A maior prisão do nosso tempo é acreditar que precisamos ser extraordinários para merecer existir.
Por Silver D’Madriaga Marraz
Vivemos numa época em que a simples ideia de ser “comum” parece um fracasso. As pessoas acordam todos os dias sentindo que precisam ser notáveis, brilhantes, marcantes — como se a existência tivesse virado um concurso permanente. E, silenciosamente, cresce dentro de nós um medo tão peculiar quanto devastador: o medo de não ser extraordinário.
Esse medo não nasce espontaneamente. Ele é cultivado. Alimentado por métricas de curtidas, por gurus que vendem excelência, por algoritmos que celebram apenas extremos. Somos ensinados desde cedo que ser suficiente é praticamente um insulto. Que o valor humano está sempre em uma performance, e nunca no simples ato de estar vivo.
E, então, surge o paradoxo moderno: enquanto buscamos desesperadamente um brilho único, perdemos o essencial — a honestidade de sermos quem somos. E, como consequência, nos tornamos prisioneiros da comparação, da ansiedade, da sensação crônica de estarmos sempre aquém.
No fundo, o medo de não ser extraordinário é também o medo de não ser amado, de não ser visto, de não ser lembrado. A sociedade nos treinou a acreditar que a vida só tem sentido quando vira espetáculo, legado, impacto. Mas a verdade é mais suave — e, por isso mesmo, mais difícil de aceitar: a maioria das vidas é ordinária, e não há nada de errado nisso.
O extraordinário, tal como nos vendem, é uma narrativa de mercado. Uma fantasia útil para nos manter correndo, produzindo, comparando, consumindo. A vida real é feita de rotinas, repetições, silêncios, pequenas conquistas, quedas discretas e recomeços que ninguém vê. E talvez seja aí que a verdadeira grandeza se esconde: no fato de que continuamos, mesmo quando ninguém aplaude.
Ser extraordinário não deveria ser uma meta, mas um acidente — fruto de autenticidade, e não de exaustão. O extraordinário acontece quando você se alinha consigo mesmo, e não quando tenta caber num ideal que não é seu. O extraordinário nasce quando você abandona a corrida e decide caminhar com seus próprios pés, no seu próprio tempo.
A libertação começa quando você percebe que não precisa provar nada para existir. Que dignidade não exige espetáculo. Que ser comum é, de certa forma, um ato de resistência em um mundo que transforma pessoas em marcas e vidas em vitrines.
Não tema ser ordinário. Tema, isso sim, viver uma vida inteira tentando ser alguém que você não é, porque, no fim, o que nos salva não é a extraordinariedade, mas a verdade. E nada é mais raro — ou mais luminoso — que alguém que se permite ser inteiro sem precisar ser excepcional.
