Quando a miséria não é um acidente, ela se torna uma estratégia de poder.
Por Silver D’Madriaga Marraz
A pobreza, no imaginário oficial, costuma ser tratada como falha individual, acaso histórico ou consequência natural de um sistema competitivo. Mas essa narrativa confortável, amplamente reproduzida, serve menos para explicar a realidade e mais para justificar a sua continuidade. A verdade mais incômoda — aquela que governos, elites econômicas e aparelhos ideológicos preferem evitar — é que a pobreza não apenas é produzida, como também é mantida e administrada. A pobreza, em grande medida, funciona como um projeto político.
Há um poder estratégico em manter uma população à beira do desespero. A escassez não apenas fragiliza corpos; ela domestica consciências. Gente apertada por dívidas, fome, cansaço ou insegurança raramente encontra energia para questionar estruturas de poder. Quando a sobrevivência ocupa todas as horas do dia, não sobra tempo para rebeldia — e a apatia se transforma em ferramenta de controle social.
O projeto político da pobreza se sustenta em três pilares invisíveis e profundamente eficientes. O primeiro deles é a naturalização: a sociedade é ensinada a ver a miséria como parte do cenário, como se sempre tivesse sido assim. Quem nasce em bairros onde faltam saneamento, escolas e saúde é socializado a acreditar que essa precariedade é destino, não construção. Quanto mais naturalizada a pobreza, menos urgente parece combatê-la.
O segundo pilar é a culpabilização. Fabricou-se uma pedagogia da culpa: se você é pobre, é porque não se esforçou o suficiente. Se não ascende, é por incompetência, preguiça ou falta de mérito. É uma mentira confortável que absolve governos, empresas e instituições de suas responsabilidades. Transforma vítimas em autores da própria dor e transfere ao indivíduo aquilo que pertence ao coletivo. Nada é mais funcional ao poder do que convencer o oprimido de que ele é culpado pela opressão que sofre.
O terceiro pilar é a manipulação. A pobreza facilita votos de desespero, trocas clientelistas, dependência política. Programas sociais que deveriam ser porta de saída tornam-se moeda eleitoral, e promessas de última hora viram esperança comprada. A precariedade, quando convertida em capital político, perpetua a própria estrutura que produz desigualdade.
No entanto, há uma verdade que nenhum projeto de dominação consegue apagar: a pobreza não é uma sentença, é uma construção. E tudo o que é construído pode ser desmontado. O primeiro passo é romper com a narrativa que transforma desigualdade em destino. O segundo é recuperar a dimensão política da miséria e entender que combater a pobreza não é questão de caridade, mas de justiça.
A pobreza como projeto político só prospera enquanto acreditarmos que ela é inevitável. O que se exige — de nós, como sociedade — é coragem para enxergar o que sempre esteve diante dos olhos: não se trata de falta de recursos, mas de falta de interesse. Não se trata de ausência de soluções, mas de abundância de conveniências.
Quando um país decide que seus pobres deixarão de existir, eles deixam. Quando decide que permanecerão, eles permanecem. Entre essas duas escolhas, define-se não apenas o destino das pessoas, mas o caráter de uma nação. E talvez seja essa a reflexão mais urgente: o combate à pobreza começa quando reconhecemos que ela tem dono, endereço e propósito — e que o maior gesto revolucionário é retirar deles o benefício de nossa resignação.
