Quando a política vira espetáculo, a verdade se torna detalhe — e o povo, plateia cativa de um show que nunca escreveu.

Vivemos uma era em que o poder deixou de ser exercido e passou a ser performado. O político não governa: ele influencia. Não representa: ele engaja. Não debate: ele viraliza. A arena pública, antes espaço de conflito racional, virou palco, e o Estado converteu-se em uma espécie de indústria cultural refinada, onde a estética importa mais do que a ética, e a forma sufoca o conteúdo.
A transformação é simples e perversa:
o político virou celebridade e, como toda celebridade, precisa de fãs — não cidadãos.
O povo, então, perde a condição de sujeito político e é rebaixado a audiência, medido em métricas, comentários, curtidas, índices de aprovação e índices de rejeição.
O resultado é um fenômeno devastador:
a democracia funciona, mas não implica consciência; governa-se com espetáculo, não com projeto.
O político-celebridade aprende a operar como um astro:
– controla sua narrativa como um gestor de marca;
– cria inimigos para manter a plateia aquecida;
– produz escândalos que garantem relevância;
– transforma gestos mínimos em feitos épicos;
– simula espontaneidade com roteiros milimetricamente preparados.
E o povo, hipnotizado pelo brilho, reage como toda boa audiência:
consome, vibra, torce, se indigna, compartilha — mas raramente decide.
A política, então, vira entretenimento de massa, e o entretenimento de massa vira mecanismo de manipulação. Não se pede mais lucidez, apenas fidelidade. Não se exige preparo técnico, apenas presença nas redes. Não se tolera silêncio, pois silêncio não gera engajamento. E o político que não performa, desaparece.
A pergunta fundamental é:
quem governa uma nação que só enxerga líderes como personagens?
O político-celebridade não pensa em legado — pensa em temporada. Não trabalha para a história — trabalha para o algoritmo. Não teme o fracasso político — teme o flop.
E enquanto a elite política brilha, briga e se autopromove, o povo se acostuma à passividade. A plateia aprende a admirar o espetáculo a ponto de esquecer que ele existe para ocultar a engrenagem. E quando a política vira show, todo sofrimento coletivo é rebaixado a enredo descartável.
O trágico é que a audiência pode até vaiar, mas não escreve o roteiro. Aplaude, mas não toca a câmera. Sofre as consequências, mas não define o desfecho. No fim, a lógica é cruel: celebridades precisam de público, mas governos precisam de povo. E quando o Estado escolhe a primeira opção, a democracia perde a sua própria razão de existir.
