Quando o mundo endurece, quem não aprende a sentir vira sobrevivente

Por Silver D’Madriaga Marraz
Há uma sensação silenciosa, quase epidêmica, de que a ternura está desaparecendo entre nós. Não se trata de nostalgia barata nem de saudosismo moralista, mas de um fato que se revela nos pequenos gestos do cotidiano: a pressa que atravessa conversas, o cansaço que esvazia relações, o medo de parecer frágil, a ironia como defesa permanente. Tornamo-nos especialistas em sobreviver, mas amadores em acolher. E, no entanto, é a ternura — essa habilidade quase artesanal de tratar o outro com delicadeza — que sustenta a humanidade quando tudo o mais falha.
O desaparecimento da ternura não acontece de forma abrupta; ele se infiltra devagar, como ferrugem nas dobradiças do convívio. A tecnologia nos aproximou fisicamente, mas distanciou emocionalmente. Dialogamos por atalhos, reagimos com emojis, substituímos presença por sinal de internet. Convites para a intimidade afetiva parecem sempre em atraso, como se o cuidado exigisse doação demais para uma sociedade exausta. As pessoas apertam o passo, não porque têm para onde ir, mas porque não sabem como ficar.
E há algo ainda mais profundo: confundimos ternura com fraqueza. Vivemos um tempo que idolatra dureza, competitividade, autossuficiência. Em nome da sobrevivência emocional, criamos cascas cada vez mais espessas. Só que essa blindagem, que prometia proteção, nos tornou inócuos diante da dor alheia. Não percebemos que só quem é terno de verdade tem coragem — coragem de se expor, de se afetar, de permitir que o outro o atravesse.
O desaparecimento da ternura também é um processo político. Sociedades violentas formam indivíduos defensivos. Uma população esmagada pela desigualdade, pela insegurança e pela precarização constante tende a viver em estado de alerta. Nesse ambiente, o toque cuidadoso se torna escasso, e o afeto vira privilégio. Nas periferias, onde a luta é cotidiana, o gesto terno sobrevive como ato de resistência: mães que protegem filhos, vizinhos que se apoiam, gente que divide o pouco que tem. A ternura, aqui, não é romantização; é sobrevivência coletiva.
Mas há outro aspecto, igualmente relevante: o autoabandono. À medida que nos tornamos emocionalmente desidratados, deixamos de oferecer aos outros aquilo que já não sabemos oferecer a nós mesmos. Ternura não é só gesto externo; começa na forma como tratamos os nossos próprios fracassos, medos e quedas. Quando alguém se violenta internamente — com cobranças abusivas, expectativas impossíveis, autopunição contínua — dificilmente consegue sustentar gestos de gentileza no mundo.
No entanto, apesar de tudo isso, a ternura não morreu. Ela apenas se escondeu, retraída, esperando espaço. Basta observar quando alguém desaba em público e outro se aproxima para segurar o ombro; quando, no meio da dureza do dia, alguém oferece água, um abraço, um minuto de escuta verdadeira. Esses pequenos acontecimentos lembram que a humanidade ainda pulsa, embora mais tímida. A ternura é como uma planta que insiste em romper o asfalto: não precisa de permissão, só de frestas.
Recuperar a ternura não é tarefa rápida. É um trabalho íntimo e político. Significa desmontar uma lógica social que celebra o individualismo extremo e devolver valor ao encontro. Significa reaprender a dizer “sinto muito”, “estou aqui”, “você não precisa ser forte o tempo todo”. Significa permitir que o outro nos veja, sem máscaras a todo momento. É escolher, conscientemente, não transformar cada relação em campo de batalha.
E talvez a grande provocação seja esta: a ternura não desapareceu do mundo; desapareceu das decisões diárias que tomamos sem notar. A pergunta não é onde ela foi parar, mas em que momento deixamos de praticá-la. O caminho de volta começa no detalhe — um gesto, um cuidado, um silêncio que escuta — e se expande até contaminar, positivamente, as estruturas maiores da sociedade.
No fim, a ternura sempre retorna porque ela é o que sustenta o que há de mais humano em nós. O que precisamos, antes de tudo, é relembrar sua existência. Não como um luxo emocional, mas como uma urgência ética. Porque sem ternura, sobrevivemos; mas com ela, finalmente, vivemos.
