Quando a exaustão política encontra a plateia perfeita para o ressentimento.
Por Silver D’Madriaga Marraz
A democracia brasileira vive um cansaço que não é apenas institucional; é emocional, ético e simbólico. Um cansaço que atravessa cidadãos, corrói a confiança e alimenta um ambiente onde o ódio encontra mais audiência do que a lucidez. Não se trata apenas de desgaste político, mas de um fenômeno social que redefine a forma como nos relacionamos com o mundo: estamos cansados, e o cansaço tornou-se terreno fértil para a manipulação.
Há décadas, o país vive uma sucessão de crises que parecem se sobrepor sem jamais se resolver: corrupção, desigualdade, insegurança, desesperança econômica e um sistema político que se comunica mais por escândalos do que por projetos de futuro. A soma de tudo isso cria uma espécie de fadiga democrática. Não é que as pessoas rejeitem a democracia — muitas vezes, elas apenas não conseguem mais reconhecê-la no caos que a envolve. A exaustão gera distorções: aquilo que exige diálogo passa a ser visto como lentidão; aquilo que exige pluralidade passa a ser percebido como fraqueza; aquilo que exige negociação passa a ser tratado como traição.
E esse cansaço, quando não compreendido, se transforma em ressentimento. E o ressentimento, quando não tratado, se transforma em espetáculo.
O ódio não entrou na política por acidente. Ele foi convidado, embalado, amplificado e servido ao público como entretenimento moral. A polarização funciona como palco — e cada lado acredita que seu adversário é menos um cidadão e mais uma ameaça existencial. O ódio simplifica, reduz, entrega respostas rápidas para problemas complexos. Ele exige pouca reflexão, mas oferece sensação imediata de pertencimento. Em tempos de cansaço, isso é sedutor.
O problema é que o ódio não apenas destrói o debate; ele destrói a capacidade de imaginar o amanhã. Uma sociedade que odeia não projeta futuro, projeta inimigos. E, quando todos são inimigos, ninguém é cidadão. A democracia perde terreno quando a lógica do espetáculo substitui a lógica da construção coletiva.
A mídia, as redes sociais e a indústria da indignação compreenderam essa dinâmica rapidamente. O que gera engajamento não é o entendimento, mas a explosão; não é o argumento, mas a provocação; não é a verdade, mas o escândalo. O ódio tem mais fluxo, mais cliques, mais audiência. Tornou-se não apenas uma arma política, mas um produto cultural. E, como todo produto, precisa ser alimentado, reciclado e distribuído.
Politicamente, isso gera um paradoxo cruel: a democracia, que depende de solidariedade, tolerância e debate, passa a operar num ambiente emocional que privilegia o oposto — a competição, o ataque, a suspeita. O espaço público se transforma num campo de batalha simbólico, e a democracia se vê obrigada a sobreviver num clima que é, por definição, hostil a ela.
Filosoficamente, isso revela algo ainda mais profundo: estamos assistindo ao enfraquecimento do sentido de comunidade. Quando o indivíduo se sente sozinho, incompreendido e ameaçado, ele busca pertencimento em grupos que lhe ofereçam identidade. E, muitas vezes, esses grupos se estruturam sobre a aversão ao outro. O ódio passa a ser a cola que mantém coletividades frágeis unidas. É um vínculo pobre, mas eficaz.
O caminho para sair desse labirinto não é simples. Exige recuperar a capacidade de diálogo sem ingenuidade, reconstruir a confiança sem negar os erros históricos e fortalecer instituições sem transformá-las em fetiches. Exige, sobretudo, reconhecer que o cansaço não é fraqueza: é um sintoma. E sintomas existem para que a doença não avance silenciosamente.
A democracia cansada ainda pode ser restaurada — mas não enquanto o ódio continuar sendo o espetáculo preferido da plateia. O desafio é desativar o palco, não alimentar o show. Porque toda vez que a política vira entretenimento, a democracia vira risco. E o país que se acostuma a viver exausto acaba se esquecendo de que a liberdade, para existir, exige vigilância e consciência, não cansaço e estardalhaço.
A democracia não morre quando é atacada; ela morre quando o povo, esgotado, deixa de defendê-la. E é justamente por isso que a exaustão precisa ser compreendida — para que não seja, mais uma vez, instrumentalizada por aqueles que lucram com o espetáculo do ódio.

