Por que a sociedade contemporânea parece cada vez mais fascinada pelos algozes — e menos atenta às vítimas?

Por Silver D’Madriaga Marraz
Nos últimos anos, algo inquietante se instalou no imaginário coletivo: criminosos — reais, fictícios ou híbridos — passaram a ocupar o centro das narrativas culturais. Antes símbolos de rupturas éticas profundas, eles agora surgem envoltos em camadas dramáticas, trilhas sonoras envolventes, atuações brilhantes e discursos que despertam curiosidade, excitação e, perigosamente, admiração. O algoz virou protagonista; a violência, espetáculo; e o crime, produto consumível.
Não se trata de negar a complexidade humana nem de reduzir a arte ao maniqueísmo. Trata-se de reconhecer o deslocamento tóxico que ocorre quando a violência é estetizada, romantizada e servida ao público como entretenimento puro. Nesse processo, a figura do criminoso deixa de funcionar como alerta social e se transforma em mercadoria narrativamente sedutora. A dramaturgia se curva à lógica do consumo, e, ao fazê-lo, reconfigura moralidades: o fascínio passa a ser confundido com empatia, o interesse, com identificação; e o espetáculo, com verdade.
Esse fenômeno se intensifica quando grandes atores — rostos amados, vozes reconhecidas, imagens respeitadas — encarnam assassinos, traficantes ou abusadores. A fronteira ética se embaralha. O público celebra a performance, mas o cérebro mistura camadas: aquilo que deveria causar repulsa passa a ser contemplado sob o charme da representação. A violência, deslocada para o território da arte, ganha brilho, textura, glamour — e compreensão indevida.
O resultado aparece de forma escancarada nas redes sociais. Personagens que deveriam ser ícones do fracasso social se tornam queridinhos da internet: ganham memes, fãs-clubes, fanarts, discursos emocionados sobre suas “dores”, “motivações” e “trajetórias de superação”. O que era para ser crítica vira torcida. O que era denúncia torna-se espetáculo. O que deveria provocar reflexão dissolve-se em entretenimento descartável.
Enquanto isso, as vítimas desaparecem. Viram sombras, ruídos ao fundo, instrumentos para justificar o arco emocional do algoz. Sua dor é apagada pela epopeia dramática de quem as feriu. O crime, que deveria ser confrontado, passa a ser celebrado. E quando a sociedade começa a se comover mais com o sofrimento do criminoso do que com a devastação causada por ele, algo essencial se corrompe: a bússola moral.
A nova celebridade: o criminoso
A cultura digital levou esse fenômeno a um novo patamar. Influenciadores criminosos acumulam milhares de seguidores após cometerem delitos. Assassinos e estelionatários viram documentários premiados, podcasts de grande audiência, minisséries de alto orçamento. Plataformas disputam os direitos de suas histórias, e grandes produtoras tratam suas biografias como ouro narrativo. O transgressor se transforma em marca. O crime, em entretenimento.
E, no centro de tudo, permanece a mesma ironia cruel: nunca se fala da vítima. Ela é, no máximo, um detalhe colateral que não rende engajamento. Neste contexto, a indústria cultural compreende a fórmula — e a explora com precisão. A audiência cresce, o lucro aumenta, a narrativa se repete. O criminoso passa a ser celebrado não por sua capacidade de reflexão, mas por sua capacidade de gerar atenção.
A lógica do espetáculo e sua erosão moral
Guy Debord já advertira: tudo se transforma em espetáculo. A indignação se converte em performance; a violência, em produto. Nesse novo cenário, o criminoso deixa de ser um símbolo de ruptura ética e passa a ser tratado como personagem fascinante, digno de compreensão e debate sentimental. A erosão moral se dá de maneira lenta, silenciosa, cotidiana. Quase imperceptível — até ser tarde demais.
Quando se humaniza o algoz enquanto se silenciam as vítimas, não se exerce compaixão: se relativiza o crime. Quando se reconta a vida do criminoso com milhões de investimento enquanto se ignora a reparação dos danos que ele causou, não se promove cultura: se cultiva cinismo. Quando o país acompanha o “mau” não porque deseja justiça, mas porque deseja narrativa, a ética se dobra ao entretenimento.
A normalização do desvio
O perigo real não está apenas no que se mostra, mas no que se normaliza. A glamourização do criminoso cria precedentes culturais devastadores. Jovens, especialmente os mais vulneráveis, passam a enxergar o crime como rota de ascensão rápida, como palco possível, como fonte de notoriedade — ainda que efêmera. Criminosos reais percebem: a fama pode chegar antes da punição, e muitas vezes sobreviver a ela. Assim, a lógica implícita se torna macabra: para ser lembrado, destrua; para ganhar destaque, viole; para existir, fira.
A engrenagem que alimenta o monstro
A mídia não constrói esse fenômeno sozinha, mas o amplifica. E o público, voraz por narrativas de choque, o sustenta. Algoritmos privilegiam o que causa impacto, não o que provoca reflexão. E, nesse ciclo, a sociedade se torna cúmplice involuntária da distorção moral que consome.
Crime gera audiência.
Audiência gera lucro.
Lucro gera novos produtos sobre o crime.
E o criminoso segue, inevitavelmente, como protagonista — não por mérito, mas por rentabilidade.
O que se perde no meio do espetáculo
Não se trata de censura. Trata-se de responsabilidade.
Quando atores celebrados emprestam seus rostos para interpretar criminosos, o público esquece que existe um país real, com mães enterrando filhos, com famílias destruídas, com comunidades inteiras marcadas por traumas que não cabem em 90 minutos de filme.
O perigo não está em representar o crime. O perigo está em reverenciá-lo. E, quando o público sai da sala de cinema ou das plataformas enxergando o algoz como vítima e a vítima como figurante, não é a arte que triunfa: é a amnésia moral. Uma amnésia que ameaça transformar a sociedade em um palco definitivo onde o crime é ovacionado — e onde os verdadeiros feridos permanecem invisíveis, silenciados e esquecidos.
