O preto que nega o próprio espelho também pratica o racismo disfarçado de redenção
Por Silver D’Madriaga Marraz
Nada é mais violento do que o preto que aprende a odiar em si o que o branco ensinou a rejeitar. Isto é um fato. O país que se diz mestiço nunca aprendeu a olhar a si mesmo sem disfarce. No Brasil, o racismo não se manifesta apenas na boca que ofende, mas no olhar que hierarquiza, na escola que apaga, na mídia que embranquece, e — o mais perverso — na mente de quem, para sobreviver, aprende a negar a própria cor. O caso do MC Kebradeira, preso por racismo, não é um episódio isolado: é um espelho trincado onde se reflete uma dor coletiva. Quando o preto reproduz o racismo, não é porque se esqueceu do que é — é porque foi ensinado a acreditar que só teria valor se deixasse de ser.
O enbranquecimento é o maior projeto de destruição simbólica da história brasileira. Não se trata de cor da pele, mas de uma pedagogia da exclusão. Desde cedo, o preto aprende que sua beleza é erro, seu cabelo é problema, seu nome é motivo de riso. Aprende a se medir pela régua do outro, a esconder o corpo, a corrigir o tom, a pedir desculpa por existir. A violência que antes vinha de fora, agora habita por dentro. E o racismo, quando internalizado, torna-se uma forma de suicídio cultural.
O preto que ofende o preto não nasceu racista — foi forjado. A sociedade o ensinou que o caminho da aceitação passa pela negação. Assim, o preconceito se traveste de ascensão: alisar o cabelo, mudar a fala, escolher nomes “neutros”, frequentar espaços “brancos” — tudo isso vira estratégia de sobrevivência. Mas o preço da sobrevivência é a amputação da identidade. O corpo passa, mas o espírito fica mutilado.
O caso de MC Kebradeira é o sintoma de uma doença mais antiga do que o Brasil: a crença de que ser preto é uma falha a ser corrigida. O que choca não é apenas o crime, mas o desespero simbólico que ele revela — o de alguém que, ao negar o outro, tenta escapar de si. O racismo, quando se volta para dentro, se torna uma autodestruição social, um círculo de dor que se alimenta de ignorância e culpa.
Grande parte da sociedade branca assiste, hipócrita, como quem lava as mãos. Aplaude o preto que se embranquece, mas condena o preto que resiste. É um jogo perverso: empurra para o fundo e depois culpa por afundar. A prisão do MC é um espetáculo conveniente — não para combater o racismo, mas para reafirmar a hierarquia moral que o sustenta. Prende-se o indivíduo para absolver o sistema.
O embranquecimento forçado não é mais imposto com correntes, mas com promessas: sucesso, aceitação, visibilidade. É a colonização da subjetividade, a escravidão travestida de progresso. E é por isso que dói tanto ver o preto ofendendo outro preto — porque ali não há apenas ofensa, há a confissão de um fracasso coletivo: o fracasso de uma nação que nunca ensinou seus filhos a se amarem como são.
Negar a própria cor é negar a própria história. E quando o preto repete o discurso do opressor, o racismo atinge seu estágio mais sofisticado: o da autossuficiência. Já não precisa ser imposto — ele se perpetua sozinho, de dentro. É a vitória simbólica da branquitude: fazer o oprimido acreditar que o algoz é ele mesmo.
Mas há algo que o sistema não entende: o retorno é inevitável. A cor negada cobra seu preço. Um dia, o espelho se impõe. E quando o preto se vê, não há mais fuga — há dor, mas também libertação. Porque reconhecer-se é o primeiro ato de revolta contra séculos de apagamento.
A prisão do MC Kebradeira não é apenas um episódio judicial; é um retrato moral do país. O que está em jogo não é a culpa de um homem, mas o resultado de uma nação que produziu o tipo mais cruel de racismo — aquele que faz o negro desejar ser o branco que o oprime.
Ele não precisa apenas de prisão neste caso, mas de espelhos. Espelhos que devolvam o rosto perdido, o cabelo negado, a história apagada. Porque enquanto o preto continuar acreditando que precisa se embranquecer para existir, o racismo continuará vencendo — não nas ruas, mas dentro das almas. E talvez a maior tragédia do Brasil não seja o racismo explícito, mas o silêncio cúmplice que o sustenta. Porque o país só mudará no dia em que o preto voltar a amar a própria cor — não como resistência, mas como verdade.
