Conquistas de Ana Maria e Emicida expõe o mito da meritocracia no Brasil
* com a contribuição preciosa de Ana Soàres
No Dia da Consciência Negra, dois acontecimentos recentes se encontram num mesmo ponto de partida: o Brasil que a gente sonha e o Brasil que ainda insiste em dificultar o óbvio. De um lado, Ana Maria Gonçalves, primeira mulher negra eleita para a Academia Brasileira de Letras.
Do outro, Emicida, recebendo o título de Doutor Honoris Causa pela UFRGS.
Dois nomes gigantes. Duas conquistas simbólicas. Mas, acima de tudo, rachaduras lindas num muro que tentou por séculos impedir que pessoas negras chegassem até aqui.
E é impossível não se perguntar:
quantas Anas Marias e quantos Emicidas ficaram pelo caminho?
E quantos seguem sem sequer saber que esses passos aconteceram — ocupados demais tentando sobreviver?
Representatividade que transforma — e que falta ser vista
A entrada de Ana Maria Gonçalves na ABL não é só um acontecimento institucional.
É uma imagem potente: uma mulher negra rompendo um silêncio histórico. É a 13a mulher a ocupar uma cadeira na ABL e a 1a mulher negra, desde a fundação da instituição em 1896. Sua posse foi em 07 de novembro de 2025. Ou seja, 129 anos depois. Precisa dizer mais?
Aos seis anos, Ana Maria escreveu uma cartinha para a professora Elizabeth — guardada por quase 50 anos. Trabalhou por 15 anos em publicidade antes de abandonar a área para se dedicar à literatura. Publicou “Ao lado e à margem do que sentes por mim” e, depois, o romance “Um defeito de cor”, vencedor do Prêmio Casa de las Américas (2007). A obra, escrita ao longo de cinco anos, tornou-se referência para compreender a formação do Brasil ao narrar a vida de Kehinde, personagem inspirada em Luiza Mahin.
Em 2024, o livro virou enredo da Portela no Carnaval do Rio. Ana Maria também é roteirista, dramaturga, professora de escrita criativa e sócia-fundadora da Terreiro Produções. Viveu oito anos nos Estados Unidos, onde publicou contos, deu cursos sobre questões raciais e foi escritora residente nas universidades de Tulane, Stanford e Middlebury.
Hoje, ocupa com louvor uma das cadeiras mais simbólicas da literatura brasileira.
Quantas meninas negras não escrevem cartas, poemas, notas escondidas em cadernos — e nunca descobrem que isso pode se tornar profissão?
Quantas não vão ouvir falar da ABL por estarem ocupadas demais lidando com violências, ausência de oportunidades, falta de tempo, falta de tudo?
Ana Maria carrega uma resposta silenciosa:
o talento sempre existiu, o que faltou foi deixarem entrar.
Emicida: intelectual do povo, cientista da vivência
O Honoris Causa de Emicida pela UFRGS diz algo que a academia sempre soube, mas resistiu em aceitar:
intelectualidade não nasce só na universidade — nasce no território.
Emicida lapidou pensamento na rua, no improviso, no corre, nas ausências e nas presenças da quebrada. É rapper, compositor, produtor musical e desenhista. Formou-se em desenho pela Escola Arte São Paulo e iniciou a carreira como quadrinista, enquanto escrevia poesias e participava de batalhas de freestyle — onde ganhou o apelido “Emicida”.
Seu single independente “Triunfo” o projetou além de São Paulo e abriu caminho para mixtapes e EPs lançados pela Laboratório Fantasma, produtora criada com o irmão Fióti. Emicida renovou o rap nacional ao misturar crítica social com influências do pop, da cultura brasileira e de gêneros como samba, colaborando com artistas como Elza Soares, Martinho da Vila e Criolo.
Suas letras unem autobiografia e denúncia, abordando racismo, desigualdade e experiências pessoais. Também é autor dos livros Amoras e E Foi Assim que Eu e a Escuridão Ficamos Amigas, além do projeto AmarElo, que virou documentário na Netflix sobre a história e os desafios da população negra no Brasil.
A proposta do nome de Emicida para o Honris Causa veio do Coletivo de Estudantes Negros da Pedagogia (Cenp), em parceria com o projeto UFRGS Negra, o Movimento Negro Unificado (MNU) no Rio Grande do Sul e o Diretório Central de Estudantes (DCE), sendo encaminhada pela Faculdade de Educação (Faced).”
A cerimônia acontece no dia 29 de novembro, às 18h, no Salão de Atos da UFRGS, em Porto Alegre, com transmissão ao vivo pelo canal da UFRGS TV no YouTube. A decisão foi aprovada pelo Conselho Universitário (Consun) neste mês.
O Honoris Caus de Emicida, sobretudo, é um reconhecimento de que o saber negro, periférico, comunitário é saber legítimo — ciência, memória, arquivo. E aí mora outro ponto importante: muitos dos jovens que se inspiram nele não vão ver essa homenagem, porque continuam tentando atravessar a realidade que o impede de sonhar.
Educação: caminho, ferida e espelho da desigualdade
Os números são duros, mas precisam ser ditos com cuidado — porque por trás deles existem vidas reais.
📌 Pretos e pardos: 12% com nível superior.
📌 Brancos: 25,8%.
Mesmo com o crescimento de cinco vezes no ensino superior entre a população negra, o abismo continua do mesmo tamanho.
E ele começa antes da universidade:
- mais de 40% dos negros com 25 anos ou mais não concluíram o ensino fundamental;
- entre brancos, esse índice é de 29,2%.
Esses dados não são estatísticas isoladas.
Eles são aquilo que impede que tantas meninas e meninos descubram suas potências.
Não é falta de mérito.
É falta de acesso, de permanência, de condições reais para chegar e ficar.
O mito da meritocracia cai por terra
Histórias como as de Ana Maria e Emicida podem ser usadas como troféu para justificar a meritocracia:
“Olha lá, deu certo!”
Mas a verdade é que:
👉 mérito só pode ser comparado quando o ponto de partida é, pelo menos, semelhante.
👉 No Brasil, nunca foi.
“Se eu tivesse nascido três quadras para frente, talvez minha história fosse outra”, já disse Emicida — numa síntese perfeita de como território, raça e oportunidade moldam destinos.
Celebrar conquistas individuais é importante.
Usá-las para esconder a estrutura — nunca.
Um país que ainda dificulta o topo
Em cursos como Medicina, a desigualdade é quase um mapa do Brasil profundo:
- 75,5% dos graduados são brancos.
- Apenas 2,8% são pretos.
- 19,1% pardos.
E isso não muda enquanto pessoas negras precisarem, antes de tudo, vencer a fome, a violência, a ausência de escolas de qualidade, a falta de renda para pagar a faculdade, a distância entre casa e campus.
A linha de chegada é a mesma.
A linha de partida, não.
O desafio que permanece
Apesar dos avanços, ainda corremos em pistas diferentes.
A democratização da educação avança devagar demais para quem espera há séculos.
Sem políticas públicas fortes, permanência estudantil, combate ao racismo, investimento em educação básica e valorização de intelectuais negros, vamos continuar comemorando exceções em vez de multiplicar oportunidades.
Dados que ajudam a entender o quadro
- Pretos e pardos: 12% têm ensino superior; brancos: 25,8% (IBGE, 2022).
- Em Medicina, apenas 2,8% dos concluintes são pretos (Censo da Educação Superior).
- Mais de 40% dos negros adultos não concluíram o ensino fundamental (Alma Preta/IBGE).
- Em regiões periféricas, menos de 7,5% dos moradores têm diploma universitário.
- 34% dos estudantes negros estão no ensino superior privado; entre brancos, 51%.
Caminhos possíveis
Se quisermos um país mais justo, não basta celebrar símbolos.
É preciso:
- políticas públicas de acesso e permanência à educação e cultura;
- financiamento estudantil acessível e antirracista;
- incentivo à pesquisa e produção intelectual negra;
- fortalecer a escola pública;
- garantir que meninas e meninos negros possam sonhar e permanecer sonhando.
Ana Maria e Emicida não são exceções porque são extraordinários — apesar de serem.
São exceção porque o Brasil ainda não permite que suas potências floresçam em escala.
No fundo, essas duas conquistas contam uma mesma história:
o talento sempre existiu. O que ainda falta é acesso, respeito e portas realmente abertas.
