O 20 de novembro revela um país que celebra a consciência negra com discursos prontos, mas continua adormecido diante do racismo que pratica todos os outros dias.

Por Silver D’Madriaga Marraz
O Dia da Consciência Negra deveria ser um marco de lucidez coletiva. No entanto, ano após ano, ele parece funcionar mais como um espelho incômodo que revela a contradição profunda do país: celebra-se a luta, mas normaliza-se a opressão; homenageiam-se os mortos, mas negligenciam-se os vivos. A data expõe, de forma quase didática, a distância entre o discurso antirracista que se repete em público e as práticas que, no cotidiano, seguem sustentando um país desigual, seletivo e excludente.
O Brasil ainda trata o racismo como um episódio — e não como uma estrutura. Quando chega novembro, pipocam campanhas publicitárias, discursos governamentais, projetos escolares que duram 24 horas, e influencers que, por um dia, encontram uma maneira conveniente de se posicionar. Ao mesmo tempo, milhares de pessoas negras continuam ocupando os lugares historicamente empurrados para elas: os mais mal pagos, os mais violentos, os mais vigiados, os mais vulneráveis. O abismo social que separa negros e brancos nunca precisou de uma data para existir; ele está presente na geografia das cidades, na distribuição de renda, no sistema penal, na educação, na saúde e no acesso real ao poder.
O 20 de novembro, portanto, não é um feriado: é um termômetro moral. Ele mede o quanto estamos dispostos a admitir a verdade que evitamos. E essa verdade é simples, ainda que desconfortável: grande parte do que chamamos de “antirracismo” no Brasil é performático. É um gesto estético, um posicionamento calculado, uma imagem pública cuidadosamente administrada. Há quem exiba uma postura progressista, enquanto mantém — na prática — comportamentos, privilégios e hierarquias que reforçam a mesma lógica que diz combater. É a hipocrisia convertida em virtude.
O pensamento crítico exige enfrentar um paradoxo: um país que se orgulha de uma suposta “harmonia racial” é o mesmo país que mata, encarcera e empobrece corpos negros em proporções massivamente superiores. Não se trata de opinião; são dados. A ficção da “democracia racial” — tão repetida quanto confortavelmente aceita — continua sedando consciências, dificultando que muitos reconheçam que o racismo não é um acidente histórico, mas um projeto que continua produzindo efeitos.
Do ponto de vista filosófico, isso revela uma escolha coletiva: preferimos a narrativa à realidade. A sociedade brasileira mantém um pacto silencioso que alivia a culpa, mas perpetua o problema. Aceita-se o discurso antirracista desde que ele não exija mudança de comportamento, redistribuição de poder ou desconforto social. É o antirracismo que cabe na vitrine de novembro, mas não na agenda concreta de dezembro a outubro.
Politicamente, isso é ainda mais grave. O Estado brasileiro frequentemente reage ao racismo com ações simbólicas, não estruturais. Sem enfrentar o genocídio da juventude negra, a sub-representação em cargos de liderança, o racismo institucional nas forças de segurança, a precariedade das escolas das periferias e a desigualdade de acesso à terra, o 20 de novembro se torna apenas uma data elegante, incapaz de alterar a base que sustenta o problema. O risco é transformar a consciência negra em produto cultural, esvaziando sua radicalidade histórica.
Mas há um ponto irrefutável: toda transformação nasce do incômodo. E o incômodo que o 20 de novembro produz pode ser fértil, desde que reconhecido e trabalhado com honestidade. A data carrega um chamado ético — não para celebrar, mas para confrontar. Confrontar o racismo que atravessa instituições, comportamentos e subjetividades. Confrontar privilégios que muitos consideram naturais. Confrontar a violência que, para muitos, continua sendo invisível.
Ser antirracista é estar disposto a perder alguma coisa: conforto, privilégios, ilusões. É um ato político, filosófico e moral que exige coerência e prática. E é aqui que o 20 de novembro pode recuperar sua força: não como o dia de “pensar sobre racismo”, mas como lembrete de que um país inteiro precisa aprender a enxergar aquilo que escolheu não ver.
Enquanto a sociedade brasileira tratar o antirracismo como cerimônia e não como compromisso, o 20 de novembro seguirá sendo a vitrine de uma consciência emprestada. A verdadeira mudança começa quando a data deixa de ser um evento e passa a ser um critério de vida. Porque só quando reconhecermos o que realmente somos, poderemos construir, com seriedade, o que ainda não conseguimos ser.
