São Paulo respira um ar diferente nesta noite de segunda-feira, 24 de novembro. Algo que se aproxima do encontro entre memória e possibilidade, entre o grito ancestral e a invenção de novos caminhos. Na Sala São Paulo lotada, o Prêmio Potências! 2025 dá início à sua quinta edição reafirmando aquilo que a Revista Pàhnorama defende desde sua fundação: o protagonismo preto não é tendência, é estrutura. É força criativa, é produção de sentido, é transformação política, cultural e estética no Brasil.

A cada nome anunciado, a plateia parece reconhecer que este não é apenas um prêmio. É um espaço simbólico de reparação, visibilidade e reconhecimento. E é também uma resposta direta a um país em que somente 18 por cento dos cargos de liderança nas indústrias criativas são ocupados por pessoas negras, segundo o último Mapeamento da Cultura Brasileira produzido pelo Ministério da Cultura. Em meio a esse cenário, eventos como o Potências! Funcionam como contraponto e como farol.

No palco, artistas, criadores, executivos e comunicadores constroem uma narrativa comum: a de que o talento preto sempre existiu, sempre produziu e sempre definiu rumos. O que faltava era o país olhar de volta com responsabilidade e respeito.

A celebração de quem pavimenta caminhos

O tema deste ano, A celebração da voz negra, alcança seu auge quando Péricles sobe ao palco para receber a homenagem pelos seus 40 anos de carreira. Ele fala pausadamente, como quem carrega no peito um legado inteiro.

“Receber essa homenagem tem um peso muito grande pra mim. A música sempre foi o meu caminho, mas também a forma que encontrei de honrar quem veio antes e abrir espaço pra quem está chegando. Ser reconhecido num prêmio que celebra a força da nossa comunidade preta é especial demais. É um lembrete de que a nossa voz importa, de que seguimos construindo e ocupando novos lugares. Fico feliz de fazer parte dessa história.”

O público aplaude de pé. Não é sobre nostalgia. É sobre a continuidade de uma linhagem que não aceita mais ser colocada às margens.

Julio Beltrão, CEO e idealizador do Potências!, reforça essa ideia em um discurso firme e caloroso. Segundo ele, a premiação é uma resposta direta ao silenciamento histórico, mas também uma plataforma para o futuro.

“Quando reconhecemos profissionais e artistas negros, reforçamos ideias, abrimos caminhos e estimulamos que mais pessoas ocupem espaços de destaque. O Prêmio Potências! Nasceu desse desejo de celebrar narrativas que, historicamente, foram silenciadas e de mostrar que talento, criatividade e excelência sempre fizeram parte da nossa comunidade. Cada edição confirma que estamos construindo algo que vai muito além de uma premiação: estamos fortalecendo redes, ampliando oportunidades e criando novas referências para o país.”

Os nomes que moldam narrativas e movem o país

Em 13 categorias, artistas e profissionais que impactaram o cenário cultural, digital, social e midiático ao longo de 2025 são reconhecidos. São nomes que movimentam discussões, influenciam estéticas, pautam comportamento e expandem repertórios.

Entre os premiados:

● Ajuliacosta como Artista Revelação
● Gaby Amarantos com Música do Ano, por Foguinho, do álbum Rock Doido
● Nicolly Martins como Creator do Ano
● Zé Ricardo como Profissional do Ano
● Realezas Negras, da agência Gana, como Campanha do Ano
● Thiago Oliveira e Kenya Sade como Apresentadores do Ano
● Lucas Leto, vencedor de Ator Coadjuvante
● Alice Carvalho, vencedora de Atriz Coadjuvante
● Seu Jorge e Bella Campos como Ator e Atriz do Ano
● Rodrigo Pantera como Atleta do Ano
● Gilberto Gil como Personalidade do Ano
● Liniker e Jota.pê como Artistas do Ano

É um mosaico que revela a amplitude da criação preta no Brasil de hoje. Do audiovisual às redes sociais, do fisiculturismo à música, o prêmio evidencia que a presença negra não é unidimensional. É múltipla, expansiva e inegociavelmente potente.

Parcerias que movem estruturas

O crescimento do prêmio também se reflete no número de marcas parceiras que o apoiam em 2025. Empresas como Fenty Beauty, TikTok, Fiat, Billboard Brasil, Johnnie Walker, Gol e Salon Line se unem a políticas públicas de incentivo cultural para sustentar a iniciativa. O ecossistema que se forma mostra que diversidade não pode ser apenas discurso; precisa de investimento, compromisso e continuidade.

Uma noite que atravessa a técnica, a estética e o afeto

As performances da noite são um espetáculo à parte. Péricles, Rael, Karol Conká, Jota.pê, Duquesa, Jude Paula e Kenan e Kel sobem ao palco com apresentações que fazem a plateia alternar entre lágrimas e celebração, entre o silêncio respeitoso e o grito de euforia.

A apresentação conduzida por João Pimenta e Rita Batista costura esse grande enredo com leveza, humor e representatividade. É televisão preta, ao vivo, pulsando.

A transmissão pela DiaTV e pelo PodPah garante que milhares de pessoas em todo o país acompanhem a celebração em tempo real, reforçando o papel do prêmio como evento cultural e midiático de grande alcance.

O que está em jogo quando celebramos a voz preta

O Prêmio Potências! 2025 não é só uma festa. É um país sendo convocado a olhar para si. Em um Brasil que ainda registra desigualdade salarial de mais de 40 por cento entre trabalhadores brancos e negros, segundo o IBGE, reconhecer excelência preta é uma forma de enfrentar uma ferida histórica com ação, não com retórica.

É por isso que o Potências! Se firma como um dos eventos mais relevantes do calendário cultural. Ele não inaugura discussões, mas fortalece as que já existem. Ele não cria protagonistas, mas ilumina aqueles que já constroem, diariamente, o país que queremos ver.

A pergunta que fica, depois que as luzes da Sala São Paulo se apagam, é simples e urgente:
se a voz preta é a base da cultura brasileira, por que ainda precisamos lutar tanto para que ela seja vista, ouvida e legitimada?

A resposta não cabe apenas em novas edições de prêmios. Ela cabe em escolhas políticas, institucionais, afetivas e estéticas. Cabe em cada espaço que abrimos, em cada oportunidade que criamos, em cada reconhecimento que se transforma em porta para outra pessoa preta passar.

Porque celebrar é importante. Mas transformar é necessário.

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Ana Soáres é professora, pedagoga, jornalista, editora-chefe e fundadora-presidente da Revista Pàhnorama. Com mais de 25 anos de atuação na imprensa, construiu uma trajetória marcada pelo jornalismo crítico, independente e comprometido com a democracia, a diversidade e os direitos humanos. Atua nas áreas de política, cultura e sociedade. É referência em narrativas que dão voz a quem historicamente foi silenciado, unindo rigor jornalístico, sensibilidade social e visão estratégica de comunicação.

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