Quando a fé vira produto e o sagrado se transforma em narrativa de controle

Por Silver D’Madriaga Marraz
Há séculos, construiu-se ao redor de Jesus uma engrenagem teológica que não apenas distorce sua mensagem, mas a transforma em mecanismo de governo, disciplina e culpa. A figura de um homem que caminhava entre marginalizados e inconformados, desafiando as estruturas de poder, foi convertida em propaganda religiosa; um símbolo moldado para sustentar instituições, justificar hierarquias e criar dependências afetivas travestidas de devoção.
O que a história institucionalizada chama de “sacrifício redentor” convém muito mais ao poder do que à espiritualidade. Não porque Jesus tenha “morrido por amor” numa fórmula mística que exige sangue para apaziguar um Deus sedento, mas porque ele viveu denunciando a própria lógica sacrificial que sustentava a religião de sua época. Não morreu para salvar ninguém: foi morto porque ousou afirmar que ninguém precisava ser salvo de um pecado original inventado para controlar a consciência humana.
Seu gesto mais revolucionário não foi morrer — foi insistir que Deus não era propriedade de sacerdotes, não residia em templos de pedra, não se vendia através de rituais ou ofertas. Deus, para ele, era presença viva em cada corpo, em cada rosto, em cada gesto de misericórdia. Essa mensagem era perigosa: dissolvia privilégios, ameaçava a economia do sagrado, retirava dos intermediários a posição confortável de árbitros da eternidade.
E assim surgiu uma narrativa conveniente: a ideia de que a dor purifica, de que o sangue compra perdão, de que a culpa aproxima do divino. A teologia do medo foi se consolidando — não como caminho espiritual, mas como ferramenta de governabilidade. Quanto mais indigno o indivíduo se sente, mais manipulável ele se torna. Quanto mais convencido de que nasceu errado, mais pronto estará para submeter-se a sistemas que prometem purificação.
Transformaram culpa em dogma. Tornaram o arrependimento uma espécie de contrato vitalício. A salvação virou moeda, barganha, passaporte para um céu condicionado. E Jesus, que abraçava prostitutas, conversava com rejeitados e recusava a lógica da pureza ritual, foi substituído por um Cristo domesticado, útil, obediente às estruturas que ele próprio enfrentou.
O espetáculo religioso prospera justamente porque exige silêncio. Silêncio diante das incoerências. Silêncio diante das opressões. Silêncio diante das leituras que reduzem a fé a mercadoria espiritual. Mas o silêncio que se espera não é o silêncio contemplativo — é o silêncio cúmplice, o silêncio confortável de quem não questiona, de quem não toca na ferida aberta entre espiritualidade e poder.
A verdadeira heresia, hoje, não é negar os dogmas; é ousar recuperar a potência subversiva da mensagem que foi apagada. Jesus incomodou não por prometer um paraíso, mas por anunciar um tipo de liberdade que não dependia de instituições, de ritos ou de intermediários. Ele desfez fronteiras, desmontou castas espirituais, desafiou a narrativa de que o humano precisa sofrer para merecer afeto divino.
Quando a religião vira espetáculo, o sagrado se esvazia e sobra apenas a liturgia da culpa. A fé deixa de ser caminho e se transforma em produto. A busca espiritual, que deveria libertar, passa a aprisionar. O que se chama “tradição” muitas vezes não passa de mecanismo de manutenção de poder.
Talvez a pergunta mais urgente não seja se Deus existe, mas quem lucra quando se afirma que você, por natureza, não é digno dele. Talvez a maior violência espiritual não seja a dúvida — seja a certeza imposta. E talvez a verdadeira redenção não esteja na dor, mas na recusa corajosa de aceitar a dor como destino obrigatório.
Recuperar a memória crítica de Jesus não é insultar a fé: é devolvê-la ao seu lugar mais autêntico — o da liberdade. O da dignidade. O do encontro humano que não exige penitência para existir. O da espiritualidade que não se alimenta de medo, e sim de consciência.
No fim, a pergunta permanece:
quem seria Jesus hoje — o cordeiro sacrificial ou o homem que rasgaria, mais uma vez, o véu do templo?
