com a lógica distorcida que acredita ser sua única verdade.
O jovem que saltou na jaula da leoa talvez não tenha visto uma fera pronta para atacá-lo. Talvez tenha visto paz. Talvez tenha visto um fim. Talvez tenha acreditado ouvir um chamado. Talvez estivesse fugindo de algo que ninguém mais podia ver. A esquizofrenia silenciosa tem a capacidade de transformar o óbvio em ameaça, o perigoso em refúgio, o impossível em necessidade.
É fácil apontar o dedo; difícil é compreender que ali havia uma pessoa cuja mente travava batalhas diárias e secretas. O silêncio dessa doença é cruel. Ela não se manifesta como uma febre, não se apresenta como um ferimento físico. Ela vai se desenhando nos pequenos desvios de comportamento, nas frases desconexas, no olhar que parece atravessar a parede. Muitas vezes, a família não sabe interpretar. Os amigos acham que é “fase”. A sociedade classifica como “coisa de gente problemática”. E, assim, a doença cresce, enquanto o indivíduo encolhe por dentro.
Trata-se de uma dor que isola. O mundo se torna estrangeiro, e o indivíduo, um exilado da própria mente. É um sofrimento que se esconde atrás de sorrisos, de aparente normalidade, de rotinas que vão se desfazendo. Até que, um dia, algo drástico acontece — e aí todos se perguntam o que deu errado.
A tragédia daquele rapaz é, na verdade, um grito. Um pedido de ajuda que chegou tarde demais. A esquizofrenia silenciosa é mais comum do que se imagina. E, se não formos capazes de reconhecer seus sinais, continuaremos perdendo vidas para um silêncio ensurdecedor.
É preciso aprender a olhar para além do estranho. A perceber o desalinho no discurso, o medo sem razão, a solidão profunda travestida de indiferença. Precisamos aprender a perguntar “você está bem de verdade?” — e estar dispostos a ouvir uma resposta quebrada, confusa, às vezes assustadora. A cura não é simples. O caminho não é curto. Mas começa com escuta, acolhimento e respeito.
O gesto do jovem nos obriga a pensar na fragilidade humana. Cada pessoa carrega mundos que não conhecemos. E, às vezes, esses mundos entram em colapso. A jaula, para ele, não foi apenas um cercado; talvez tenha sido uma saída. A leoa não foi somente um animal; talvez tenha sido símbolo de algo que não compreendemos. Quando um ser humano chega a esse ponto, é porque sua alma estava pedindo socorro há muito tempo — e ninguém ouviu.
Que essa história nos sirva de alerta. Que aprendamos a enxergar o invisível. Que tenhamos mais empatia e menos julgamento. E que, diante de cada comportamento estranho, lembremos que pode haver ali uma batalha que não aparece nos olhos, mas que consome por dentro, porque a esquizofrenia silenciosa não mata apenas quando aparece. Mata, sobretudo, quando passa despercebida.
