Quando o cuidado não é visto, a humanidade adoece — e quando ele é valorizado, uma nova sociedade nasce.

Por Silver D’Madriaga Marraz

Há um território silencioso onde a vida acontece sem alarde. Nele, não há manchetes, prêmios ou aplausos. Há mãos que lavam, cozinham, acolhem, organizam, pensam, preveem, antecipam, sustentam e, quase sempre, renunciam. Esse território se chama cuidado. E por mais que as sociedades modernas tentem reduzi-lo a um favor doméstico, a um instinto feminino ou a uma obrigação moral, o cuidado é, na verdade, uma política — a mais profunda, estruturante e negligenciada política da existência humana.

Vivemos num tempo que exalta a produtividade, mas ignora tudo aquilo que a torna possível. A sociedade celebra quem “rende”, “cria”, “inova”, “supera”, mas não enxerga a base afetiva, emocional e prática que permite que qualquer um se mantenha de pé. O mundo só funciona porque alguém — quase sempre uma mulher — está sustentando a engrenagem invisível que limpa, organiza, educa, consola e cura. E, ainda assim, o cuidado permanece oculto detrás de uma cortina de normalização. É o tipo de esforço que só aparece quando falta. Quando desmorona. Quando a rotina quebra porque quem sempre cuidou ficou doente, cansou ou simplesmente decidiu respirar.

O feminismo há décadas denuncia isso: o trabalho do cuidado é o que mantém a sociedade viva, mas é exatamente aquilo que ela mais desvaloriza. É um paradoxo cruel: tudo o que é indispensável se torna invisível. Tudo o que exige competência emocional, paciência, inteligência prática, resiliência e presença é tratado como natural, automático, instintivo. O discurso patriarcal transformou cuidado em destino, e depois, com a mesma mão, o reduziu a pouca coisa. Mas o cuidado é, na verdade, uma forma sofisticada de governar o mundo no cotidiano — governar pela sensibilidade, pela prevenção, pela conexão, pela gestão afetiva da vida.

E é por isso que falar de cuidado é falar de política. Não de políticas públicas apenas, mas das escolhas que moldam o que valorizamos, o que remuneramos, o que reconhecemos como trabalho e o que relegamos ao silêncio. Uma sociedade que não valoriza o cuidado não é apenas machista: ela é estruturalmente frágil. Ela se exaure, se brutaliza, se torna produtiva e emocionalmente analfabeta. A negligência com o cuidado transforma o viver numa sequência de urgências, crises, colapsos — porque ninguém pode sustentar eternamente aquilo que não é visto.

É também por isso que o cuidado virou pauta central dos movimentos feministas contemporâneos. Não basta lutar por igualdade no mercado de trabalho se aquilo que sustenta esse mesmo mercado continua sendo tratado como uma obrigação feminina “natural”. O cuidado precisa deixar de ser uma sombra para se tornar uma estrutura. Precisa ser reconhecido, dividido, politizado. Não como um peso, mas como uma inteligência social. Cuidar não é um talento; é uma tecnologia humana. Uma tecnologia que impede que a vida se desfaça.

Quando pensamos em assistência social, percebemos o quanto essa invisibilidade se torna perversamente institucionalizada. Profissionais que trabalham com idosos, crianças, pessoas em situação de rua, pessoas com deficiência, famílias vulneráveis — todos exercem funções que exigem formação emocional, preparo psicológico, capacidade de leitura social e compreensão profunda do humano. E, ainda assim, essa é uma das áreas mais precarizadas, subfinanciadas e tratadas como “vocação”, não como atuação política de primeira importância. O país que negligencia o cuidado institucional perpetua a desigualdade como destino e o sofrimento como rotina social.

E há um aspecto ainda mais profundo: a política do cuidado também é autoajuda — mas não aquela autoajuda superficial, que promete força infinita ou autossuficiência heroica. A verdadeira autoajuda está em reconhecer que ninguém se basta, que depender não é falha, que cuidar de si é um gesto tão político quanto cuidar do outro. E que o cuidado coletivo salva aquilo que a individualidade destrói.

Porque o medo de ser frágil é uma invenção de uma sociedade que idolatra a potência. O mundo precisa aprender a descansar, a pedir ajuda, a dividir responsabilidades, a admitir limitações, a criar redes de suporte reais e não apenas discursos inspiracionais. Cuidar também é estabelecer limites, rejeitar sobrecargas, desmontar a ideia de que amor exige exaustão. Cuidar de si é romper o ciclo de que só é valioso quem produz até quebrar.

O cuidado é tão poderoso que, quando negado, gera sintomas políticos: ódio, polarização, cansaço social, violência simbólica. A falta de cuidado anestesia empatia e fortalece discursos de brutalidade. Uma sociedade que não se cuida é uma sociedade que adoece — e, doente, passa a confundir destruição com coragem.

O cuidado, portanto, é mais do que um gesto cotidiano: é um projeto civilizatório. É a decisão de reorganizar a vida coletiva a partir da vulnerabilidade e não da força. Da interdependência e não da competição. Da presença e não da performance.

Talvez o grande desafio do nosso tempo seja este: resgatar o valor do cuidado não como obrigação feminina, mas como vocação humana. Entender que cuidar não diminui ninguém — expande. Não infantiliza — humaniza. Não aprisiona — liberta. O cuidado é aquilo que sustenta a parte mais nobre da vida: a capacidade de fazer existir o que sozinho não sobreviveria.

Se conseguirmos transformar essa consciência em prática, teremos mais do que um novo modelo social. Teremos um novo tipo de humanidade. Mais inteira. Mais justa. Mais lúcida. Uma humanidade que finalmente reconhece que sua força não está no que consegue dominar, mas no que consegue preservar. E talvez esse seja o começo de uma revolução que não se faz com armas, mas com presenças. Não com imposições, mas com vínculos. Não com heróis, mas com mãos comuns que sustentam, silenciosamente, o mundo.

Compartilhar.
Deixe Uma Resposta

Português do Brasil
Exit mobile version