Estamos caminhando para a reta final do mês de novembro, mês esse que é celebrado o dia da Consciência Negra.
O Brasil foi o país que mais recebeu africanos nas Américas e o último a abolir a escravidão. Estamos em 2025 e ainda sentimos, no cotidiano, o gosto amargo da colonização.
Durante muito tempo, racismo era tratado apenas como racismo, sem categorias ou aprofundamentos. Hoje, graças a estudos e pesquisas, conseguimos compreender os diversos desdobramentos desse tipo de preconceito racial.
Quando o erro vira padrão
Falando em dados, há um número alarmante de pessoas negras presas por engano, sejam homens ou mulheres. E não se trata de algo recente. É um histórico de erros e negligências que se repete ao longo do tempo.
Isso acontece porque, para muitos, pessoas pretas não são vistas de verdade. Somos reduzidos à pele e ao cabelo. Não se lembram da cor dos nossos olhos, do formato dos lábios ou do nariz. Para uma parte da sociedade, ser preto não é algo individual. Um preto vira todos.
Tecnologia que exclui
Hoje, o uso de inteligência artificial e outras tecnologias é cada vez mais comum em processos de reconhecimento e segurança. O que deveria ser ferramenta de apoio se transforma, na prática, em um inimigo para pessoas pretas.
É sobre isso que precisamos falar quando mencionamos o racismo algorítmico.
De forma resumida, esse tipo de racismo está inserido nos sistemas de inteligência artificial e nos próprios algoritmos. Mesmo funcionando de forma automática, esses sistemas reproduzem e alimentam preconceitos históricos, gerando consequências graves para a população negra.
Se a sociedade insiste em dizer que preto é tudo igual, a IA passa a agir da mesma forma.
Reconhecimento facial e abordagens por engano
Já existem diversos casos registrados de prisões e abordagens equivocadas baseadas em sistemas de reconhecimento facial. No ano passado, um episódio especialmente constrangedor envolveu a psicóloga Daiane Mello.
Durante uma conferência de psicologia, mesmo com sua identificação visível, Daiane foi abordada por policiais no evento.
“Nós sabemos que não é você, mas precisamos cumprir o protocolo”,
disse um agente do programa Segurança Presente.
No sistema de reconhecimento facial, a imagem da psicóloga foi associada a uma mulher com mandado de prisão em aberto. Mesmo com diferenças físicas evidentes, Daiane precisou apresentar documentos para ser liberada.
Quem pode ser confundido?
O questionamento é inevitável: ninguém confunde pessoas brancas dentro de um padrão, ainda que muitas tenham características físicas semelhantes entre si. Essas pessoas existem socialmente, têm sua individualidade reconhecida e validada.
Um branco não vira todos os brancos.
Já o negro…
Mesmo com todas as variações de tom de pele, corpo e cabelo, sempre há alguém que insiste em dizer que somos parecidos com alguém que não tem absolutamente nada a ver conosco.
A pauta racial não é sazonal
Neste mês de novembro, o convite é para refletir sobre as questões raciais e, principalmente, reforçar que essa pauta precisa de visibilidade durante todo o ano. Afinal, o racismo não dorme e não descansa.
Como dizia o saudoso Malcolm X:
“Se você não cuidar, os jornais farão você odiar as pessoas que estão sendo oprimidas e amar as pessoas que estão oprimindo.”
